Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: aviões

Na última semana, vários “aviões” aterraram nas notícias. Três porque partiram de Portugal para ajudar a Suécia, um porque veio a Beja e é o maior do mundo e muitos da Ryanair porque não chegaram a descolar.

O substantivo masculino “avião” tem origem na língua francesa, avion, e significa “aparelho de navegação aérea, com duas asas, de dimensões e funções muito variadas, que se desloca na atmosfera por meio de motores, a hélice ou a reacção”.

Um dicionário mais antigo acrescenta ser “o mesmo que” “aeroplano”, “hidrovião”, “hidroplano”. 

Na última semana, vários “aviões” aterraram nas notícias. Na segunda-feira, ficava a saber-se que Portugal enviaria dois aviões para combater incêndios na Suécia — numa espécie de reviravolta climática. “Os dois aviões médios anfíbios disponibilizados à Suécia pelo Governo português partem nesta terça-feira de manhã”, escreveu-se. Informou-se ainda que a Força Aérea Portuguesa disponibilizava um voo de apoio (C295).

No mesmo dia, outra “aeronave” merecia vasto tempo de antena: o Airbus A380, maior avião de passageiros do mundo, aterrou em Beja. Num aeroporto há muito desprezado (desde 2011) e numa região mais desprezada ainda, como bem lembrou o Movimento Beja Merece +. 

Na notícia, podia ler-se que o Governo continua a “não adiantar uma data para a electrificação da via-férrea entre Casa Branca/Évora e Funcheira/Ourique ou a abertura do IP8, que tem um troço de 16 quilómetros concluído mas que não abre ao trânsito há quase um ano por alegadamente ter havido um erro na concepção da respectiva portagem”. Lamentável. Mais ainda quando não há discursos políticos sem o uso repetido da palavra “interior”.

Por último, as páginas e os ecrãs noticiosos europeus foram sobrevoados pelos “aviões” da companhia irlandesa Ryanair, em resultado do protesto das tripulações de cabine. Exigem que se aplique a legislação nacional para a licença de parentalidade, garantia de ordenado mínimo e que se retirem processos disciplinares por baixas médicas ou vendas a bordo abaixo das metas definidas pela empresa.

Os passageiros afectados reclamam muito, mas gostam de pagar pouco para viajar por aí. Estão de férias e a desfrutar dos seus direitos... São os mesmos que se indignam com o encerramento das livrarias, mas compram livros através da Amazon. 

“Avião”, no Brasil e num uso informal, é um “vendedor de droga em pequenas doses” — um “passador”. Cá e lá, também se pode chamar “avião” a uma “pessoa considerada muito atraente”. Mas esses são outros voos.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO