Opinião

A coragem da verdade

O complexo politico-mediático que impera na generalidade das nossas democracias normalizou de tal modo o discurso que acabou por favorecer as propostas mais primárias e extremistas.

1. Já perto do fim da vida, numa das últimas conferências que proferiu no Collège de France, Michel Foucault abordou um conceito de origem grega a que atribuiu enorme importância nos campos da política, da filosofia e do próprio pensamento cristão: o conceito de parrésia, que pode ser definido como a obrigação moral de falar a verdade. No plano político, que é o que nos interessa aqui, o significado é um pouco mais amplo, já que estipula o exercício dessa obrigação moral num contexto de risco sério, que no limite poderá ser o da própria vida. Sem entrar numa apreciação exaustiva do texto de Foucault, referirei tão só dois aspectos de particular importância: por um lado, o carácter moral e politicamente auto-constitutivo daquilo que é percebido como a coragem de falar a verdade; por outro, a necessidade de tal prática para a manutenção da democracia.

A dado passo, Foucault remete-nos para um texto de Isócrates onde se estabelece uma diferenciação entre o bom orador, que pratica a parrésia, e o mau orador, que identifica com a figura do adulador. Isócrates considera que a prática da parrésia exige simultaneamente a coragem do orador, que terá de estar disponível para afirmar coisas imediatamente pouco agradáveis e, do outro lado, a coragem do público a quem tal discurso é dirigido para aceitar a discussão dessas afirmações. Infelizmente, na perspectiva deste autor grego, a democracia ateniense estava dominada por demagogos porque os cidadãos se tinham deixado seduzir pela bajulação.

Qual a utilidade deste conceito no contexto das democracias contemporâneas? Creio que poderá ser diversa, mas no presente texto vou ater-me a um aspecto muito particular. Uma das razões pelas quais figuras como Donald Trump ou o ministro italiano do interior, Matteo Salvini, suscitaram e continuam a suscitar uma ampla adesão popular prende-se com uma característica que se pode identificar na recepção pública dos respectivos discursos políticos. Uma parte significativa dos cidadãos acreditam que eles, ao contrário dos demais intervenientes políticos, falam a verdade, enunciam os problemas que realmente contam e preconizam soluções não convencionais. Com base nisso suscitam facilmente fortíssimas paixões políticas. Subjaz a tudo isto uma perspectiva de transgressão dos códigos simbólicos estabelecidos.

O êxito deste tipo de discurso político resulta em grande parte do seu contraste com o discurso demasiado estereotipado e na maior parte dos casos pouco corajoso que é hoje produzido pelas elites políticas tradicionais. É óbvio que nem Trump nem Salvini falam a verdade ou enunciam com rigor os reais problemas do nosso tempo, e muito menos apresentam soluções minimamente aceitáveis à luz de critérios civilizacionais largamente partilhados. Eles não praticam a parrésia, dedicam-se a levar a cabo um simulacro obsceno da mesma. O problema é que do outro lado também são muito poucos os que a praticam, já que a maioria se não consegue elevar para além de uma retórica empobrecida e vaga, amplamente formatada por profissionais da comunicação e quase exclusivamente preocupada em agradar às expectativas mais imediatas dos eleitorados. O complexo politico-mediático que impera na generalidade das nossas democracias normalizou de tal modo o discurso que acabou por favorecer as propostas mais primárias e extremistas.

Por pura preguiça mental, cedemos à tentação de rotular de populismo tudo o que é alheio a este discurso estereotipado. Como se o populismo não tivesse já impregnado grande parte deste mesmo discurso. O que verdadeiramente falta é essa vontade de liberdade discursiva que constitui condição imprescindível para a plena concretização de um compromisso com a verdade. É óbvio que ao enunciarmos a palavra verdade a perspectivamos de forma polémica e plural. É nesse sentido que as reflexões Foucault sobre a parrésia me parecem de uma grande actualidade. É preciso romper o círculo de uma linguagem feita de minúsculas interdições e pequenos tabus que prejudica fortemente a eficácia do discurso político democrático e abre espaço para um discurso grosseiro e de baixíssimo calibre moral e intelectual, que só pode antecipar enormes desastres colectivos.

2. O “politicamente correcto”, que nasceu por bons motivos nalgumas Universidades norte-americanas, adquiriu a dada altura proporções muito exageradas e originou mesmo práticas sectárias e intolerantes. Tudo isso é sabido, mas aquilo a que agora assistimos é a uma despudorada exaltação do “politicamente incorrecto”. Num exercício de pretensa virilidade retórica, há quem, a propósito e a despropósito, se reclame desse estatuto, passando seguidamente à enunciação de banalidades ou boçalidades. Na base desse comportamento nota-se a existência de um anti-intelectualismo básico e de muito má memória.

A violência verbal inaudita que recaiu sobre o deputado do PAN pelo simples facto de ter apresentado um projecto-lei visando a proibição das touradas não pode deixar de suscitar inquietação. Era o que faltava que um deputado eleito com aquele projecto político não tivesse o direito de apresentar uma iniciativa dessa natureza. Tinha, aliás, não só esse direito como até esse dever. Acusaram-no de tudo, inclusivamente de cultivar propósitos liberticidas. Tudo em nome da tradição, como se esta não devesse passar pelo escrutínio da razão. Mas lá está, ao dizer isto serei imediatamente acusado de racionalista dogmático e autoritário. Não, não sou nem uma coisa nem outra. Há uma terceira coisa que também não sou: um cultor do irracionalismo.