Entrevista

Diminuição da população levará “a uma perda da qualidade de vida”

Gonçalo Saraiva Matias, o novo director de estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, diz que o envelhecimento e a perda de população serão fatais para um Estado social assente numa pirâmide demográfica progressiva. O remédio é aumentar a poupança privada.

Exposição de arte, Design
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Nuno Ferreira Santos

Quando se fala de perda populacional, a reboque do envelhecimento, por que é que se fala sempre numa perspectiva negativa? É assim tão mau para um país ser mais pequeno?

A resposta imediata é sim, é muito mau. Por uma razão simples: o nosso sistema de desenvolvimento foi assente numa pirâmide populacional demográfica crescente. O nosso Estado Social, o nosso sistema de pensões e de contribuições sociais, está assente numa pirâmide demográfica progressiva. O que significa que a inversão desta pirâmide provoca um bloqueio no nosso sistema. Não temos estudos que me permitam aferir sobre as vantagens de uma diminuição populacional absoluta, o que sei é que, acontecendo, isso implica uma perda de qualidade de vida a curto e médio prazo muito significativa, porque o nosso sistema entra em ruptura completa e não temos forma de o compensar. Veja que a própria mudança do sistema de Segurança Social tem esse risco. A mudança de um sistema social de pay as you go para capitalização, isto é, a mudança de um sistema em que uns contribuem para os outros para um sistema em que cada um faz a sua própria reforma, que seria uma micro-adaptação a essa alteração populacional, provoca por si só um crash no sistema porque o sistema não foi construído assim.

Admitindo a inelutabilidade desta inversão da pirâmide, não deveríamos estar a pensar em mudar o modo como nos organizamos socialmente ao longo da vida, em que à fase em que se estuda se segue a fase em que se trabalha e depois em que se entra na reforma, em momentos relativamente estanques?

Admito que sim, mas isso é incompatível com o nível de Estado Social que temos. Algo que pode ser feito é incentivar um aumento da poupança privada e da poupança das famílias. Provavelmente, este modelo demográfico levará a que o Estado tenha muito menos capacidade de apoiar as pessoas e a que elas tenham muito mais de contar consigo próprias e com as famílias. Portanto, o aumento da poupança, que vemos que em Portugal é muito baixo…

porque temos uma legião de trabalhadores pobres.

É verdade. Mas, se não aumentarmos a poupança e continuarmos a confiar num Estado que tem cada vez menos recursos, isso levará ao tal colapso

O caminho passará por esta convivência de sistemas mistos?

Exactamente.