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GLOW, para além do artifício dos anos 1980

A série sobre wrestling feminino do Netflix, baseada num programa que existiu na vida real, voltou em Junho para a segunda temporada, melhor do que a anterior.

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GLOW vive na dicotomia entre a exploração e a afirmação feminina DR
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Sim, GLOW é passada nos anos 1980. Tem tudo o que se espera disso e ainda mais: os cabelos cheios de laca, a roupa espampanante, os néons e os Genesis da fase pop liderada por Phil Collins, Human League, Madonna e synth-pop na banda sonora. Há uma sustentação para esse exagero todo. Afinal, Gorgeous Ladies of Wrestling, o programa televisivo/espectáculo no qual a série cómica do Netflix é baseada era ridículo, manhoso e excessivo – caso não acredite na versão ficcional, basta ver excertos no YouTube. Mas GLOW não se cinge a um sem-fim de referências e a nostalgia. Tem muito mais em mente do que isso.

Na primeira época da criação de Liz Flahive e Carly Mensch com produção executiva de Jenji Kohan, para quem Mensch trabalhou em Weeds Orange is the New Black, um realizador acabado de terror e série B juntava um grupo de mulheres, maioritariamente actrizes desempregadas, não particularmente dadas ao wrestling, fosse por vocação ou por gosto, para encarnarem personagens altamente estereotipadas – e por vezes racistas. Não se via assim tanto do programa propriamente dito, que só chegou, depois de várias peripécias, à televisão no final dessa primeira leva de episódios.

Nesta nova temporada, que se estreou em Junho, já o programa arrancou completamente. E a série vai mais fundo na vida das personagens, com crescimento e desenvolvimento, e explora mais o que Gorgeous Ladies of Wrestling, o programa, representa para aquelas mulheres, algures entre a exploração e a afirmação feminina. É entretenimento feito sob o olhar masculino e recorre à observação dos corpos delas, que ao mesmo tempo lhes traz muito de positivo. Seja por encontrarem um propósito e uma família, divertirem-se e sentirem-se bem no ringue, ou por mostrarem as suas competências no que toca à representação e mesmo no desporto.

Essa tensão é aliás um dos pontos centrais da série, que desta feita vai também mais a fundo nos estereótipos – a mulher negra que é a rainha da assistência social, a mulher sul-asiática que é terrorista –, as consequências que estes têm para as pessoas humanas que lhes dão corpo, como quando o público se revolta contra elas por nada mais a não ser o preconceito vigente da sociedade. Há também espaço para questões como o assédio sexual e o que acontece a quem o rejeita, quando uma das lutadoras, com aspirações muito pouco aceites de vir a não ceder à pressão do presidente da estação de televisão e todo o programa é castigado por isso.

Há, ao mesmo tempo, novas personagens e, surpreendentemente, referências inventivas a Os Marretas Conquistam Nova Iorque, tanto na trama de um dos episódios que menciona directamente esse filme de 1984 quanto na conclusão da história, que envolve toda a gente ter de montar um grande espectáculo – e não só.

Georgeous Ladies of Wrestling era um espectáculo montado por homens para homens verem, as mulheres eram a atracção central, sempre vistas pelos olhos deles e em função dos desejos deles, mesmo que trouxesse algo de bom para elas. G.L.O.W. não, é feito por mulheres, reconhece-lhes a humanidade e dá-lhes a importância que merecem. E isso faz toda a diferença.

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