Governo de Espanha impulsiona interligações eléctricas e põe em causa Almaraz

Cimeira reúne esta sexta-feira em Lisboa o Presidente Macron, Pedro Sanchez e António Costa, quando a velha ordem energética está em causa.

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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

A mudança de Governo em Espanha favorece a agenda de interligações eléctricas da Península Ibérica com a França que esta sexta-feira é o tema da cimeira que reúne em Lisboa o Presidente Emmanuel Macron e os primeiros-ministros Pedro Sanchéz e António Costa. Presente estará, também, o comissário europeu Arias Cañete, responsável das pastas da Energia e da Acção Climática. O novo rumo de Madrid na energia deve condenar a vetusta central nuclear de Almaraz, à beira Tejo na Extremadura espanhola.

Foi há precisamente um ano que, no Palácio do Eliseu, em Paris, no final de um almoço de trabalho de Macron com Costa, que o encontro de hoje ficou marcado. Então, à frente do executivo de Espanha estava o conservador Mariano Rajoy, cuja política energética está agora em revisão profunda pelo actual Governo socialista que tomou posse há pouco mais de um mês.

Teresa Ribera é ministra para a Transição Ecológica reunindo no seu Ministério as funções tradicionalmente atribuídas às pastas de Energia e Ambiente. A mudança no organigrama governamental espanhol é mais que simbólica. Ribera aposta na descarbonização da economia, apresentará até ao final do ano a Lei de Mudança Climática e Transição Energética, e já anunciou medidas inovadoras com repercussões em dossiês quentes no relacionamento com Portugal.

Assim, o prolongamento sucessivo da vida da central nuclear de Almaraz deverá ter os seus dias contados no âmbito de uma política de eficiência energética que aposta numa maior penetração das fontes renováveis. “Nos próximos 20 meses todos os titulares de centrais nucleares vão solicitar o prolongamento das licenças ou que seja autorizado o fecho (…) e não posso esquecer que há uma mensagem muito clara no programa do PSOE de que a priori as centrais vão sendo fechadas de forma ordenada quando cumprirem o tempo para que foram concebidas, ou seja, 40 anos”, avisou a nova ministra em entrevista ao El País, pouco depois de tomar posse.

Do ponto de vista industrial, o Governo não está só. Nesta quarta-feira, Sánchez Galán, presidente da Iberdrola, manifestou o seu apoio à nova política, depois de anos de aberta discórdia com o anterior executivo de Rajoy e do ministro Álvaro Nadal. “Os objectivos do Governo estão muito em linha com os nossos”, referiu. Do mesmo modo, admitiu que Espanha pode chegar à meta de alcançar 32% de energia renováveis em 2030, o que implica fechar as centrais que produzem electricidade a partir do carvão e reduzir a contribuição do nuclear.

Ao El País, Teresa Ribera abordou, também, a política de gestão da água: “Não tem sentido pensar que vamos apoiar macro-projectos urbanísticos ou grandes explorações de regadio ainda que não haja água e supondo que no-la darão.” Neste ponto, a ministra foi muito clara. “Uma coisa extraordinária, como as transferências de água [entre bacias hidrográficas], não se pode converter em ordinário”, sublinhou.

No momento em que Portugal e Espanha preparam a revisão do Convénio de Albufeira assinado em 1998 e em vigor desde Janeiro de 2000 para a gestão conjunta dos recursos hídricos dos rios internacionais – Douro, Tejo e Guadiana –, as declarações da responsável espanhola abrem novas expectativas. Depois de em 2017, em tempo de seca, os caudais do Tejo terem estado em causa, devido, precisamente, à expansão das áreas de regadio nas suas margens em Espanha. Os técnicos e ambientalistas dos dois países viam, ainda, com perplexidade os planos de construção de um parque aquático a sul de Madrid abastecido com água daquele rio.

Em França também mudou o paradigma. Nicolas Hulot é ministro da Transição Ecológica e Solidariedade. “Temos o objectivo de reduzir a contribuição do nuclear [para a electricidade] e penso que o futuro da EDF [Electricité de France, controlada pelo Estado] reside fundamentalmente na eficiência energética e o desenvolvimento das renováveis”, disse em entrevista à France Info a 21 de Junho passado. Reduzir em 50% o recurso à energia nuclear é o objectivo de Paris, mas ainda sem data marcada.

“Desejo que a EDF não falhe a oportunidade da transição energética, são essas as energias do futuro, pois sabemos que o custo da energia de origem nuclear não pára de aumentar (…) enquanto o custo das renováveis vem por aí abaixo”, salientou Hulot.

É neste contexto que a cimeira desta sexta-feira se enquadra, depois de Lisboa, Madrid e Paris terem criado em Junho de 2015 o Grupo de Alto Nível para o Sudoeste Europeu com o objectivo de um nível de interligações europeias de 10% até 2020. E para o qual as interligações aparecem como decisivas.