Opinião

Interligações elétricas: e Portugal?

Se Portugal aumentar a sua capacidade produtiva numa Europa interligada, seremos uma região crucial para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Vai realizar-se uma nova cimeira relativa às interligações ibéricas de eletricidade para a região sudeste do mercado europeu de energia. Este evento realiza-se a 27 de julho, em Lisboa, e reúne representantes de Portugal, Espanha e França.

A relevância deste evento e das consequentes deliberações que possam daí advir merece grande atenção. Embora se esteja a caminhar na direção de um mercado único de energia, o seu avanço tem sido condicionado pela insuficiência de investimento. Investimento esse que determina a posição de Portugal como região produtora de eletricidade via fontes renováveis. Repare-se que já em 2002, no Conselho Europeu de Barcelona, foi definido que cada um dos Estados-membros deveria ter uma capacidade de interligação de 10% em relação ao total instalado. Em 2018, Espanha ainda não o atingiu e Portugal só o conseguiu ultrapassar recentemente.

Devido às condições específicas do nosso país, com elevado potencial hídrico, eólico e solar, e às desajustadas políticas que foram prosseguidas, em que o contribuinte acaba por ser o pagador, Portugal tem atualmente uma grande capacidade de produção com base em fontes renováveis. Este mix produtivo coloca-nos no pelotão da frente nesta matéria, o que nos permite algum destaque a nível internacional, quer pelo número de horas ininterruptas em que consumimos energias renováveis exclusivamente, quer pela nossa capacidade de produzir excedentes.

A insuficiência das atuais interligações ibéricas de eletricidade limita a criação do mercado único de energia. Na União Europeia, as maiores limitações para a criação desse mercado são a existência de regiões cujas interconexões com a Europa continental são escassas. Designadas como ”penínsulas elétricas”, enumeram-se a Península Ibérica, os Estados Bálticos, Itália e Grã-Bretanha e Irlanda.

Por via do gargalo existente entre Espanha e França, o papel de Portugal fica gravemente condicionado. O investimento na interligação destes países afigura-se como crucial para finalmente podermos aumentar a capacidade de exportação elétrica. Conforme sugere a Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E), a capacidade de interligação Ibérica com França deveria ser dez vezes superior à atual.

Através do reforço desta interligação, os nossos excedentes podem ser melhor aproveitados. Países com menor capacidade produtiva poderão comprar-nos o excedente e até França, onde Macron declarou o objetivo de reduzir em 50% o peso da eletricidade de origem nuclear, não quererá voltar ao carvão e gás.

Com o acesso ao mercado europeu, poderia prever-se um aumento nos preços a que vendemos a energia. Uma produção de energia renovável mais rentável pode tornar-se aliciante para investidores privados. Se Portugal aumentar a sua capacidade produtiva numa Europa interligada, seremos uma região crucial para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

A União Europeia é caso de sucesso na promoção da livre circulação de pessoas e bens, porém, se estes investimentos não forem realizados, a livre circulação de energia ficará comprometida. Com uma Europa energeticamente unida, com interligações elétricas bem estabelecidas, Portugal poderá finalmente usufruir de eletricidade limpa de poluentes e subsídios.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico