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Carlos Marques tem 29 anos e é estudante do mestrado em Engenharia de Software em Coimbra Adriano Miranda
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UC é uma das duas instituições de ensino superior públicas com um serviço para as crianças dos membros da academia Adriano Miranda

Reportagem

A universidade salvou Carlos de ficar sem creche para a filha

Universidade de Coimbra é uma das duas instituições de ensino superior públicas com um serviço para as crianças dos membros da academia. Pedagogia envolve os pais e tem em conta os interesses das crianças.

A companheira de Carlos Marques estava ainda grávida de quatro meses e o casal já andava à procura de creche para a filha. “Em Coimbra, são muito caras e há poucas vagas”, conta este estudante de 29 anos. Passou umas semanas nessa busca e só encontrou portas fechadas: “Já não havia lugar nos sítios a que fui.” Até que alguém lhe falou na creche da Universidade de Coimbra (UC), uma das duas instituições de ensino superior públicas com um serviço deste tipo.

Por ser estudante do mestrado em Engenharia de Software, Carlos teve acesso privilegiado à creche. Os filhos dos alunos têm prioridade no preenchimento das vagas, seguindo-se as crianças de professores, investigadores e funcionários. Se sobrarem lugares, o público geral pode também aceder ao serviço — o que habitualmente não acontece, dada a procura.

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Pedagogia é conhecida como Reggio Emilia Adriano Miranda

A filha de Carlos Marques entrou na creche aos três meses de idade, em Fevereiro. “Foi logo que possível, porque precisávamos que ela fosse para algum lado”, explica o estudante. Tanto ele como a companheira são originários de Viseu e não têm família em Coimbra. Precisavam de apoio com a criança para que o pai pudesse continuar a ir às aulas e a mãe pudesse retomar o trabalho.

A creche da UC acabou por tirar uma dor de cabeça ao casal. A mensalidade é também mais acessível, o que ajuda no orçamento doméstico. Os preços dividem-se em 12 escalões, dos 36 aos 247 euros, consoante as condições socio-económicas da família.

Pedagogia inovadora

Em fila indiana e com as mãos no corrimão, as crianças da creche da UC descem a escadaria de madeira. Usam batas coloridas com os seus nomes bordados e movimentam-se muito lentamente. Pé ante pé, até ao rés-do-chão. Aproxima-se o final da tarde e vão brincar no exterior. Não há uma hora marcada para a brincadeira, mas a passagem pelo jardim do edifício é diária e insubstituível. Faça chuva ou faça sol.

Neste Verão que tarda em sê-lo, ninguém esperaria que ainda fosse preciso vestir galochas e capas de chuva antes de brincar. O clima obriga por isso a uma espécie de ritual de preparação das crianças antes de poderem ir para o jardim.

Têm entre um e dois anos. À medida que saem da porta branca, correm para o escorrega, dançam em volta da grande palmeira no centro daquele espaço ou atiram-se de joelhos sobre os canteiros, mexendo, sem medo, na terra. “Fizemos sociedade com uma marca de lixívia”, brinca Tânia Covas, mãe de uma das crianças, que é gestora de inovação da divisão de inovação e transferências do saber da UC.

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Os filhos de Carlos Marques, Tânia Covas e Daniel Montesinos frequentam os serviços da UC Adriano Miranda

“A roupa chega a casa e são precisos alguns dias para voltar uma certa coloração”, prossegue, entre risos. “Como biólogo tenho que dizer que é bom para o sistema imunitário que as crianças façam aquilo que o instinto lhes diz, que é porem terra na boca”, contextualiza Daniel Montesinos, investigador no Centro de Ecologia Funcional, que também tem um filho na creche. “Todas aquelas bactérias contribuem para reduzir as alergias e ter um sistema muito mais resistente”.

A creche e o jardim-de-infância da UC — ambos geridos pelos Serviços de Acção Social da universidade — usam uma abordagem pedagógica conhecida como Reggio Emilia, que privilegia a participação dos pais e familiares no processo de aprendizagem e mediante a qual o currículo é baseado nos interesses das crianças e na pedagogia em participação. Os pais parecem rendidos ao sistema.

É a segunda vez que Tânia Covas e Daniel Montesinos têm filhos que são colegas. A filha mais velha do biólogo só entrou para o jardim-de-infância da UC aos três anos. O irmão está na creche desde bebé. “A minha filha foi estimulada na outra creche, mas os estímulos dela com dois anos não têm nada a ver com os que o meu filho tem com a mesma idade”, conta.

“Ter este espaço para brincarem no exterior no centro da cidade é único”, valoriza Tânia Covas, que junta à abordagem pedagógica da creche da UC uma outra vantagem: “têm à disposição todo o arsenal da universidade”. Isso quer dizer que, no ano passado, as crianças puderam assistir, por exemplo, a um concerto exclusivo da cantora brasileira Adriana Calcanhotto — que é embaixadora da UC, depois de ter sido professora convidada em 2017 —, visitar um laboratório de nanotecnologia ou pilotar um drone do departamento de robótica.