Protagonista

Um bartender e uma carrinha-casa-bar em itinerância pela Europa

Aos 25 anos, o vencedor da competição Barman do Ano em 2016 decidiu despedir-se e viajar. Até ao final do ano, Jaime Montgomery vai percorrer a Europa numa carrinha que é tanto casa quanto bar de cocktails de autor.
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RICARDO NASCIMENTO/STILLS

Jaime Montgomery começou a procurar carrinhas antigas à venda na Internet no final do ano passado, como quem ensaia uma decisão. Ainda tirou “umas férias” mas acabou por “largar tudo” e despedir-se. A partir daí, conta, nunca mais ninguém o viu. “Foram três meses fechado em casa”, diz na véspera da partida. Por fora, a carrinha de linhas antigas e pintura amarela é semelhante a tantas outras. Por dentro, uma surpresa: o interior está transformado num pequeno bar itinerante.

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Foi nisto que Jaime andou a trabalhar nos últimos tempos. O espaço, forrado a madeira com a ajuda do pai, organiza-se agora segundo os desígnios do copo: de um lado, prepara-se; do outro, bebe-se. Uma corda suspensa no tecto segura a tábua que divide o dentro e o fora do balcão. Para lá, há uma estante de licores e espirituosos (incluindo medronho, ginjinha ou rum da Madeira, para divulgar os sabores portugueses), pequenos cestos recheados de ingredientes e filas de tubos de ensaio com especiarias, bitters e infusões. Muitos ainda vazios, à espera das experiências que o caminho trará. Deste lado, uma antiga caixa de caracteres móveis foi transformada na única mesa do pequeno bar, onde não cabem mais do que “quatro ou cinco pessoas sentadas” nos bancos corridos. Ao final do dia, o balcão recolhe, a mesa sai, o edredão salta detrás da estante das bebidas e os bancos unem-se numa cama.

Aos 25 anos, o vencedor da competição Barman do Ano em 2016 decidiu deixar o cargo de gerente de bar na Quinta do Lago e viajar pela Europa até ao final do ano. O sonho já andava há muito no horizonte. A possibilidade de trabalhar como bartender em qualquer parte do mundo foi um dos aspectos que o seduziu na profissão. E o bichinho de partir assim de carrinha, durante seis meses e sem programa rígido, talvez até lhe esteja “no sangue”. Os pais, ingleses a viver no Algarve há mais de 30 anos, sempre viajaram muito. “A minha mãe tinha 18 anos quando comprou uma camioneta com uns amigos, transformaram-na e foram até à Índia”, recorda. O “stress constante” do novo posto de trabalho foi o empurrão final. “Senti que já estava a ter demasiado peso profissional para aquilo que achava bem para a minha idade.”

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O fato de colete e botões de punho deu, por isso, lugar à camisa de flores coloridas e chinelos de enfiar no dedo, entretanto abandonados a um recanto da carrinha. O plano: rolar pela Europa, visitando amigos, quintas, destilarias e bares de referência no mundo da mixologia. E, claro, servir cocktails inspirados pelos lugares por onde passa, a troco de donativos. “A ideia é parar nos locais, ir ao mercado de manhã comprar coisas típicas, frescas e naturais, vir para aqui fazer umas experiências e, ao final do dia, criar cocktails únicos, mas simples.” Em exclusivo para um pequeno grupo de pessoas ou de portas abertas e clientes a circular entre os pedidos cá dentro e a fruição lá fora. Como o espaço é pequeno, falta-lhe a maquinaria e os pormenores que os cocktails mais complexos exigem. Aqui, as bebidas vão ser de assinatura, mas descomplicadas, com doses elevadas de improviso e a promessa de boa conversa.

Para Jaime, apesar dos prémios ganhos com as receitas que criou, o mais importante raramente é o que está dentro do copo. Antes o somatório de toda a experiência. Um “bom barman”, diz, deve ser “aberto e gostar de pessoas”, “tem de ser um bom contador de histórias e, se for preciso, um psicólogo”. É isso que “vai marcar o cliente”, acredita. E é isso, o “bom atendimento” aliado ao bom cocktail, que gostava de ver como “tendência” na mixologia portuguesa. “Se conseguirmos mudar isso, subimos um patamar muito acima na Europa”, defende. Por isso, no seu novo bar-carrinha, até a mesa foi pensada para servir como um “desbloqueador de conversa”. Se faltar assunto, basta perguntarem-lhe que objectos são aqueles dispostos nos minúsculos compartimentos por baixo do tampo. Além de recordações da família, amigos e namorada, há souvenirs para cada etapa do percurso profissional.

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Um caminho pela arte dos cocktails que começou por mero acaso. Quando entrou para o bar do Conrad Algarve “não conhecia nada de hotelaria, bar ou restauração”, confessa. Tinha integrado a equipa de abertura do hotel algarvio como nadador-salvador. Mas era o fim do Verão e poucos hóspedes se aventuravam em mergulhos. “Então, foram-me ensinando coisas de serviço de bar para não terem ali uma pessoa parada.” E ele começou a “tomar gosto pela indústria”. Lembra-se de que ao início não gostava nada de whisky, cognac ou de outras bebidas mais complexas. Mas os colegas foram-lhe explicando os sabores e as diferenças. Ao contrário dos bares com “música aos altos berros” e turistas caídos de bêbados, ali o ambiente era “muito porreiro”. “Aprendes muito com toda a gente, conheces pessoal de todo o mundo e não há momento algum em que digas que isto é uma seca.”

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Começou a comprar livros sobre mixologia, a visitar novos sítios e a falar com muitos bartenders. “A Internet foi a minha melhor amiga”, admite o algarvio autodidacta. “O YouTube e o Google hoje em dia têm tudo. Só não aprendemos se não quisermos.” Dois anos depois, ainda se aventurou por Londres, mas não gostou. “É uma cidade demasiado grande, [o trabalho] era sempre a fundo, as pessoas não eram acolhedoras, estava sempre frio e a chover”, enumera. Acabou por regressar ao Algarve poucos meses depois, para trabalhar como barman no Bovino, o novo restaurante da Quinta do Lago. Um ano depois era promovido a head bartender, responsável pelos quatro bares da unidade hoteleira. E, no ano seguinte, a gerente dos mesmos, no rescaldo da conquista do galardão de Barman do Ano e da vitória nacional do concurso Nikka Perfect Serve, competições a que concorria pela primeira vez. “Começaram a cair entrevistas e convites para ir fazer cocktails a outros sítios, ao mesmo tempo que ingressava noutra etapa da minha vida profissional. Foi muito bom, claro, mas também foi um ano de muito stress”, resume. “É também para fugir um bocadinho que estou a fazer isto.”

Até ao final do ano, o bar camuflado de carrinha amarela será porto de abrigo de Jaime Montgomery pela Europa fora. Enquanto o calor se fizer sentir, andará junto ao Mediterrâneo. Um mês pela costa espanhola, duas semanas pela Riviera francesa, mais um mês em Itália e outro na Grécia, os países que aguarda com mais entusiasmo. Ainda gostava de chegar a Istambul, mas a partir daí terá de “reavaliar” o resto do trajecto porque, já adivinha, isto de viajar sem programa definido “torna-se sempre complicado”. “Nunca sabemos se vamos gostar muito de um sítio e ficar lá mais semanas do que era previsto.” Como “é muito provável que isso aconteça”, o resto do plano é feito em traços largos: regressar pelos países a norte e passar o Natal nos Países Baixos, onde o irmão vive actualmente, antes de voltar a Portugal.

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E o futuro, é ficar na casa de partida? “Agora digo que sim, mas depois não sei”, ri-se de olhos fitos no chão, a reflectir. “Só vou para fora porque quero ver mais, mas gosto muito do Algarve. É a minha paixão. Cresci aqui e acho que faz todo o sentido continuar aqui.” O sonho? Fugir aos grandes hotéis e restaurantes e abrir um pequeno bar, “para um nicho de mercado mais reduzido mas com muita qualidade”, onde possa aplicar “todas estas experiências, influências e histórias” que vai ter para contar.