Jessica Wade tem 30 anos e é investigadora em Física no Imperial College de Londres.
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Jessica Wade tem 30 anos e é investigadora em Física no Imperial College de Londres. DR

Há mais mulheres cientistas na Wikipedia e a culpa é de Jessica Wade

A investigadora britânica fartou-se da falta de reconhecimento das mulheres cientistas e decidiu criar entradas na enciclopédia colectiva para todas elas. Desde Janeiro, Jessica Wade já criou 270 perfis na Wikipedia.

Quem se lembra de algo que não seja possível encontrar na Wikipedia? Do desporto à religião ou da história ao cinema, poucas são as discussões que não podem ser resolvidas com um fact-checking nesta plataforma. Mas quantas entradas existem sobre mulheres cientistas? Neste caso, o cenário é diferente e Jessica Wade, investigadora de pós-doutoramento em Física do Imperial College de Londres, tomou como sua a missão de o mudar.

Foi em Janeiro último que Jessica, de 30 anos, se desafiou a si própria para escrever, todos os dias, a biografia de uma mulher cientista na Wikipedia. “Há algum tempo, aprendi a editar na Wikipedia, através de um projecto — Wellcome Collection Wikimedian — que inseria histórias de engenheiras na Wikipedia. Ao mesmo tempo, estava a ler o livro Inferior - How Science Got Women Wrong and the New Research That's Rewriting the Story, de Angela Saini”, conta a investigadora, por email, ao P3. Foi precisamente o livro que despertou a vontade em fazer mais pela causa. “Além de ser um olhar assustador da origem dos estereótipos, Inferior é uma história encorajadora sobre as mulheres que lutaram contra eles. Eu li este livro e quis ser uma dessas mulheres”, afirma.

Comprometeu-se a escrever uma entrada por dia, até 31 de Dezembro. “A minha mãe acha que eu devia chegar às mil biografias”, conta Jessica. Até agora criou 270, mas promete continuar “enquanto houver histórias para contar.” A Wikipedia é uma plataforma privilegiada para chegar às pessoas e isso também pesou na escolha da investigadora. “Os blogues são óptimos para expor ideias e planos, mas normalmente estão escondidos na internet e são encontrados apenas por quem os procura. A Wikipedia é o quinto site mais visitado do mundo. Quando os jovens procuram algo no Google e encontram uma página na enciclopédia colectiva, é a primeira coisa a que acedem. Ter uma página na Wikipedia valida os cientistas e as suas contribuições para o campo”, explica.

Mas a consciência da falta de representatividade das mulheres no campo científico apenas surgiu quando Jessica já era aluna de doutoramento. Filha de médicos, a ciência sempre fez parte da sua vida. Além disso, tinha estudado numa escola frequentada apenas por raparigas e, na faculdade, estava tão preocupada em terminar o curso que nem notou que havia poucas colegas. Quando chegou ao doutoramento, foi atingida pelo choque de pertencer a um grupo minoritário.

Na esperança de obter representatividade, começou por dar palestras para divulgar a ciência junto das mulheres, incentivando-as a participar e a aprender. Contudo, rapidamente percebeu que ao mencionar a baixa percentagem de mulheres no mundo da ciência — 9% — estava a tornar o discurso pouco apelativo. Foi assim que percebeu que teria de mudar de táctica e começou a criar as entradas na Wikipedia.

A primeira que criou foi a de Kim Cobb, uma cientista americana dedicada ao estudo do clima. Pouco tempo depois, Jessica assistiu a uma palestra de Susan Goldberg, editora da National Geographic, e percebeu que também ela não tinha uma entrada na Wikipedia. "Eu pensei que isso era um ultraje e fiz a página dela", contou a investigadora ao The Guardian. Emma McCoy, a primeira professora de Matemática no Colégio Imperial de Londres, também já tem uma entrada na enciclopédia colectiva graças a ela. E é assim, página a página, que a investigadora vai tentando mudar o panorama no mundo científico.

Apesar dos esforços realizados, Jessica refere que “algumas pessoas ainda pensam que a ciência é para homens.” “Basta olhar para os comentários no artigo do The Guardian ou Reddit AMA. Eu não me importo com os trolls, mas quero assegurar-me de que professores e pais sabem o quanto é que as mulheres podem contribuir — e contribuem, de facto — para a ciência e engenharia”, refere.

O activismo de Jessica, contudo, não se esgota na Wikipedia. Em conjunto com outras duas cientistas – Alice White e Claire Murray –, treina pessoas que queiram começar “a sua própria viagem pela edição de entradas”. Além disso, trabalha com o Instituto de Física, num projecto chamado Improving Gender Balance, na busca por um maior equilíbrio entre géneros na área da Física. “Eles têm trabalhado, ao longo de dez anos, para melhorar os números de raparigas que escolhem Física de nível A [jovens de 17 e 18 anos]. Nós precisamos de mais raparigas nesta área, porque precisamos de mais ideias novas”, explica. A investigadora refere ainda que faz workshops e eventos para celebrar as contribuições de pessoas que são subvalorizadas na ciência.

“Apesar do meu entusiasmo, apenas 17% das biografias na Wikipedia inglesa são sobre mulheres. É a mesma percentagem em Portugal. Isso significa que 83% das vezes vamos ler sobre homens notáveis”, lamenta Jessica. Apesar de o equilíbrio no número de biografias de homens e mulheres na enciclopédia colectiva ser algo que ambiciona e consideraria “fantástico”, a investigadora quer “tornar a Física e a Engenharia num mundo melhor para todos os que estão dentro dele.”

E isso passa por “melhorar os conselhos profissionais que são dados aos jovens e apoiar mais os professores, talvez gastando mais dinheiro em treinos estabelecidos para eles”. A investigadora lamenta que os professores sejam “mal pagos, pouco reconhecidos e enterrados em tarefas administrativas.”

Jessica deixa um desejo — “tornar a comunidade mais inclusiva e sustentável” — e dicas para quem quiser lutar pela causa. “Podes começar a tua própria jornada de edição, usando as ferramentas da minha amiga Alice [White] ou ler um artigo da Maryam Zaringhalam na plataforma 500 Mulheres Cientistas acerca de editathon [maratona de edição em comunidades como a Wikipedia].”