Trump reuniu-se com o dono do The New York Times – e a conversa azedou

A. G. Sulzberger e Donald Trump encontraram-se há dez dias na Casa Branca, a pedido do chefe de Estado. Seria uma reunião off the record, mas Trump acabou por revelá-la. E agora há duas versões sobre o que se passou.

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Sulzberger, de 37 anos, é o "publisher do NYT e contraria a versão de Trump sobre a reunião dos dois em Washington Damon Winter/The New York Times

Não são de hoje os ataques ferozes do actual Presidente dos Estados Unidos ao jornalismo, nem são de hoje as reacções determinadas de redactores, cronistas e directores de jornais e televisões. Entre os alvos preferenciais de Donald Trump na imprensa está o diário The New York Times, que tantos artigos nada abonatórios para o inquilino da Casa Branca tem publicado desde que Trump assumiu funções. Uma campanha difamatória sem precedentes, dirão os apoiantes do Presidente, simplesmente jornalismo, dirão os que o criticam e contrapõem que, se as histórias lhe são prejudiciais, é porque motivos não faltam.

Trump e o jovem patrão do The New York Times (NYT), A. G. Sulzberger, de 37 anos, voltaram agora à arena – o Presidente através do Twitter, como é habitual, e o dono da publicação recorrendo a um comunicado de cinco parágrafos. Na base das divergências estão leituras diferentes do encontro entre os dois, realizado a convite do Presidente, a 20 de Julho, na Casa Branca. Um encontro que, julgou Sulzberger, seria privado e, naturalmente, “off  the  record”. Enganou-se.

Este domingo de manhã, a partir do clube de golfe de Bedminster, Trump escreveu no Twitter que tivera uma “reunião muito boa e interessante” com o responsável do NYT  e que tinham conversado sobre “a grande quantidade de notícias falsas publicadas pelos media  e como elas se transformaram na frase ‘Inimigo do Povo’.” Acrescentando, para rematar: “Triste!”.

Sulzberger, um homem que foi jornalista, chegou a dirigir a delegação do NYT em Kansas City e a 1 de Janeiro substituiu o pai como o publisher daquele influente diário norte-americano, reagiu duas horas depois, dizendo que aceitou reunir-se com o Presidente para lhe manifestar a preocupação quanto ao que definiu como a “retórica anti-imprensa profundamente perturbadora” do chefe de Estado. “Disse ao Presidente que a linguagem dele não é só fracturante, mas também cada vez mais perigosa”, continuou.

Embora não tenha deixado de afirmar que a expressão ‘notícias falsas’ (as ‘fake news’ a que o Presidente americano tantas vezes se refere no Twitter, em conferências de imprensa e em encontros com as bases) é “infundada” e “prejudicial”, Sulzberger admitiu estar muito mais preocupado com o facto de Trump rotular os jornalistas de “inimigos do povo”. “Avisei-o de que este tipo de linguagem inflamatória está a contribuir para aumentar as ameaças contra os jornalistas e que levará à violência”, algo particularmente visível no estrangeiro, com outros a tomarem a retórica do Presidente como inspiração para carregar sobre profissionais da informação, acrescentou o patrão do NYT. A mesma retórica que, garante, “põe vidas em risco” e “enfraquece os ideais democráticos” dos Estados Unidos.

A resposta de Trump ao comunicado que divulga a versão de Sulzberger sobre a reunião de há dez dias não se fez esperar. De novo via Twitter, Donald Trump voltou a dirigir ataques contra o diário com o qual tem tido uma relação difícil: “Quando os media, levados à loucura pela sua Síndrome do Transtorno de Trump, divulgam decisões internas do Governo que verdadeiramente põem a vida de muitos, não apenas a dos jornalistas, em risco! Muito antipatriótico!”

Destacando que a liberdade de imprensa anda a par da responsabilidade de noticiar correctamente o que acontece, o Presidente acrescentou: “90% da cobertura que os media fazem da minha Administração é negativa, apesar dos resultados tremendamente positivos que temos conseguido. Não surpreende que a confiança nos media tenha atingido o ponto mais baixo de sempre! Não deixarei que o nosso grande país seja vendido por detractores que odeiam Trump na moribunda indústria dos jornais.”

A imprensa tem sido frequentemente criticada pelo Presidente, que não se coíbe, por exemplo, de exortar os americanos a que deixem de ver a CNN ou de, num ou noutro comício, pedir aos apoiantes que manifestem repúdio pela cobertura que é feita do trabalho da Administração que encabeça, dirigindo vaias aos jornalistas presentes.

“Continuem connosco. Não acreditem nas porcarias que vêem [escritas, filmadas] feitas por pessoas, nas notícias falsas”, disse num encontro recente com veteranos, lembrava o NYT no domingo. “O que vocês estão a ver e o que vocês estão a ler não é o que está a acontecer.”

No domingo à tarde, ainda via Twitter, Trump reiterou o argumento: “Não interessa o quanto eles tentam distrair e encobrir – o nosso país está a fazer grandes progressos sob a minha liderança e eu nunca vou deixar de lutar pelo povo americano! O falido The New York Times e o The Washington Post  da Amazon não fazem outra coisa senão escrever histórias más, mesmo sobre resultados muito positivos – e eles nunca vão mudar.”

Numa breve conversa telefónica já pós-comunicado – um documento que Sulzberger garante ter emitido apenas porque o tweet  de Trump (o de domingo de manhã) deu conta de uma reunião cujo conteúdo a Casa Branca pedira para manter “off  the  record” – o patrão do The New York Times disse ao jornalista que cobria o assunto para aquele diário que saíra do encontro sem ilusões quanto a um possível efeito benéfico sobre a retórica do Presidente, embora sentisse que ele prestara atenção aos argumentos. Lembrou ainda, entre outras coisas, a surpresa de Trump quando lhe deu conta de que, em virtude das ameaças crescentes contra os profissionais, os jornais começavam a ter guardas armados à porta, algo que o chefe de Estado pensava ser prática corrente há já muito tempo.

Digamos antes “amigos do povo”

O Presidente norte-americano chamou aos media “inimigos do povo” pela primeira vez no ano passado, recorda a televisão pública britânica, merecendo críticas de todos os quadrantes. Jeff Flake, senador do Arizona pelo Partido Republicano, o mesmo que elegeu Trump, classificou o uso da expressão como um ataque “sem precedentes” e “injustificado” da Casa Branca contra a liberdade de imprensa, exemplifica a BBC.

Num país em que, de acordo com uma sondagem recente da televisão americana CBS, 91% dos “fortes apoiantes” de Trump confiam no empresário para lhes dar informação rigorosa e apenas 11% dizem o mesmo dos “media mainstream”, a palavra do Presidente ainda é para levar a sério. Resta saber se esta base de apoio chega para o reeleger em 2020.

No sábado à noite, escreve o diário britânico The Guardian, o editor executivo do The Washington Post, Marty Baron, fez comentários que implicitamente aludiam ao discurso de Trump sobre os media num encontro em memória das cinco pessoas mortas no mês passado no ataque ao jornal Capital Gazette, em Anápolis, Maryland – Baron referiu-se às vítimas como “amigos do povo”. Nenhum deles, garantiu o jornalista do The Washington Post, “merece ser visto como um inimigo por causa da profissão que escolheu ou do sítio onde trabalhava”. E continuou: “Diminuir as pessoas desta forma, diabolizá-las, desumanizá-las, é rebaixar-se”.

O chefe de Estado condenou publicamente o ataque à Capital Gazette, mas a Casa Branca não se absteve, logo em seguida, de barrar a entrada de Kaitlin Collins, jornalista da CNN, num dos eventos depois de esta ter feito “perguntas desapropriadas” (palavras da Administração Trump) sobre pagamentos a uma modelo da Playboy com quem, alegadamente, o Presidente teve uma relação amorosa. O episódio Kaitlin Collins levou a um protesto generalizado dos media que inclui até a Fox News, o canal de informação que o Presidente prefere.