Opinião

Dar o melhor de si: uma perspectiva católica do desporto

O fascínio que cada vez mais suscita o desporto no mundo global e o “vencer a todo o custo” expõem-no a desvios incompatíveis com a dignidade da pessoa.

A Santa Sé tornou público um documento intitulado "Dar o melhor de si: uma perspectiva católica do desporto e da pessoa humana”.

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Trata-se de uma reflexão profunda e que é algo inédita na Igreja Católica que, justa ou injustamente, foi sempre vista como hostil ou dando pouca importância humana, social e ética ao fenómeno universal e global do desporto.

Deixo aqui alguns pontos do extenso documento que considero mais interessantes. No meio do actualismo insaciável e dos epifenómenos que satisfazem a gula desportiva mediática de quem noticia e de quem consome as notícias, sei bem que estas temáticas não são entusiasmantes. Aliás, a ausência de referências e o silêncio dos meios audiovisuais quanto ao documento são elucidativos do desprezo de quase tudo o que vem da Igreja, excepto se for algo criticamente excitante.

O documento avisa que não se trata de falar de uma visão de desporto cristão, mas antes de uma visão cristã do desporto. Este, enquanto actividade física em movimento, individual ou colectiva, de carácter lúdico ou de competição, com sistema de regras e de códigos, deve ser valorizado como um “ginásio de vida”, no qual as virtudes da temperança, da humildade, da coragem, da paciência podem ser desenvolvidas.

É chamada a atenção para o “sistema de desporto”, que o torna fascinante e popular por toda a parte e em todas as expressões, mas que, também e ao mesmo tempo, “o expõe a formas de instrumentalização funcional e ideológica”, que não lhe são originárias.

A parte do texto que mais me chamou a atenção foi a que discorre sobre elementos substantivos para um desporto de corpo, alma e espírito: liberdade, criatividade, igualdade de oportunidades, alegria, fair-play, coragem, harmonia, solidariedade.

Quanto ao fair-play reafirma-se que deve ser sempre visto como “uma oportunidade de educação para toda a sociedade”, uma polinização do exemplo de virtudes comportamentais. “Uma coisa é respeitarem-se as regras do jogo evitando ser-se sancionado pelo árbitro ou desqualificado por uma violação regulamentar; outra coisa é respeitar o adversário e a sua liberdade, seja qual for o enquadramento regulamentar.

O documento aborda também reais perigos de desestruturação da harmonia imanente ao desporto. E exemplifica com a excessiva comercialização de alguns desportos ou com a dependência de modelos científicos sem preocupações éticas ou, ainda, a promoção de modos desportivos nos quais o corpo é reduzido a um mero objecto. O fascínio que cada vez mais suscita o desporto no mundo global e o “vencer a todo o custo” expõem-no a desvios incompatíveis com a dignidade da pessoa. A reflexão aponta, por exemplo, a instrumentalização para veicular interesses políticos, mediáticos, de facção ou de formas espúrias de poder, nacionalismos e explorações financeiras condenáveis.

Quanto à igualdade que deve estar implícita no desporto, diz-se que, todavia, “não significa homogeneidade e conformidade, significando, antes, respeito pela diferença e pela diversidade da condição humana, designadamente quanto ao sexo, idade, proveniência cultural e social e tradição”, não deixando de promover ou sustentar uma cultura de encontro, de paz e de inclusão.

O tema da solidariedade está desenvolvido com clareza, havendo um ponto mais específico que se refere à responsabilidade social dos atletas mais famosos e vitoriosos em actividades desportivas, que “todos os fins-de-semana levam muita gente aos estádios e aos quais os meios de comunicação social dedicam amplo espaço”.

Já na parte conclusiva, o texto chama a atenção para o que considera serem os quatro grandes desafios para o integral e são desenvolvimento desportivo, tendo em consideração a multiplicidade de agentes co-envolvidos no fenómeno desportivo (atletas, espectadores, media, gestores, empresários, políticos): a exploração e aviltamento do corpo, o doping, a corrupção na prática, na gestão desportiva e nas apostas e comportamentos desviantes no seio dos espectadores e adeptos.

Quanto ao primeiro ponto é chamada a atenção para o perigo da “automatização” de atletas, sobretudo nas competições de alto nível desportivo, na obsessão de alcançar o sucesso, as medalhas, recordes e ganhos pecuniários. Denunciam-se situações como as que “vêm tornando cada vez mais frequente práticas em que jovens são deixados nas mãos de treinadores e dirigentes unicamente interessados na especialização unidireccional de talento (...), com especializações precoces que abrem a porta, não raro, a infortúnios (...)”, exemplificando com a ginástica de elite onde há uma ditadura do protótipo de corpo ideal que exige brutais restrições alimentares e excessivas cargas de treino.

Sobre o doping físico e mecânico, que cada vez mais se disfarça de formas de desenvolvimento tecnológico ou descobertas no campo médico, é afirmado que é, tão-só, a ponta do iceberg de um fenómeno que está crescentemente a entrar nas profundezas do desporto. “Para o combater (...) não basta apelar à moral individual de cada atleta”, mas também envolver os principais agentes que, tantas vezes, estão na base da tentação de a ele recorrer.