Torne-se perito

São Cipriano, a aldeia que a música divide há mais de 130 anos

“De que música és – d’A Velha ou d’A Nova?”. Nesta freguesia de Resende, pertencer a uma das bandas filarmónicas é uma questão identitária. Entre as zaragatas e os amores proibidos dos velhos e o entusiasmo dos novos, esta é a história da aldeia que nunca deixou a arte cair.

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Banda A Velha Adriano Miranda/Público
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Banda A Nova Adriano Miranda/Público
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Carlos Francisco, Maestro da banda A Velha Adriano Miranda/Público
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Paulo Teixeira, Maestro da banda A Nova Adriano Miranda/Público
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José Pinto, antigo músico da banda A Velha Adriano Miranda/Público
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José Pereira, antigo músico da Banda A Nova Adriano Miranda/Público
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Adriano Miranda/Público
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Aperto de mão entre os dois maestros junto ao coreto onde se realiza a festa da aldeia de São Cipriano Adriano Miranda/Público

Há uma aldeia do concelho de Resende em que a música levanta mais os ânimos do que a bola ou a política. São Cipriano é uma terra dividida em dois – os que são pel’A Velha e os que são pel’A Nova, as duas bandas filarmónicas rivais da freguesia. São raros os que se abstêm. Até porque dos cerca de 700 habitantes contam-se pelos dedos aqueles que não são ou foram músicos.

Sentado à porta da Casa do Povo, a sede d’A Velha, José Pinto, de 89 anos, tira duas folhas dobradas do fundo bolso, preenchidas de uma caligrafia irrepreensível. Trouxe-as porque não queria que se lhe escapasse nada, até porque poucos há mais velhos do que ele para contar a história, que começa assim: “Em 1840, houve um tal Padre António Monteiro Pinto, de Nogueira, que conseguiu implementar o gosto pela música num grupo de jovens. E formou-se um conjunto, a Banda de São Cipriano. O primeiro maestro da banda foi o Tio Alberto. Mas ele emigrou para o Brasil e outro maestro, Francisco Sequeira, deu continuidade. Passados 20 anos, o maestro Tio Alberto regressou e quis tomar conta da banda. O maestro que ficou não esteve pelos ajustes.” O desacordo partiu a banda ao meio e, em 1881, seguiram caminhos separados. Uma dúzia acompanhou o maestro Tio Alberto para A Nova, a outra ficou com o maestro Francisco n’A Velha.

Desde então, nenhuma das bandas parou. A competição entre e uma e outra incentivou-as a quererem ser melhores e a nunca desistirem, apesar das dificuldades. Por outro lado, o clima de competição e inimizade persistiu durante décadas. São várias as histórias de violência e de zangas entre famílias e conhecidos. Durante muito tempo, as duas bandas não eram convidadas para a mesma festa, porque já se sabia que ia acabar mal.

Para se entender o conflito, é preciso também entender o contexto, explica Henrique Francisco, presidente da direcção da Banda A Velha: “Eu conhecia vendedores ambulantes e de mercearias que tinham clientes de ano – que só pagavam no São Miguel [no fim de Setembro], que era quando se colhia o vinho, se vendia o trigo e o milho, já se tinham vendido as batatas... Nessa altura, o agricultor tinha a sua receita e ia pagar as suas contas. Mas havia pessoas que não ficavam com nada – por causa dos patrões e dos caseiros, que dificilmente pagavam todos os dias de trabalho. Em alguns casos, o único dinheiro que recebiam era o que ganhavam com a banda.” Ou seja, a banda não era só um passatempo, era um ganha-pão. E fazer parte dela era uma questão de orgulho. 

“Íamos para Cinfães tocar, a pé, e ao para cá era uns a mancar, outros de cabeça partida. Tenho um cunhado meu que até tirou uma orelha a um com uns pratos. Naquele tempo gostavam de orelheira. [risos] Não havia festa nenhuma que fossem as duas tocar e que não houvesse porrada.” Quem o conta é José Pereira, antigo membro d’A Nova e pai do actual presidente da banda. Apesar dos 77 anos, a memória não lhe falha: “Lembro-me de uma vez que fomos a uma terra chamada Rossas, que é já aqui acima. Tínhamos lá cinco trompetes, mas havia um que fazia o solo. E um da Velha disse-lhe ‘Anda cá, Alberto, anda cá que hoje bebes à minha custa’. Embebedou-o de tal maneira que ele não conseguiu tocar.”

“E os da Velha não podiam namorar com os da Nova e os da Nova não podiam namorar com os da Velha”, acrescenta Providência, esposa de José Pereira, que nunca andou numa banda mas vibra com a música como se tivesse tocado a vida toda. E é como se fosse. Cinco gerações da sua família passaram por lá. 

José e Providência partilham memórias, entre risos, sentados no café-bar que existe na sede d’A Nova. O edifício que fica apenas a 10 minutos a pé da sede d’A Velha reconhece-se à distância, pela dimensão e pelo ar de novo que ainda preserva 10 anos após a construção. É nesse café que a gente da aldeia convive. Bem, nem toda a gente, porque por vezes a lealdade à banda rival fala mais alto. Goretti não se atreve a entrar naquela sede, brinca o marido, que não é músico e pouco liga à rivalidade. A saxofonista de 64 anos foi a primeira mulher a fazer parte de uma das bandas de São Cipriano. Foi incentivada pelo pai, maestro d’A Velha, depois de ambos verem um concerto de uma banda de Cinfães em que já tocavam duas meninas. Entrou com 14 anos e só saiu da lá quando se casou – já não havia tempo para ensaios e arraiais. Mas o gosto pela arte não fugiu e as gerações mais novas continuam a dar música pel’A Velha.

Mas entre o espírito de competição, o que não falta são trocas e baldrocas ao longo da história da banda. São poucos os que só tocaram num grupo a vida a toda. Veja-se, por exemplo, esta coincidência: o avô do actual mestro d’A Velha foi maestro d’A Nova e avô do actual maestro d’A Nova foi maestro d’A Velha. 

Entre bandas rivais, maestros amigos

Carlos Francisco e Paulo Teixeira, os actuais maestros d’A Velha e d’A Nova, respectivamente, são amigos de infância. Estudaram clarinete lado a lado, nas mesmas cadeiras que encontramos hoje na sala da Casa do Povo. São vários os que dizem que foi esta amizade que acalmou os ânimos. A mudança é radical – agora, quando as duas bandas vão tocar a algum sítio, até costumam finalizar uma marcha em conjunto. A ideia não agrada a todos e os mais antigos franzem o sobrolho – há 15 anos ver a gente das duas bandas a tocar lado a lado e em harmonia era inimaginável. 

Cada um orienta uma banda com cerca 50 elementos, com idades dos 10 aos 60 anos. Todas as sextas à noite e sábado, há ensaio. Durante a semana, em cada sede funcionam escolas de música onde se formam futuros músicos. É lá que as crianças aprendem a solfejar, a dominar o instrumento antes de se aventurarem nos ensaios conjuntos. Isto com instrumentos de aprendizagem cedidos por cada banda. 

Mas há diferenças. Entrar na sala de ensaios d’A Velha, naquele edifício cedido pela Junta de Freguesia com mais de 50 anos, é como fazer uma viagem ao passado. A sala, forrada de caixas de ovos e preenchida de cadeiras de madeira escura, é pequena, acanhada. Já não está ajustada aos tempos de hoje. É por isso que já há planos para construírem uma sede própria, com outras condições e com auditório.

O problema, como sempre, é o dinheiro. Ou a falta dele. Para já, aqui aprende-se gratuitamente. A sala de orquestra da Banda A Nova é o oposto. É espaçosa e luminosa, condizente com a energia dos muitos adolescentes que lá tocam. Mas nem sempre foi assim, relembra Alípio Patrício, presidente da direcção da banda e filho de José Pereira e Providência. No início, durante muitos anos, ensaiavam num “barraco” – “Éramos discriminados. Para ensaiarmos na Casa do Povo onde a outra banda está inserida, tínhamos de pagar 10 euros por cada ensaio.”

Mas com “muito esforço e luta” (e empréstimos) levantaram a nova sede. Agora, a obra está feita, mas as dívidas apertam, mesmo cobrando entre 10 a 20 euros por mês aos alunos da escola de música e mesmo com o (pouco) que recebem das festas. “A nossa maior dificuldade são os instrumentos”, confessa Alípio: “Há miúdos que querem entrar para a banda e não podem, porque não conseguimos comprar os instrumentos, que são muito caros.” Mas nem por isso perdem os ânimos. Todos os anos, a Banda Nova organiza, no início de Setembro, um estágio para estudantes de música no qual participam 80 jovens por ano – uma espécie de curso intensivo durante uma semana aberto a toda a gente.

De São Cipriano para conservatórios na Europa

Henrique, o presidente d’A Velha, ainda se recorda dos tempos em que a formação das bandas era rudimentar. “Quando se sabia a escala de dó maior, já estava bom. Ia-se para lá e os ouvidos faziam o resto. Tivemos grandes músicos que não sabiam o nome de uma nota”, recorda o ex-saxofonista. Muito se evoluiu desde então.

José, de 25 anos, começou o seu percurso n’A Nova. Diz que já entrou “muito tarde” para o grupo, quando tinha 16 anos. Mas o amor pela música – e pelo trombone de vara – cresceu rápido. Um ano depois, fez provas para uma escola de música profissional em Portugal e, hoje, está perto de acabar a licenciatura Conservatório Real de Haia, na Holanda. “Continuo a vir, porque é aqui que tenho os meus melhores amigos. Sempre que posso, estou cá.”

O discurso de Daniel é muito semelhante. O saxofonista de 19 anos está a estudar no Conservatório de Amsterdão, mas não abdica de marcar presença n’A Velha todos os Verões. O amor à música e ao saxofone já é de família – tanto o avô como os pais o tocavam. Agora está ocupado a ensaiar os mais novos para o concerto da Casa da Música, palco que vai voltar a pisar depois de há dias ter ganho, com o seu quarteto de saxofones, o Prémio Jovens Músicos, no nível sénior de música de câmara. Timidamente, confessa: “Sinto que por vezes sou uma referência para eles continuarem a seguir música.”

Neste sábado, as duas bandas vão abrir o Encontro de Bandas Filarmónicas na Casa da Música, com arruadas vespertinas no exterior do edifício a partir das 15h e, depois, com dois concertos na Sala Suggia. Em cima do palco, não faz mal que se mantenha uma rivalidade saudável, comentam os maestros. E já se sabe que, fora dele, vai sempre haver ‘adeptos’ ferrenhos: “É quase como um clube. Cada um defende a cor que gosta ou a que lhe está no sangue”, explica o maestro Carlos. 

Os mais antigos até podem gritar mais alto pela banda do coração. Mas não há ninguém que o negue – isto é uma simbiose disfarçada de competição. Di-lo José Pinto, o mais antigo membro vivo da Velha – “Naquele tempo havia rivalidades. Mas foi saudável, foi bom. Se não fosse isso, estou convencido de que já não existia nem Nova nem Velha. Se nunca tivesse havido a separação, a banda já tinha acabado.” E di-lo Providência, a matriarca d’A Nova, cheia de exaltação: “Eu gosto das bandas. Isto na nossa terra, para quem compreender, é uma cultura. Que alegria na nossa terra termos duas bandas, que coisa bonita! E digo-lhe, menina, se acabar uma banda, a outra acaba a seguir.”