As Pessoas do Drama, de H.G. Cancela, vence Grande Prémio de Romance e Novela

A Associação Portuguesa de Escritores e a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas patrocinam este prémio, que tem o valor de 15 mil euros. Teve 72 livros concorrentes.

Helder Gomes Cancela
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Helder Gomes Cancela Adriano Miranda

O romance As Pessoas do Drama, de H.G. Cancela, é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), relativo ao ano de 2017, anunciou nesta terça-feira esta entidade.

Em declarações à agência Lusa, o autor afirmou-se "naturalmente satisfeito", embora sabendo que "um livro não passa a ser melhor por o ter ganho, nem passaria a ser nem passaria a ser pior se o não tivesse".

"Um prémio supõe sempre identificar o melhor. Naturalmente que não existe 'o melhor', seja romance, lugar ou vinho. Cada prémio corresponde a um exercício de selecção que pretere e deixa outros na sombra. Espero que este livro faça justiça aos outros que ficaram na sombra. Pior se o não tivesse", disse.

Referindo-se à obra premiada, As Pessoas do Drama, H.G. Cancela disse que "parte do teatro como experiência simbólica, mas não se lhe reduz".

"É um livro de personagens. Talvez duro, sem cedências nem complacência. É um percurso, a proposta de uma experiência condicionada pelo olhar do narrador. Um olhar que questiona, subverte, perverte. Que confronta as heranças da cultura europeia para interrogar o lugar do indivíduo e dos valores. O lugar da mulher, o do homem. O lugar da verdade, o lugar da encenação".

Em comunicado, a APE afirma que “o júri, constituído por Isabel Cristina Mateus, Isabel Ponce de Leão, José Carlos Seabra Pereira, José Manuel de Vasconcelos e Paula Mendes Coelho, deliberou, por maioria, atribuir” o Grande Prémio de Romance e Novela APE/ Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas à obra As Pessoas do Drama, de H.G. Cancela (edição Relógio d’Água).

 "O júri deliberou atribuir o Grande Prémio de Romance e Novela à obra As Pessoas do Drama, de H. G. Cancela, pela leitura crítica da História e da Cultura europeia na sua relação com a cultura árabe, através de uma temática poderosa (a culpa, a impunidade, o drama, o olhar, o incesto, a tensão e a violência familiares) e de uma revisitação de personagens e de mitos do nosso património cultural ocidental", lê-se na acta.

Dois dos membros do júri, Isabel Ponce de Leão e José Carlos Seabra Pereira, votaram no romance Para onde Vão os Gatos quando Morrem?, de Luís Cardoso, segundo a mesma fonte.

Questionado sobre as considerações feitas pelo júri, em acta, que considerou tratar-se "de uma escrita densa e de um universo ficcional intenso e original, que desafia tabus civilizacionais e cria desassossegos em quem lê", H.G. Cancela disse que retém "a ideia de intensidade".

"É algo a que me proponho enquanto projecto de escrita e de literatura: cada livro tem de merecer a atenção do leitor. Deve dar-lhe algo em troca daquilo que exige. E deve dar-lhe tanto mais quanto maior é o que exige. Não tem de ser fácil ou imediato, mas deve ser intelectual e esteticamente gratificante. Deve acrescentar algo à experiência do leitor. Essa tensão produz-se na linguagem, e o romance revela-se um lugar privilegiado para a construir".

Sobre o seu próximo romance, a sair ainda este mês, o autor antecipou que A Terra de Naumãn se situa "num plano distinto dos anteriores" romances.

"É um livro do âmbito do fantástico, publicado pela Relógio d' Água numa colecção de ficção científica, que se propõe contar uma história. Princípio, meio e fim. Por motivos da própria leitura, prefiro não identificar a temática, mas poder-se-ia dizer que se trata de ficcionar um episódio do passado do planeta Terra".

"Talvez se trate de perguntar quem somos e o que é isto a que chamamos cultura: a linguagem, os valores, os sentimentos? Isto através de uma narrativa e de uma abordagem que, espera-se, sem perder o rigor, se pretende que alcance um leque mais alargado de leitores", acrescentou H.G. Cancela.

A este galardão, dotado com 15 mil euros, candidataram-se 72 livros publicados em 2017, com a chancela de 35 editoras.

O autor, Helder Gomes Cancela, já fora finalista do Grande Prémio da APE com o seu terceiro romance, Impunidade, de 2014.  Anteriormente, tinha publicado Anunciação (1999), De Re Rustica (2011), o livro de poesia Novembro (2003) e os ensaios Relativismo Axiológico e Arte Contemporânea: Critérios de Receção Crítica das Obras de Arte (2004) e O Exercício da Violência. A Arte enquanto Tempo (2014).

Helder Gomes Cancela nasceu em 1967. Estudou Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde fez o doutoramento, em Filosofia Contemporânea. É, desde 2000, professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde é responsável pela área científica de Estética. O autor é investigador no Instituto de Investigação em Arte Design e Sociedade.