Opinião

A democracia ameaçada

As primeiras provas da influência do Facebook na manipulação democrática estão aí. A profecia do Admirável Mundo Novo está prestes a concretizar-se.

No último fim-de-semana foram conhecidos os primeiros resultados de um inquérito oficial à manipulação política digital em processos eleitorais. Um comité do Parlamento britânico reuniu durante cinco meses, tendo começado por se propor analisar a existência e influência de notícias falsas e o seu impacto nas redes sociais. Com o avolumar de provas encontradas nos últimos meses e com os escândalos que envolvem o Facebook, o trabalho dos parlamentares ganhou uma dimensão tal que se tornou um documento essencial para compreender a democracia nestes tempos.

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A investigação dos parlamentares britânicos demonstra inequivocamente dois factos: que o Facebook tem um papel activo na manipulação democrática; que a Rússia desempenhou milhares de acções de manipulação política de forma a garantir que o "Brexit" se verificava.

A linguagem do relatório agora publicado é bastante clara, não deixando margem para dúvidas: o "Brexit" ganhou o referendo porque conduziu uma campanha de desinformação apoiada nas redes sociais, contornando todas as leis de propaganda eleitoral e alavancando-se em milhões de libras vindas do estrangeiro, nomeadamente da Rússia.

Já antes, um relatório da Universidade de Oxford confirmava que em 2017 se verificaram acções de manipulação política e desinformação através das redes sociais em 48 países. Nos EUA, as investigações de Robert Mueller devem apontar para provas inequívocas da interferência russa nas eleições americanas. E aí o quadro ficará completo. O Facebook é a máquina perfeita para a manipulação democrática em larga escala e o seu impacto é muito maior do que estamos preparados para admitir, graças à manipulação dos dados pessoais que permitem a criação de campanhas individualizadas que geram emoções. E o nosso espaço público não está preparado para reflectir ou reconhecer estes sinais.

Não se trata aqui de pensar em cenários catastróficos como o que foi anunciado por George Orwell em 1984. Do que se trata é da dócil manipulação que Aldous Huxley tão bem retratou no seu Admirável Mundo Novo, em que o entretenimento levava à ditadura. Não é preciso banir livros ou cultura quando estamos todos anestesiados pelo entretenimento sem fim. É fundamental reconhecer que o Facebook é uma parte essencial do problema da crise democrática e da degradação do espaço público – e que tem de ser resolvido antes que os alertas de Huxley se tornem realidade.