Espanha

Pablo Casado: guiado pela mão de Aznar eu vou

Com 37 anos, Casado chega à liderança do PP prometendo a viragem para um “partido liberal, católico e patriótico” e completando a transição geracional no panorama político espanhol.
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Pablo Casado Javier Barbancho/Reuters

Em Janeiro de 2015, com 33 anos, Pablo Casado acabava de ser nomeado por Mariano Rajoy porta-voz da campanha do Partido Popular espanhol (PP) para as eleições autonómicas e municipais. Subia mais um degrau na hierarquia e por esta altura já o El Mundo escrevia: “Só o tempo dirá até onde chega a sua ascendente carreira no partido da calle Génova de Madrid, mas o certo é que a sua figura já não passa despercebida dentro e fora das suas fileiras”.

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Três anos depois foi proclamado presidente dos conservadores e prometeu uma nova vida ao PP.

No dia 21 de Julho, Casado obteve 57% dos votos nas primárias do PP, derrotando a vice-presidente do Governo de Mariano Rajoy, Soraya Sáenz de Santamaría. Agora com 37 anos, o advogado de formação garantiu uma refundação do partido abalado nos últimos anos pelos casos de corrupção e em queda vertiginosa nas sondagens, e apresentou uma série de propostas que sinalizam uma clara viragem à direita. O discurso caiu bem no seio dos militantes conservadores que escolheram esta via em detrimento da continuidade da linha “marianista” que representava Soraya.

Empurrão de Aznar

A vitória de Casado nas primárias do PP marca também o regresso do “aznarismo” ao partido. Uma das mãos que o ajudou a subir estes degraus foi a de José María Aznar, antigo primeiro-ministro (1996-2004). “Se alguma vez alguém tiver de me renovar, que me renove Pablo Casado. É um tipo fantástico”, dizia o ex-presidente do Governo espanhol em 2015.

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"É um jovem sorridente, anticastrista, antiaborto e anti-Che, que consegue ter ênfase e paixão para mobilizar a direita" Javier Barbancho/Reuters

Mas o seu primeiro “padrinho” político foi Alfredo Prada, então conselheiro de Justiça e do Interior da Comunidade de Madrid, que abriu em 2003 as portas do partido a Casado numa altura em que este era ainda estudante universitário.

Dois anos depois, passou para a liderança da juventude partidária, as Nuevas Generaciones (Novas Gerações). Nessas funções, realizou uma viagem a Cuba para se encontrar com dissidentes do castrismo.

“Fidel agoniza, e o seu regime estalinista há-de morrer com ele. Até isso acontecer não há meio-termo: ou se está com o comandante liberticida, ou com os dissidentes que arriscam a sua vida pela liberdade”, escrevia Casado, em 2007, num texto publicado no site  Libertad Digital. “Talvez seja demasiado tarde para que Castro responda pelo seu pernicioso legado perante a Justiça, mas sem dúvida que o fará perante a História que, contrariamente ao seu desejo, não o absolverá”.

Como diz o jornal El País, Pablo Casado, licenciado em Direito e em Gestão de Empresas, filho de médicos e nascido em Palência na comunidade de Castela e Leão em 1981, “já não é aquele jovem de discursos inflamados antisocialistas e anticomunistas que cresceu nas estruturas das Nuevas Generaciones”. (Mas já por essa altura dava mostras da direcção na qual se inclina o seu traço ideológico).

Inserido na estrutura partidária de Madrid, por volta de 2007 Casado tinha caído nas boas graças de Esperanza Aguirre, líder do partido nesta comunidade e que se tornou também “madrinha” política.

“Casado é a melhor opção para a refundação que necessitamos no partido”, disse Aguirre durante a campanha para as primárias. “Jovem, com princípios, que não se envergonha de os defender, e que se dá bem com todos, de Rajoy a Aznar”, disse a mulher que caiu em desgraça ao ver-se obrigada a demitir-se, no ano passado, do cargo de porta-voz do PP em Madrid na sequência da prisão do seu braço direito por desvio de fundos.

Em 2007 foi eleito deputado da assembleia madrilena, cargo que desempenhou até 2009.

Foi neste ano que a mão de Aznar se começou verdadeiramente a fazer sentir na sua carreira, catapultando-o definitivamente, ao ser nomeado chefe de gabinete do primeiro-ministro. Nestas funções, viajou pelo mundo e conheceu os líderes mundiais, de Tony Blair a George W. Bush.

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Com a chegada de Casado ao PP completa-se outra mudança - a geracional EMILIO NARANJO/EPA

A relação entre ambos foi de tal maneira próxima que Aznar foi um dos poucos membros do PP convidado para o casamento de Casado (com Isabel Torres Orts, com quem tem um filho e uma filha).

Sorridente e conservador                                    

Já depois de ter conquistado um lugar de deputado no Parlamento nacional, Mariano Rajoy tornou-o porta-voz da campanha para as municipais e autonómicas de 2015. Rajoy nomeou-o depois vice-secretário-geral de comunicação do Governo. Neste cargo teve de enfrentar os casos de corrupção que ameaçaram seriamente o executivo conservador.

Ironicamente, foram eles que lhe estenderam a passadeira para o topo. Uma moção de censura do PSOE de Pedro Sánchez provocou a queda de Rajoy, que saiu do Governo e se demitiu do partido, abrindo caminho às primárias.

A oratória e a comunicação são alguns dos grandes atributos do agora líder conservador, “que sabe improvisar o seu discurso”, ao contrário da grande maioria dos políticos espanhóis, escreve o jornalista e escritor Raúl del Pozo no El Mundo. É um “jovem sorridente, anticastrista, anti-abortista e anti-Che”, que consegue ter “ênfase e paixão para mobilizar uma direita que está em liberdade sob fiança, desideologizada e a quem retiraram o poder no meio de uma sesta”, continua del Pozo.

Ao apresentar a sua candidatura à liderança do PP, Casado prometeu não esquecer Aznar e Rajoy. “Tive a sorte de trabalhar com as duas últimas pessoas que levaram o PP mais alto”, disse.

No entanto, juntar os dos dois antigos líderes não é tarefa fácil, tendo em conta o deterioramento da relação entre ambos (Aznar não foi sequer convidado para o congresso devido ao mal-estar que provocou no partido nos últimos meses ao criticar a divisão do centro-direita). 

As suas bases programáticas confirmam a viragem à direita. Sobre o aborto, diz que “não é um direito”, propondo o regresso à legislação de 1985, que permite a interrupção voluntária da gravidez apenas em casos extremos – esta proposta valeu-lhe o apoio da plataforma ultraconservadora Hazte Oír. Quer alargar o âmbito do artigo 155.º da Constituição: “Não dialogarei com quem quer romper a unidade de Espanha”, disse sobre a questão catalã. Proclama o liberalismo “sem complexos”. E quer reverter a intenção de Sánchez de exumar os restos mortais de Francisco Franco do Vale dos Caídos: “Não gastaria nem um euro a desenterrar Franco”. Tornar o PP um “partido liberal, católico e patriótico”, é o seu desejo.

Um membro do PP e apoiante de Santamaría descreve o posicionamento político de Casado ao El País: “A média do PP não está no cinco, sendo o cinco o centro e o dez a extrema-direita. Está, na realidade, num 7,5 ou oito, e Casado percebeu que dirigindo-se para o meio não conseguiria mais votos, mas aproximando-se do extremo, sim”.

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Pablo Casado reunido com Soraya Sáenz de Santamaría EPA/PEOPLE'S PARTY/DIEGO CRESPO

Início conturbado

Quando foi eleito prometeu unir o partido. “Disse no primeiro dia que se ganhasse ninguém perdia. Hoje ninguém perdeu, só ganhou o Partido Popular”, afirmou no discurso de vitória, elogiando Rajoy e a sua rival Soraya.

Mas a verdade é que Casado foi deixando claro o distanciamento em relação à anterior liderança, garantindo não ter complacências com a corrupção e propondo uma abordagem mais radical relativamente ao processo independentista catalão.

E, se o seu objectivo era unir o partido, as coisas não começaram bem. Deixou a garantia que iria formar uma direcção partidária que incluísse Soraya Santamaría e vários membros do seu núcleo duro. Porém, esta semana em Barcelona, ao anunciar a equipa que o irá acompanhar, confirmou-se que não é bem assim. Não quer abrir espaço a que Santamaría crie uma esfera de influência à sua volta, e abriu uma guerra entre ambos. “Não admitirei correntes internas no PP”, disse Casado, mostrando o pulso firme que também sabe usar. “O meu telefone continua ligado”, afirmou, sugerindo que continua aberto ao diálogo.

Há, porém uma mancha nesta fase do percurso de Casado. O seu currículo está a ser investigado. Em causa está um mestrado que pode ser fraudulento tirado na Universidade Rei Juan Carlos, entre 2008 e 2009. Dezoito das 22 disciplinas foram feitas por equivalência e as restantes através de trabalhos –a instituição, que também está nocento da polémica, garante não ter registo deles.

Se Aznar guiou Casado pela mão durante a sua ascensão, agora é a vez do novo líder retribuir o favor e levar o antigo chefe de Governo de volta ao partido. Dias depois da sua eleição, o novo presidente fez regressar Aznar à Génova, onde é a sede do partido, o que não acontecia desde 2015. Num encontro de duas horas, falaram “dos desafios que Espanha enfrenta”, de acordo com o que relataram fontes dos populares aos jornais espanhóis. O PP partilhou no Twitter uma fotografia de ambos e uma frase: “A soma de todos faz-nos mais fortes e unidos”.

Agora começa a missão mais espinhosa de Casado: unir o partido e estancar a sangria de votos que fogem, principalmente, para o Cidadãos de Albert Rivera, com quem o conservador tem uma boa relação.

O crescimento do Cidadãos e também do Podemos marcou nos últimos anos uma alteração profunda no panorama político espanhol pondo um ponto final no bipartidarismo.

Com a chegada de Casado completa-se outra mudança. A geracional. Como notou o jornal online El Español, “maior relevo geracional parece difícil: o presidente do Governo tem 46 anos, e nenhum dos seus rivais cumpriu ainda os 40. Pedro Sánchez tinha três anos quando morreu Franco, Pablo Iglesias tinha dois meses quando foi aprovada a Constituição, e Pablo Casado e Albert Rivera nem sequer tinham nascido”,