Crítica

Uma personagem mitológica jogável em Perm, Rússia

Curto e com uma jogabilidade básica, The Mooseman tenta ser uma lição em formato jogável. Perde na interacção básica, ganha na apresentação carismática e na sonoplastia acentuadora.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Aqui vamos outra vez para um videojogo que estará dissociado à partida dos grandes círculos comerciais. Olhos esbulhados pela arte, coração partido pela jogabilidade estanque, The Mooseman será um daqueles videojogos que nunca ouviram falar. Não faz mal, pois isto de analisar videojogos também envolve um pouco de escavação - e esta proposta saltou do fundo do baú agora que chegou também às consolas.

Proposta em duas dimensões horizontais, somos afastados do holofote que coloca em destaque certas obras e assim perceber o que valem os contos dos povos fino-úgricos e as tribos da Europa do Norte. Somos então um Xamã que se desloca horizontalmente pelo cenário; somos então um Xamã que percebe e se move em vários planos de existência. Consumidos pela alegoria e pelo folclore, os jogadores são convidados a saltar para uma realidade calcorreando entre várias.

Começar a jogar e enveredar pela proposta que é The Mooseman, acaba por ser descobrir o encantamento que a sua cuidada arte oferece à cena dos videojogos, mas também não deixar de notar o quão rudimentar a jogabilidade é. Há o aspecto místico e também o lado mitológico, mas a sua essência coloca o jogador cara a cara com um protagonista que tem a habilidade de ir saltando entre os mencionados planos que se sobrepõem a comando, resolvendo puzzles básicos enquanto percebe a história que lhe é contada através de mínimas interacções com o cenário.

Os processos da jogabilidade são simples, tão simples que a própria produtora está ciente disso, informando o jogador que dois toques no comando fazem a personagem deslocar-se automaticamente. Pressionar um botão activa um segundo plano de existência, sobrepondo pinturas e hieróglifos que acabam por ser a indumentária necessária para quebra-cabeças inseridos nos cenários que não colocam um desafio maior que alguns segundos.

Com este alternar entre realidades, a existência e o pensamento sobre quem somos e o papel no mundo pode ser despoletado, principiando-nos a meditar sobre o que valemos nestes anos todos, mas nos processos executivos da jogabilidade estamos a participar no básico: criaturas que se deslocam consoante a nossa presença para forma pontes e facilitar o caminho, a deflexão e o esconderijo temporário fora do olhar de outras criaturas mitológicas; enfim, a alegoria entre a excelente filosofia e a rasteira execução se medida pelo que os videojogos são tidos em conta.

Os jogadores que aceitarem o convite para esta filosófica compreensão da indústria, perceberão rapidamente que há muito para ler, até porque o jogo faz questão de o salientar incontáveis vezes à laia de ensinar e de explicar o folclore em que está inserido. A progressão sem o desafio é recompensada pelo que é escrito - assim haja paciência - voltando a agarrar-nos para este mundo que nos explica e nos espicaça a imaginação.

A produtora sabe bem que o seu videojogo não é complicado. É verdade que tudo isto pode ser concluído numa tarde de dedicação, mas mesmo na sua segunda parte, The Mooseman chega a oferecer a possibilidade de usar setas e um arco, chega a oferecer a oportunidade ao protagonista de iluminar o caminho, mas nada complica em demasia aquilo que se torna evidente ser uma viagem de descoberta.

Com esta filosófica e histórica bagagem, ainda que nem sempre executada da melhor forma, The Mooseman acaba por resultar melhor na hora de ilustrar aquilo que quer dizer. Saltando entre sombras, tal como uma selecção de pinturas rupestres insufladas de nova vida, estas personagens movem-se por cenários que as complementam, que lhes dão uma profundidade que talvez os jogadores tenham alguma dificuldade em encontrar no que é escrito.

Vivendo muito de silhuetas e das suas justaposições, claro que tudo isto esconde também a ausência de precisão, mas do ponto de vista artístico, The Mooseman, também pelo design das criaturas que coloca no nosso caminho, vai invadindo os sentidos que entretanto foram ficando adormecidos pela falta de desafio.

Ainda uma nota para a banda sonora. O folk Komi está presente para enaltecer as situações mais importantes, sendo atmosférica o suficiente para dar consistência ao que sentimos com a obra à frente. De notar ainda que a temporização com que ocasionalmente os silêncios é executada tem a mestria de acentuar a solidão.

A aventura 2D que é The Mooseman não se prolonga também no preço, sendo comercializada por 6,99€. A arte fica com o jogador muito depois da jogabilidade sair de cena. Podia ser melhor, mais incisivo e profundo, mas é uma viagem que opta mais por demonstrar do que deixar interagir. No seu cerne, The Mooseman é um videojogo-aula esbelto.

Produtoras: Morteshka, Sometimes You

Plataformas: PC, PlayStation 4, Switch, Xbox One