Opinião

O guarda-costas e o Presidente

A arrogância do poder pessoal pôs em causa a imagem reformista de Macron e criou-lhe muitos anticorpos.

Um episódio de violências policiais protagonizado pelo principal guarda-costas do Presidente Macron tornou-se o maior affaire político e mediático francês no último ano e poderá custar ao actual chefe do Estado não só grande parte da aura que havia conquistado como comprometer a sua credibilidade para levar avante as reformas lançadas desde a sua inesperada vitória em Maio de 2017. Há uma semana que o caso ocupa várias páginas diárias do Le Monde, desde a sua revelação por aquele jornal a partir de imagens vídeo do guarda-costas presidencial a bater num casal de manifestantes no último 1.º de Maio em Paris. 

Dir-se-ia que se trata de um típico psicodrama gaulês, o que justificaria a quase indiferença da imprensa internacional e, nomeadamente, portuguesa. Acontece, porém, que as suas implicações são bastante instrutivas a nível político e mediático: como é que um fait-divers aparentemente anódino se pode tornar tão incendiário e objecto de uma exploração tão ávida por parte dos partidos de oposição, media tradicionais e redes sociais franceses, com a sua já inevitável componente de “fake-news”? Não será esse um sinal revelador dos tempos em que vivemos? 

Tudo começou quando Alexandre Benalla, o guarda-costas de 26 anos, apareceu ao lado da polícia como “observador” de uma manifestação – por motivos ainda hoje mal esclarecidos – e a coberto de uma viseira que aparentemente lhe assegurava o anonimato decidiu responder violentamente às atitudes agressivas do tal casal de manifestantes. Não fosse, porém, a revelação desses factos pelo Le Monde, é duvidoso que os poderes públicos acabassem por reagir manifestamente contrariados e em flagrante descoordenação, culminando no despedimento de Benalla, a sua constituição como arguido, um longo discurso de Macron perante os seus correligionários – claramente embaraçados com as repercussões do caso – e até uma também longa entrevista do próprio guarda-costas ao Le Monde, a penitenciar-se da sua atitude irreflectida que levou o Presidente a considerar-se “decepcionado” e “traído” por ele. Curiosamente, numa passagem do seu discurso, Macron chegou a desmentir que Benalla fosse seu amante, um rumor posto a circular nas redes sociais a partir de inexistentes notícias do Le Monde.

Para além dos seus aspectos picarescos, este fait-divers pôs a nu a disfuncionalidade da organização política e administrativa de um Estado que Macron pretendia tornar eticamente “exemplar”, mas onde cada qual continua a passar as culpas para o vizinho. Foi isso, aliás, que levou o Presidente a afirmar: “O único responsável por este caso sou eu e apenas eu”. Ora, essa responsabilidade solitária deve-se, sem dúvida, ao exercício de uma autoridade vertical e majestática por Macron – o “Presidente Júpiter”, como é conhecido em França. 

A arrogância do poder pessoal pôs em causa a imagem reformista de Macron e criou-lhe muitos anticorpos na opinião pública e entre os media que agora aproveitam este deslize – de proporções quase anedóticas – para ajustar contas. É uma cena de que nem Macron nem os media saem bem – e leva a reflectir sobre os exageros de parte a parte –, afectando gravemente as reformas em França mas também na Europa, onde o Presidente francês se vem afirmando como o esteio mais convicto das mudanças na arquitectura europeia, contrabalançando as derivas nacionalistas e populistas que atravessam o continente. Que os apetites justiceiros do guarda-costas principal mas manifestamente imaturo de um Presidente possam estar na origem de tudo isto leva-nos de facto a reflectir sobre a perigosa perda de equilíbrio e confusão de valores não apenas em França mas um pouco por toda a parte neste mundo às avessas (e a que nós, na nossa ilusória concha portuguesa, também não estamos imunes).