Na estreia de Rui Rio, foi Jardim quem brilhou

O antigo líder do PSD-Madeira concentrou atenções na festa de Chão da Lagoa, em nome da unidade dos social-democratas madeirenses

Rui Rio esteve com Miguel Albuquerque e Alberto João Jardim em Chão da Lagoa
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Rui Rio esteve com Miguel Albuquerque e Alberto João Jardim em Chão da Lagoa LUSA/HOMEM DE GOUVEIA

Com Jardim, a festa é outra. Três anos depois, o antigo líder do PSD-Madeira voltou a subir ao planalto do Chão da Lagoa para a tradicional festa dos social-democratas madeirenses, dividindo o espaço mediático e político, com as actuais lideranças regionais e nacionais do partido.

Tinha saudades? “Claro que sim”, responde, aos jornalistas que o circundam. Braços cruzados sobre o balcão de madeira da barraquinha de Santa Luzia, a freguesia do Funchal onde fez-se político e onde sempre viveu durante os 37 anos que governou o arquipélago, Jardim regressa a festas passadas e justifica a ausência no palco. “Não preparei a prosa. É que mesmo quando insultuosa, a prosa era do melhor.”

Naquela que foi a estreita de Rui Rio na “maior festa do PSD à escala nacional” – palavras do próprio – acabou por ser Alberto João Jardim, mesmo sem subir ao palco, quem concentrou atenções. Primeiro o líder regional da JSD, Bruno Melim. Depois Miguel Albuquerque. Rui Rio a terminar. Um atrás do outro, todos a homenagear Jardim, que ouviu as intervenções oficiais no meio da jota.

“Se em vez de um dr. Alberto João Jardim, tivéssemos tido três ou quatro. Imaginem como não seria Portugal hoje”, disse Rio, considerando o antigo governante madeirense como uma “referência” da social-democracia portuguesa. Antes, Albuquerque, que passou os primeiros anos de liderança partidária de candeias às avessas com Jardim, mandou do palco um abraço para o “grande líder” do PSD-Madeira. “Eu pedi para ele vir para o palco, mas ele quis ficar junto da juventude pelo seu espírito jovem, pela sua garra, pela sua determinação”, contou o líder dos social-democratas madeirenses, arrancando aplausos às cerca de 25 mil pessoas (números da organização) que marcaram presença na Herdade do Chão da Lagoa.

Esta (re)aproximação pouco tem de casual. Depois da saída de Jardim no final de 2014, o partido, dividido em várias sensibilidades, perdeu pujança. O PS tem aproveitado. Nas regionais de 2015 o PSD segurou a maioria absoluta, embora por um único deputado, mas os socialistas têm ganho terreno. As últimas sondagens, publicadas esta semana, davam uma diferença mínima entre os dois, com o PSD à frente com meio ponto, mas longe da maioria absoluta.

É por isso preciso o partido unido. É por isso que quando Rio e Albuquerque chegaram ao recinto da festa, por volta das 10h45, já Jardim lá estava para os receber. Acompanhou-os depois no início da tradicional ronda pelas barraquinhas, representativas das 54 freguesias da região autónoma, mais a da JSD, da TSD e da ARASD, que ladeiam o recinto, e pelo meio foi deixando recados políticos. Para as eleições regionais do próximo ano, diz não lhe passar pela cabeça o PSD não ganhar. Sobre o Bloco, e a polémica do momento, não se mostrou surpreendido. Fiel ao estilo, dispara: “O bloquinho é formado por pequenos burgueses que gostariam de estar no PS e que o PC não quis”. Depois, fundiu-se com a multidão e cedeu o espaço às novas lideranças que seguiram caminho.

Poncha, cerveja, licor de eucalipto, mais cerveja, mais poncha, vinho e de novo cerveja. Rio, de autocolante ao peito a dizer ‘PPD com muito orgulho’, igual ao levado por todos os dirigentes do PSD-Madeira, não estranhou a festa. “Estou com muito boa impressão. É popular e de adesão genuína”, disse aos jornalistas, gracejando: “a poncha vai ajudar nos discursos”.

No palco, depois de visitadas as 57 barracas, e com um compasso de espera pelo meio para afagar o estômago, Rio regionalizou o discurso. Autonomia, disse, é diferente de independência, e por isso o Estado não pode “lavar as mãos” em matérias que têm a obrigação de intervir. “Não é justo que taxa de juro para quem vive na Madeira seja mais alta do que a do resto do país”, exemplificou, terminando com as regionais do próximo ano no horizonte. “Em equipa que ganha não se mexe, e a Madeira é uma equipa que ganha há 40 anos”, disse, pedindo aos madeirenses para não embarcarem em aventuras e votarem nos socialistas.

Albuquerque falou primeiro. Acusou o PS da Madeira de estar “agachado” para Lisboa, reforçou a importância do partido estar unido – “acima dos nossos egos, está a Madeira” – e insistiu que o PSD é o único que defende a autonomia. “Do lado estamos nós, aqueles que governam a Madeira e do outro estão os comunistas e os socialistas feitos com o centralismo de Lisboa”, concluiu, depois de percorrer os compromissos eleitorais já cumpridos e de acusar a “gerigonça” em Lisboa de “enganar” os portugueses.

Acabam-se os discursos. Os políticos deixam do palco. Sobe David Carreira. Para o ano há mais, e Rio promete voltar.