John Zorn

Criador torrencial, líder comunitário, mestre do seu ofício

O 35º Jazz em Agosto, a partir desta sexta-feira, será todo dele. Músico múltiplo, ícone do jazz, da avant-garde, da música experimental. John Zorn, 64 anos. Imperdível.

A mobília é inexistente, em vão se procurarão jornais ou revistas espalhados pelos cantos e não vale a pena investigar onde será a divisão a que chamamos cozinha, dado que ela não existe naquele apartamento na East Village, Nova Iorque, habitado pela mesma pessoa desde 1977. A toda a volta, livros, muitos, e discos, mais ainda, de todas as proveniências, de todos os géneros. O homem que ali vive não quer que nada o distraia do essencial. “Submeti-me a sacrifícios extremos para continuar a fazer o que faço. Tudo o que se intromete na minha concentração para criar é eliminado da minha vida. Não é fácil. Às vezes é a família. Às vezes são os amigos. Às vezes é a capacidade de manter uma relação”, explicava ao New York Times em 2013, quando completou 60 anos.

Este homem chamado John Zorn escolheu então não ser distraído por nada que pudesse comprometer a sua dedicação. “Se tiveres filhos, tens que dedicar metade da tua vida a ser um bom pai. Não posso fazer isso. Sou dedicado ao meu trabalho. Os meus filhos são as composições, os discos, as performances. A minha família? A comunidade musical”. É assim desde o início, quando, na década de 1970, abria as portas do seu apartamento para concertos de partilha e exploração musical, quando partia em digressão para a Costa Oeste nos famosos autocarros Greyhound – com saxofone, mas sem muda de roupa. É assim agora, quando é nome acolhido em salas de concerto institucionais, quando é reconhecido com bolsas de 500 mil dólares pela “criatividade excepcional do seu trabalho” e pela “perspectiva de criar ainda mais no futuro” – assim justificou a Fundação MacArthur a bolsa que lhe atribuiu em 2006 -, quando o podemos ver tanto no pequeno clube nova-iorquino que gere, o Stone, rodeado da sua “família”, quanto a dirigir um coro que apresentará uma peça sua no Louvre, com Mona Lisa como cenário de fundo. John Zorn não mudou. Limita-se a tornar o seu mundo mais e mais abrangente, a criar mais e mais, a procurar e a encontrar mais músicos para se juntarem à vasta comunidade que foi construindo ao longo das décadas.

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Frans Schellekens/Redferns

É esse John Zorn que veremos na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, das mais diversas formas, no 35º Jazz em Agosto que se inicia esta sexta-feira, que se prolonga até 5 de Agosto e que lhe será dedicado por inteiro – no concerto de abertura, às 21h30, junta-se a Thurston Moore e a vários dos músicos que veremos nos dias seguintes para uma sessão de improvisação livre. “Ele tinha, e tem, o desejo de acomodar magia no intercâmbio de uma criatividade comunal. Nem toda a gente faz isto. Quase ninguém faz isto, na verdade”, escreve ao Ípsilon o eterno guitarrista dos Sonic Youth. “Julgo que foi isso que me atraiu mais nele inicialmente: ali estava aquele cavalheiro a reunir uma ninhada dinâmica de músicos, que acontecia estarem nas redondezas, neste caso Nova Iorque, e a pô-los a criar sem compromissos, mas com uma ideia partilhada de respeito e exploração”.

Thurston Moore, que chegara a Nova Iorque em meados dos anos 1970, atraído pela cena punk alicerçada nos Television, Dead Boys, Patti Smith, Suicide, Teenage Jerks ou DNA, não reparou imediatamente em Zorn. Na sua ideia, aquele pertencia ao jazz e o jovem Thurston só queria o volume, a excitação e agitação do punk. Moore acabaria por perceber que cometera um erro de avaliação. Muitos cometeram erros de avaliação em relação a John Zorn.

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A questão é que nunca conseguimos situá-lo. Como ligar o sobressalto estético dos Naked City, capazes de amalgamar cinema negro, punk hardcore, policiais sanguinolentos, free jazz, a música que Carl Stalling criou para os desenhos animados da Looney Tunes, com a reinvenção radical, que os puristas viram como insultuosa, da obra de Ornette Coleman? Como conciliar o entusiasta da música surf e da exotica, o de The Gift ou The Dreamers, com o pesquisador da tradição musical judaica e do Médio Oriente, o de Masada? Como pegar no improvisador noise e levá-lo até às planuras celestiais de um órgão devotado a Bach? O que fazer de alguém que, descrevia-o Laurie Anderson quando completou 60 anos de idade, é um “músico, compositor, empresário, amigo” e também um “improvisador, colaborador, trabalhador em rede e gourmet”, isto para além de “artista visual e especialista em cinema”?

John Zorn é um músico múltiplo e, se nos cingirmos a categorias estanques, inclassificável. Perante ele,deixou há muito de ser pertinente uma pergunta como, imaginemo-nos numa loja de discos, “afinal, em que estante é que fica o Zorn?”. Foi precisamente, aí, numa estante numa loja de discos que Kris Davis o encontrou. Hoje com 38 anos, a pianista que a Downbeat destacou o ano passado como Rising Star – bem antes disso, o New York Times escrevia que uma forma de escolher onde ouvir jazz na cidade consistia em descobrir onde estaria ela a tocar nessa noite –, recorda ao Ípsilon o dia em que entrou numa loja de discos, a Downtown Music Gallery, e se deparou com uma estante inteira dedicada a John Zorn. “Peguei aleatoriamente num CD – era Masada First Live 1993. Esse álbum esteve em rotação constante, adorei a liberdade do grupo e o groove constante. Soam tão interligados, um verdadeiro som de banda”.

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No Jazz em Agosto, Kris Davis apresentar-se-á em quarteto, dia 1 de Agosto, numa sessão dupla em que participa também o John Medeski Trio, para interpretar Book of Bagatelles, um conjunto de 300 peças compostas por Zorn ao longo de três meses, em 2015 – exacto, 300 peças em três meses. “O John é um compositor prolífico, um líder de banda e um líder comunitário visionário. Compor é a sua primeira prioridade e sente-se sempre no seu trabalho um propósito e uma visão”, defende Kris Davis.

“Não é raro que uma pessoa criativa esteja interessada em criatividade”, comentava ele, com humor seco, muito nova-iorquino, à Jazz Times, ano 2009, quando o questionavam sobre a abrangência estética da sua obra. Digamos então que John Zorn é a sua própria estante, uma categoria em si mesmo. Como já se constatou, não a construiu sozinho. Com ele, todos aqueles que, ao longo dos anos, se tornaram parte da sua comunidade, tocando com ele, compondo instigados por ele, interpretando as suas composições, gravando para a sua editora, a Tzadik, fundada em 1995, ou improvisando no seu clube em Nova Iorque, o Space.

É uma estante muito grande a ocupada por John Zorn. Há a discografia gigantesca, de uma abrangência que impressiona, e a capacidade ímpar de instigar acontecimentos e de fomentar colaborações, um trabalho incessante, torrencial, interminável.  “Felicidade é para as crianças e para os yuppies. Eu não luto para encontrar a felicidade, eu tento dar conta do trabalho”. Foi o que disse em 2002, entrevistado pelo artista Michael Goldberg para a Bomb Magazine. É então desse trabalho, dessa obra imensa, que dará conta o Jazz em Agosto. Será todo para John Zorn. Será tudo sobre John Zorn.

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Lex van Rossen/MAI/Redferns

Adoro envelhecer

Há um filme e, nele, Zorn conta que na infância o fascinavam os velhos filmes de terror. Viu O Fantasma da Ópera e foi conduzido à música de Bach. Daí para os Doors, deles para compositores como Xenakis, Stockhausen, Ligeti e Kagel. E, por causa deles, e ainda por causa d'O Fantasma da Ópera e do Bach que se lhe seguiu, acabaria a entrar regularmente na Igreja Luterana erguida perto de casa dos pais, no bairro nova-iorquino de Queens, para ouvir a música das cerimónias. No filme, surgirá no palco de um auditório nobre. Toca um órgão, maravilhado, rindo como miúdo feliz enquanto sente o som vibrar e reverberar por todo o espaço. Veste t-shirt e as habituais calças de camuflado, está descalço e vemos um dedo a espreitar da meia rota enquanto os pés percorrem os pedais.

O som continua a ouvir-se e John Zorn continua a maravilhar-se com o que ouve. “É nos ensaios que se fazem as melhores coisas. Nos concertos nunca corre tão bem”, diz para a câmara. Di-lo e gargalha. John Zorn, 64 anos, nome imprescindível do jazz, da avant-garde, da música experimental, ri muito. Não é sorriso folgazão – não, isso não é ele. “Adoro envelhecer”, afirma. Depois, acrescenta algo que poderia fazer parte de um dos inspirados aforismos em que Woody Allen é pródigo. “É muito melhor que a alternativa. E só existe uma alternativa”.

O filme de que falamos é John Zorn (2016-2018), realizado pelo actor e realizador francês Mathieu Amalric. Passará domingo, 29 Julho, às 18h, no Grande Auditório, e é a continuação de (Zorn (2010-2017)), diálogo entre um amigo e admirador e o amigo músico admirado que Amalric estreou o ano passado. Também ele será parte destes “dez dias de devoção absoluta ao fascinante universo de John Zorn” – assim anunciou a organização, em Março, o alinhamento do festival. Desta sexta-feira, 27 de Julho, até 5 de Agosto, estaremos, decididamente, sobre a influência de Zorn. E perceberemos, se dúvidas houvesse, que a questão nunca foi onde perceber onde o situar. “Como uma caverna reflectora em que ressoam todos os ecos do mundo”, descreve-o Amalric no texto de apresentação do seu filme.

Iremos vê-lo em palco em três concertos. Esta sexta, às 21h30, protagonizará o concerto de abertura com Thurston Moore, o ex guitarrista dos Sonic Youth, e, dada a impossibilidade de ter Milford Graves a completar o trio inicialmente previsto (problemas de saúde impediram a viagem até Portugal do grande baterista, actualmente com 76 anos), juntar-se-ão ao duo vários dos músicos que já se encontram em Lisboa para actuar no festival. O concerto será baptizado Stone Improv Night, em referência às noites promovidas por Zorn no clube dedicado à experimentação musical livre que fundou em Nova Iorque há 13 anos.

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Frans Schellekens/Redferns)

No dia seguinte, sábado, às 21h30, protagonizará uma noite dedicada a Masada, o veículo através do qual, a partir da década de 1990, tem aprofundada a pesquisa das suas raízes judaicas, criando uma genealogia onde se reúne a tradição musical milenar do seu povo à história e linguagem do jazz. Sessão repartida no Anfiteatro ao Ar Livre: primeiro o quarteto de Mary Halvorson, a guitarrista a quem Zorn encomendou a gravação das últimas composições da série Book of Angels - o segundo livro de composições Masada -, depois o quarteto clássico dos Masada, com John Zorn, no saxofone, Dave Douglas, no trompete, Greg Cohen, no contrabaixo, e Joey Baron, na bateria. Por fim, iremos encontrá-lo ao órgão no domingo, dia 29 de Julho: The Hermetic Organ é o concerto que apresentará na companhia de Ikue Mori, ícone no-wave enquanto baterista dos DNA de Arto Lindsay, exploradora electrónica desde então. A partir daqui, John Zorn, desaparecerá de palco, mas não de cena.

“O que é nele mais inspirador é a o facto de reunir as pessoas. Tem um talento especial para ver o quadro geral e estabelecer relações entre músicos de cenas e géneros diferentes”, aponta Mary Halvorson, a guitarrista que veremos no Jazz em Agosto integrada no quarteto de Kris Davis e, já este sábado, liderando o seu próprio quarteto. Halvorson, 37 anos, começou por segui-lo no início da juventude, conduzindo duas horas desde a sua universidade até aos clubes nova-iorquinos onde o conseguisse encontrar. Não imaginaria, nessa altura, que haveria de tornar-se parte da comunidade. Já nela integrada, guarda do trabalho próximo com Zorn, a imagem de “um líder que consegue ser claro e conciso e dar-nos um foco, positividade e inspiração, enquanto, ao mesmo tempo, diz exactamente o que pensa e aquilo de que necessita”. Halvorson vê-o como líder num outro sentido: “Pensa para além de si mesmo. Elevou e alimentou toda uma comunidade de músicos em Nova Iorque ao longo de muitas décadas, e fez com que tanta óptima música acontecesse”.

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Mauricio Tapi

Quando se encerrar o festival, dia 5 de Agosto, com a actuação Secret Chiefs 3 de Trey Spruance (a banda editou em 2008 Xaphan: Book of Angels Volume 9, e a actuação será mais uma série da dedicada à série Masada), teremos assistido a 18 concertos e terão sido exibidos cinco filmes. Teremos visto cúmplices de longa data, como o guitarrista Marc Ribot ou o baixista Trevor Dunn, que integrará diversas formações ao longo do festival, teremos visto um pianista de destaque como Craig Taborn ou a soprano Barbara Hannigan. Teremos acompanhado novos companheiros de percurso, como as referidas Kris Davis e Mary Halvorson ou o guitarrista Julian Lage. Este surgirá dia 3 de Agosto, às 21h30, ao lado do guitarrista Matt Hollenberg, de Trevor Dunn e do baterista Kenny Grohowski, quarteto reunido por Zorn para interpretar composições inspiradas em obras de Joseph Conrad, Kurt Vonnegut ou Thomas Pynchon (Insurrection é o título do álbum daí resultante). Dois dias depois, às 18h30, em dueto com Gyan Riley, filho de Terry Riley, tornará a guitarra acústica protagonista de algumas das peças mais delicadas de Zorn. Julian Lage, 30 anos, fala-nos da “paixão” que sente na música de John Zorn. Escreve: “as melodias, ritmos e harmonias sentem-se tão vivas, como se cada uma delas fizesse parte de uma história maior”.

Em cartaz estará também, não tendo contacto directo com Zorn, pertence à família alargada, ou seja, aqueles que, ao longo dos anos, foram inspirados pela sua criatividade. É o caso dos dois grupos portugueses presentes, os Slow Is Possible e os The Rite Of Trio. Duarte Fonseca, baterista dos primeiros, autores em 2017 de Moonwatchers, álbum de estreia que colocou a banda da Beira Interior no radar, conta que quando da última presença de John Zorn em Portugal, em 2013, precisamente para o Jazz em Agosto e em actuação integrada na celebração dos 60 anos do músico, o encontraram nos corredores da Gulbenkian e lhe passaram uma primeira maqueta do disco. “Nunca obtivemos reacção e temos a certeza que não é por essa maqueta que estamos no festival”. Estão no festival por serem tão obviamente parte do universo de Zorn. Consideram os Naked City “a formação perfeita, a melhor banda que pode existir”, e continuam a ser deslumbrados com Electric Masada. Vendo-o na globalidade, abarcando o seu “espectro musical tão grande”, Duarte Fonseca conta que, quando o tema Zorn é discutido na banda, a palavra utilizada para o definir é liberdade. “Liberdade total. E isso é uma grande influência. Toda a gente que toca com ele sente a influência dessa liberdade".

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Amani Willett

Comunidade unida, real

John Zorn nasceu em Nova Iorque a 2 de Setembro de 1953. Cresceu rodeado de sons. A mãe era apaixonada por música clássica e por músicas de raiz de diversas proveniências. O pai era próximo do jazz ou da chanson francesa e o irmão um rockabilly e coleccionador de discos de doo-wop. Mais tarde, no liceu, tinha por colegas miúdos do Japão, França, Nigéria, Alemanha, Holanda, Índia ou Paquistão – frequentou a escola das Nações Unidas. Integrou como baixista bandas de surf music e teve formação em música erudita, enquanto se aproximava do jazz, do rock, da soul. “Crescendo na Nova Iorque dos anos 1960, ouvíamos de tudo”, explicou vezes e vezes sem conta ao longo dos anos. Agindo na Nova Iorque dos anos 1970, participou naquilo que atraiu Thurston Moore à cidade. “Sabendo que poetas, cineastas, artistas e músicos estavam todos a saltar de uma disciplina para outra de forma a criar uma voz comunal foi o que me entusiasmou e o que definiu a minha vontade de criar música”.

Não por acaso, o cinema e a literatura encontraram via aberta para influenciar a forma de compor de Zorn – a ideia de montagem aplicada ao som, a aplicação à música dos cut-ups de William Burroughs –, chegando ele a afirmar que só não se tornou cineasta, gravitando definitivamente para a música, pelo facto de a 7ª arte ter custos de produção muito elevados. Em 2009, dizia: “Não escrevo apenas música, escrevo música para os músicos tocarem”. Dizia mais: “Quando encontro alguém com quem trabalhar, continuamos a tocar juntos porque acreditamos nas mesmas coisas e adoramos fazer o que fazemos. É uma comunidade unida, uma comunidade real. É uma comunidade da mesma forma que o era a comunidade bebop dos anos 1950, ou a comunidade existencialista em Paris, ou os expressionistas abstractos na Nova Iorque dos anos 1940”. Sentenciava então: “Para mim, a música é sobre pessoas. Não é sobre sons, é sobre pessoas, é sobre colocar pessoas em situações desafiantes”.

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Afonso Bastos

Num perfil publicado pela Atlantic em 1991, o jornalista Francis Davis descrevia o seu primeiro encontro com o músico. Aconteceu numa apresentação dos Spy vs. Spy, o combo através do qual Zorn revisitou (ou esventrou) Ornette Coleman. Davis descreve como peças clássicas do free jazz foram submetidas a um tratamento algures entre o speed-metal e o punk hardcore. Conta que, à sua volta, o público mais velho, perante o volume ensurdecedor do concerto, começou a fugir da sala, mãos protegendo os ouvidos. Recorda alguém irado a mandar pelo ar a banda de venda de discos. “Zorn, em resumo, é o exactamente o tipo de adolescente grande e rude que tentaríamos evitar, não fosse o caso de ele ser tão…, bem, interessante, importante e influente”. Destacava-o, por fim, como alguém que ajudou a definir o espaço da avant-garde: “Uma atitude em relação à música, e um género em si mesmo, ecléctico, em vez de simplesmente um movimento de vanguarda na música clássica, jazz ou pop”.

Trey Spruance, membro dos Mr. Bungle, actualmente líder dos Secret Chiefs 3, percebe perfeitamente ao que o jornalista da Atlantic se referia. Descobriu John Zorn quando gravava o álbum de estreia dos Mr. Bungle, em 1990. “As primeiras coisas que ouvi foram Naked City e Spy vs. Spy e esteve muito próximo de uma revelação ouvir alguém tão aventureiro musicalmente”, recorda ao Ípsilon. Zorn acabria por ser o produtor do álbum dos Bungle – “salvou aquilo que seria, em retrospectiva, um disco de que nos iríamos envergonhar”. Mais importante, diz Spruance, foi o facto de, a partir daí, passarem a gravitar à volta da comunidade de John Zorn, actuando com ele quando das suas visitas à Califórnia ou viajando até Nova Iorque para integrar os seus concertos.

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Descreve-o, hoje, como “um meste do ofício”: “Manteve a sua exuberância juvenil enquanto maturou naturalmente no compositor sério que sempre foi, alguém cujo trabalho já não pode ser desvalorizado por razões superficiais, como aqueles que não apreciavam títulos de trabalhos dele dos anos 1980, como Pig fucker ou Jazz snobs eat shit”. Neste momento, vê-o como alguém que “consegue que cada palavra e cada gesto pareçam o correcto para momento”, fruto do “equilíbrio entre uma ética de trabalho intensa como tudo, e a confiante e informada sensibilidade poética que encontramos sempre nas suas peças”.

Esta noite, no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian, teremos perante nós um músico que não ensaia com o seu saxofone desde 1981. Tal não é determinante para a sua expressão criativa. “Penso em mim como um compositor que calha tocar também, o que era uma forma de comunicar com os músicos, uma forma funcional de interagir, mas não sou um instrumentista”, explicava em 2005.

Até 5 de Agosto, com ele em palco, através das suas composições ou através daqueles que influenciou, vamos deparar-nos com alguém que construiu um corpo de obra tão gigantesco quanto fascinante, mas mantido, por definição, inacabado. John Zorn disse um dia que não está de fora a olhar para dentro. Está de fora a olhar para o que está além. Continuará a procurar. O universo Zorn em expansão contínua.