Uma ópera em directo de Bayreuth para os fãs de Wagner sentados no CCB

Pela primeira vez, o famoso festival dedicado ao compositor transmitiu em directo a abertura para um país que não fala alemão. Bayreuth também inovou ao entregar nova produção de Lohengrin a um norte-americano.

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No final, Elsa está preparada para uma nova vida, para partir para uma nova vida com a mochila que Lohengrin lhe deu Bayreuther Festspiele/ Enrico Nawrathn
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Foi há quase um ano que a presidente do Círculo Richard Wagner começou a tentar trazer para Portugal a transmissão em directo da abertura do Festival de Bayreuth, a meca alemã da ópera de Richard Wagner e um lugar de culto para os melómanos. “Essa é uma senhora história”, começa por dizer Teresa Cochito, recuando o início dos contactos a um encontro de Katharina Wagner, directora do festival, com os círculos dedicados ao compositor alemão durante o mês de Agosto passado, onde se discutia o que é que estas associações que reúnem 37 mil membros em todo o mundo podiam programar em sintonia com a abertura do festival de 2018. “A ideia da transmissão em directo por satélite do festival não era muito linear para fora dos países de língua alemã. Nunca tinha sido feita nenhuma.”

Mas este 25 de Julho de 2018 foi um dia “histórico”, como lhe chamou Paulo Ferreira de Castro, o musicólogo que em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB), fez a conferência que introduziu a nova produção de Lohengrin, assinada pelo encenador norte-americano Yuval Sharon, dirigida pelo maestro alemão Christian Thielemann e com cenografia e figurinos dos pintores Neo Rauch e Rosa Loy, também eles alemães. “Isto não é sequer uma prática corrente fora da Alemanha. Estamos hoje aqui um pouco em Bayreuth nas margens do Tejo”, continuou Ferreira de Castro sobre o espectáculo que começou a ser transmitido ao final da tarde de quarta-feira no Grande Auditório do CCB.

“É a primeira vez que fazemos uma transmissão para fora dos países que falam alemão. Sim, a estreia foi em Lisboa”, confirmou já esta quinta-feira Markus Latsch, o responsável pelos contactos com os media do programa Festival de Bayreuth no Cinema, que junta 130 salas, a sua maioria na Alemanha, mas com extensões este ano também à Áustria e à Suíça. Já de saída para outra produção, Markus Latsch estava entusiasmado com o facto de alguns dos bilhetes oferecidos pela organização para o próximo festival em 2019, num sorteio a que assistimos também no CCB no final da transmissão em directo, tivessem ficado para alguns dos fãs lisboetas de Wagner. Numa parceria com o CCB e o Instituto Alemão, o Círculo Richard Wagner alarga assim em Portugal as transmissões em directo das grandes casas de ópera internacionais, que começaram com a Gulbenkian e o Metropolitan de Nova Iorque e já incluem o Corte Inglés e a Royal Opera, que ultimamente também tem mostrado as suas produções em Belém em directo e diferido.

“Há um excelente público wagneriano em Portugal, mas o festival tem sempre longas filas de espera para a obtenção de bilhetes porque só há 60 mil lugares por festival. Há anos e anos de espera para ter os bilhetes”, afirma a presidente do Círculo Richard Wagner, que todos os anos leva alguns dos seus membros a Bayreuth. “Com as novas tecnologias, a possibilidade de experimentar aquele lugar pensado por Wagner para mostrar a sua obra de arte total é uma oportunidade única. No CCB, houve uma reacção muito boa do público. Eu adorei.” Do ponto de vista musical, continua Teresa Cochito, “aquilo é o topo da nata”, porque Christian Thielemann “é uma coisa absolutamente excepcional” e o elenco “fabuloso”. Quanto às encenações, “é importantíssimo que tragam novidade, que não sejam inócuas deposições de coisas do passado, e que proponham uma leitura filosófica”. Da encenação de Yuval Sharon, releva a introdução da iconografia ligada às efeméridas, um tipo de insectos que só dura um dia, para identificar Lohengrin ou aqueles que estão ligados ao poder. “As asas que usam realçam como é efémera a ideia, ou o projecto, de que um ser virtuoso, só luz, extraterrestre, consegue conviver no dia-a-dia terrestre.”

A estreia absoluta de Lohengrin, a ópera do cavaleiro do cisne, foi em 1850 em Weimar, na Alemanha, mas Wagner não assistiu porque vivia no exílio por causa da sua participação na Revolução de 1848, lembrou Paulo Ferreira de Castro na conferência. “Ele confiou essa estreia a Liszt, que era uma espécie de director artístico da corte de Weimer. Conta-se que assistiu ao espectáculo através da sua imaginação na Suíça, sentado na esplanada do Hotel do Cisne. Nessa altura não havia transmissão em satélite, mas para Wagner a ópera terá acabado mais cedo, porque os tempos de Liszt eram muito lentos...” Se Lohengrin vem trazer a luz à sombra e salvar a princesa Elsa da morte, a cor orquestral também é muito importante nesta ópera, "porque há um trabalho muito imaginativo em termos de timbres".

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O antigo director do Teatro Nacional de São Carlos explicou também que Lohengrin é uma obra charneira na composição de Wagner. “É a última obra romântica, depois virá a tetralogia, Tristão e Isolda, Os Mestres Cantores de Nuremberga e Parsifal no final da vida. Mas Lohengrin prenuncia muitas das opções da obra da maturidade de Wagner.” Paulo Ferreira de Castro, que falou antes de começar a transmissão e lembrou quanto Bayreuth não gosta de revelar grande coisa antes das obras subirem ao palco, preparou-nos para uma certa tensão entre cenografia e encenação.

Afinal, como lembrou o crítico do New York Times, a estreia do primeiro encenador americano em 142 anos de Festival de Bayreuth não se fez sem alguns percalços. Quando Yuval Sharon chegou a Bayreuth em 2016 para substituir Alvis Hermanis na encenação, já o casal de artistas que assina a cenografia e figurinos trabalhava há anos na produção. Neo Rauch e Rosa Loy têm defendido, explicou o conferencista português, que é preciso reintroduzir “o reencantamento do mundo”, numa resposta ao “desencantamento do mundo” referido na obra do sociólogo alemão Max Weber, uma tendência geral da vida moderna ocidental, especialmente presente na cultura alemã. Já a abordagem à encenação de Yuval Sharon, que simboliza a renovação da ópera nos EUA, é mais política, como escreve David Allen do New York Times: se “nenhuma estrela deve ser seguida sem cepticismo”, cabe às mulheres da ópera interrogarem a luz que representa Lohengrin, numa crítica feminista que fica por vezes subjugada pelo encantamento da cenografia.

“Elsa, se eu me tornar teu esposo, passarei a proteger o teu país e o teu povo, e nada me separará de ti, mas há algo que tens de me prometer: jamais me deverás perguntar, nem sequer teres curiosidade em saber, de onde vim nem qual é o meu nome e a minha origem!” Mas Elsa, como defende Paulo Ferreira de Castro, tem todo o direito de saber com quem se casou. “Quem é o verdadeiro herói? Elsa ou Lohengrin?”

As referências são mais do que muitas e, por vezes, um pouco avassaladoras e confusas: cenário e figurinos pintaram-se de azul, cabelos de cantores incluídos; há uma central eléctrica que parece saída directamente do filme Metropolis, a obra-prima expressionista de Fritz Lang; o guarda-roupa inspirou-se na pintura antiga do Norte da Europa; Lohengrin, o herói, faz lembrar o homem novo do mundo soviético, um operário electricista. Quando nos aproximamos do final, o laranja, a cor complementar do azul, começa a invadir o cenário e os figurinos – o quarto nupcial extravagantemente representado dentro de uma torre eléctrica é todo laranja. Elsa fez a pergunta proibida, traindo a sua promessa. Lohengrin anuncia que é filho de Parsifal, o rei do Graal. Mas enviado para combater o mal, só tinha poderes excepcionais enquanto não fosse revelada a sua identidade. Falha, assim, o encontro entre o humano e o divino, entre o ideal e a realidade, entre a teoria e a prática, entre a revolução e a vida política.

Mas na cena final, que termina com a palavra “desgraça”, já não vemos uma Elsa caída, antes uma mulher a quem Lohengrin dá uma mochila cheia de coisas para enfrentar uma nova vida. É tempo de ressurgir o irmão desaparecido de Elsa, Gottfried, transformado num homem silvestre contemporâneo, outra figura mítica da Europa medieval.