História

Santana Lopes foi eleito membro honorário da Academia Portuguesa da História por unanimidade

O ex-provedor da Santa Casa da Misericórdia junta-se assim a uma extensa e ecléctica lista de personalidades, que já incluía Durão Barroso. Não ficou registado em acta quem teve a iniciativa
Foto
Nuno Ferreira Santos

Pedro Santana Lopes foi eleito académico honorário da Academia Portuguesa da História (APH), informou a sua presidente, Manuela Mendonça. "É uma distinção que me honra", disse ao PÚBLICO o ex-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. 

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

O antigo primeiro-ministro foi eleito académico honorário da APH numa sessão que decorreu esta segunda-feira, tendo o seu nome sido unanimemente aprovado pelos 14 académicos de número presentes, e ainda por mais seis que delegaram o seu voto, revelou ao PÚBLICO Luís Silva, assistente técnico da instituição. 

Secretário de Estado da Cultura no segundo Governo de Cavaco Silva, presidente das câmaras de Lisboa e da Figueira da Foz e primeiro-ministro do XVI Governo Constitucional, Santana Lopes foi também, entre 2011 e 2017, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que patrocinou, entre outras iniciativas de relevo cultural, a publicação da Obra Completa do Padre António Vieira (2013-2014), que a instituição apoiou com 500 mil euros.

A Academia Portuguesa da História tem um número fixo de trinta académicos portugueses de número, isto é, que ocupam uma das trinta cadeiras disponíveis, e apenas estes (e ainda mais seis que já deixaram a respectiva cadeira mas mantêm direito de voto) podem propor novos membros, sejam eles correspondentes, categoria geralmente reservada a historiadores, ou académicos honorários, estatuto que abrange personalidades de várias áreas. Foi, pois, este núcleo duro da Academia que se reuniu nesta segunda-feira para eleger o antigo primeiro-ministro, cujo nome já fora proposto na reunião anterior, não tendo, contudo, ficado registado em acta de quem partiu a iniciativa.

Embora o papel da Misericórdia de Lisboa como mecenas cultural, e também como instituição que conserva arquivos de grande importância historiográfica, possa ter influenciado esta decisão da APH, Santana Lopes não está certo de que tenha sido o seu mandato como provedor da instituição a justificar esta distinção. "As notícias falam do apoio à publicação da obra do Padre António Vieira, mas nada disso foi tratado com a Academia Portuguesa de História", disse o novo académico ao PÚBLICO, observando que contactou mais com a APH nos quase cinco anos em que foi secretário de Estado da Cultura ou enquanto presidente da Câmara de Lisboa. "E já nem falo do tempo em que fui primeiro-ministro, porque esse foi mais curto".

Além de Santana Lopes foram também eleitos académicos honorários o embaixador José Bouza Serrano, autor de O Livro do Protocolo (2011) e que exerceu entre outras funções as de chefe do Protocolo de Estado, e José Augusto de Alarcão Troni, presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Como académicos de mérito foram eleitos Vasco Mantas, do Departamento de História e Arqueologia da Universidade de Coimbra, autor entre outros títulos, de Arqueologia e ideologia. Reflexões sobre um tema incómodo, e Manuel Ferreira Patrício, ex-reitor da Universidade de Évora, que tem desenvolvido investigação sobre o filósofo Leonardo Coimbra e é autor de variada obra sobre Pedagogia e Ciências da Educação, tendo sido um dos fundadores da Associação da Educação Pluridimensional e da Escola Cultural, da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação e da Associação Portuguesa de Professores.

A APH, uma instituição científica de utilidade pública financiada pelo Estado – está desde meados dos anos noventa na dependência do Ministério da Cultura –, pretende ser a mais antiga academia nacional, uma vez que se considera herdeira da Academia Real da História Portuguesa, fundada por D. João V em 1720, e que viria a extinguir-se em 1776. Mas, na sua encarnação contemporânea, a APH data de 1936 e foi criada no contexto da reforma ideológica imposta pelo Estado Novo nos domínios da cultura, ensino e investigação. 

A sua história no pós-25 de Abril ficou marcada pela presidência de Joaquim Veríssimo Serrão, que liderou a instituição durante mais de três décadas, de 1975 a 2006. Figura ligada à ala marcelista do antigo regime, terá contribuído para dar à APH um cunho conservador, mas também lhe devolveu alguma vitalidade. 

Actualmente presidida pela historiadora Manuela Mendonça, que o PÚBLICO tentou contactar sem sucesso, a AHP contava em 2017 com 455 académicos, incluindo cerca de 60 académicos honorários nomeados por eleição, entre os quais se encontra um número significativo de figuras ligadas às Forças Armadas e à Igreja Católica. Mas também políticos, como Durão Barroso, o primeiro-ministro que precedeu Santana Lopes. 

O PÚBLICO ouviu alguns historiadores que integram a APH e que não quiseram ser citados, mas que a retratam como uma instituição que vem perdendo relevância enquanto referência científica, dando como exemplo o declínio das publicações promovidas pela própria Academia. Reconhecem, no entanto, que tem sido feito um esforço no sentido da renovação e diversificação dos seus membros.

Entre os académicos contactados, o único que aceitou comentar esta decisão, com a ressalva de que está em férias e não participou na reunião em causa, foi Vítor Serrão: "Como académico da APH [ocupa a cadeira n.º11], acho que a Academia só deve premiar e valorizar pessoas com currículo significativo no campo da História, com obra publicada ou produzida noutras dimensões, o que não se aplica de nenhum modo a Santana Lopes".