Vêm mais 7,5 milhões de euros em bolsas europeias para cientistas em Portugal

No total, o organismo de financiamento da ciência na Europa, criado em 2007, acaba de conceder bolsas no valor de 603 milhões de euros, para investigadores no início da carreira. Cientistas portugueses ou a fazer investigação em Portugal recebem mais de 11,5 milhões de euros.

Foto
Oito jovens cientistas portugueses ou a trabalhar em Portugal acabam de ganhar bolsas europeias Rui Gaudêncio

O Conselho Europeu de Investigação (ERC) atribuiu cerca de 7,5 milhões de euros a cinco cientistas estabelecidos em Portugal, para desenvolverem os seus trabalhos científicos. Juntam-se a eles mais três cientistas portugueses que trabalham fora do país. Feitas as contas aos oito cientistas, foram-lhes atribuídos esta sexta-feira mais de 11,5 milhões de euros.

Que alimentos podem retardar a demência? Qual a ligação entre a Terra e a vida? Como o cérebro diferencia objectos de forma rápida e eficiente? – estas são algumas das questões às quais estes oito cientistas vão tentar dar resposta. Cinco trabalham em instituições portuguesas e três no estrangeiro. Cada um terá uma bolsa de cerca de 1,5 milhões de euros ao longo de cinco anos para criarem as suas equipas de investigação e desenvolverem projectos científicos inovadores.

Este ano, em 3170 candidaturas, foram atribuídas 403 Bolsas Júnior (cerca de 12,7%) a investigadores em início de carreira de vários países, dos quais 40% são mulheres, segundo Jean-Pierre Bourguignon, presidente do ERC. No total, foram 603 milhões de euros para o apoio à ciência, parte do actual programa de investigação da União Europeia, Horizonte 2020, nas áreas das ciências da vida, ciências físicas e engenharia e ciências sociais e humanas.

O comissário europeu responsável pela Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, mostrou-se satisfeito com a representação portuguesa, dentro e fora do país, “que comprova a excelência dos nossos investigadores”, diz em comunicado. Dos oito cientistas, seis são mulheres: um número “bastante acima da média geral”, reforça o comissário.

Os líderes dos projectos em Portugal representam várias instituições de todo o país. Da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Joana Freitas vai estudar o “mar, a areia e as pessoas” no âmbito do projecto “Uma história ambiental das dunas costeiras”. Enquanto Rogério Pirraço, da Universidade do Minho, estará à frente de um estudo sobre uma rede capilar artificial para uma boa pré-vascularização de enxertos resultantes de engenharia de tecidos.

PÚBLICO -
Foto
O investigador Jorge Almeida, da Universidade de Coimbra DR

Um mapa do cérebro

O desenho de um “mapa do cérebro” vai ficar a cargo de Jorge Almeida, da Universidade de Coimbra, que vai receber 1,8 milhões de euros para analisar como a informação é mapeada e organizada no cérebro humano, capaz de identificar de forma rápida e eficiente qualquer objecto (como um telemóvel ou uma cadeira). O investigador pretende mostrar que “esta informação não é organizada de forma aleatória mas, sim, de uma forma muito específica e continua, em mapa, permitindo o seu uso pelo sistema cognitivo”. Esta é a primeira vez que o ERC financia um projecto português da área da psicologia e neurociência cognitiva que, segundo Jorge Almeida citado em comunicado, “é uma área que lá fora é tida como central, mas tem recebido muito pouco apoio em Portugal”.

“Paisagens adaptativas”

Claudia Bank introduz o conceito de paisagens adaptativas “fitness  landscapes” que relaciona a composição genética dos indivíduos com o seu sucesso reprodutivo. A investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, vai receber 1,37 milhões de euros para estudar como as populações se adaptam e se diversificam. Mais especificamente, vai quantificar como é que a evolução da resistência a medicamentos é afectada pela epistasia – um fenómeno que mostra que as consequências de uma alteração genética podem depender do genoma onde aparece. Claudia Bank garante que, desde o início da sua carreira, que tem “o fascínio de compreender a importância da epistasia durante a evolução”, pelo que esta bolsa vai permitir investigar a questão “tanto de uma forma teórica como experimental”.

PÚBLICO -
Foto
A investigadora Claudia Bank, do Instituto Gulbenkian de Ciência Sandra Ribeiro

A dieta e a saúde cerebral 

Cláudia Nunes dos Santos, do Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (iBET), também em Oeiras, terá 1,5 milhões de euros para estudar a relação entre o regime alimentar e a saúde cerebral. Face ao avanço das doenças neurodegenerativas, como a Parkinson e a Alzheimer, importa investigar quais os compostos fenólicos, presentes nos alimentos, que chegam ao cérebro e o seu efeito na prevenção e tratamento da inflamação cerebral. “Embora os estudos epidemiológicos e de nutrição indiquem que o consumo de frutas e legumes, ricos em polifenóis, é benéfico para a nossa saúde em geral, não é claro como estes compostos chegam e actuam no cérebro”, explica o iBET em comunicado. Neste contexto, o intuito da cientista portuguesa passa por “desenvolver uma estratégia eficaz de cuidados prolongados com base em polifenóis para manter o cérebro saudável”.

PÚBLICO -
Foto
A investigadora Cláudia Nunes dos Santos, do Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica ITQB NOVA

22 países, 44 nacionalidades

As restantes três cientistas portuguesas irão desenvolver os seus projectos em instituições estrangeiras. Na Alemanha, Ana Banito vai localizar mecanismos genéticos e epigenéticos em sarcomas pediátricos; no Reino Unido, Sandra Sequeira vai estudar os refugiados, a pobreza e o crescimento económico; e na Áustria, Maria Filipa Sousa vai analisar a “Evolução da Fisiologia: a relação entre a Terra e a Vida”.

No geral, os projectos financiados pelo ERC em 2018 serão desenvolvidos em 22 países, a maioria na Alemanha (76) e no Reino Unido (67), com um crescimento considerável na Holanda. A área mais estudada serão as ciências físicas e engenharia, com 170 propostas aceites. Por que é o mundo verde? São os nossos olhos as janelas para as nossas personalidades? Como o Japão se tornou uma potência industrial global? Estas são algumas das questões às quais cientistas de 44 nacionalidades querem responder.

As bolsas irão permitir ainda que 1500 estudantes (em fase de pós-doutoramento, doutoramento e outros colaboradores) integrem as equipas de investigação, assim como a disseminação do conhecimento. “Talento científico e ideias ambiciosas podem ser encontrados em toda a Europa e o ERC pretende dar-lhes estímulo onde quer que estejam”, concluiu Jean-Pierre Bourguignon.

O concurso do ERC para a próxima ronda de financiamento de Bolsas Júnior abrirá nos próximos dias, de acordo com o regulamento. Cientistas de qualquer nacionalidade – com dois a sete anos de experiência e “um historial científico prometedor” – podem concorrer às Bolsas Júnior, mas a investigação deve ser realizada numa instituição num dos Estados-membros da União Europeia ou países associados. 

Texto editado por Teresa Firmino