Ensaio

Vamos aumentar a realidade para viver melhor

A realidade aumentada é a próxima grande novidade no campo da tecnologia. Promete muito nas áreas da informação, da comunicação e das artes e tem por objectivo melhorar a experiência de vida quotidiana.
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A melhor forma de explicar do que trata esta nova tecnologia é uma definição simples: a realidade aumentada é uma camada de informação digital que se sobrepõe a tudo o que rodeia o utilizador, de forma a facilitar a relação com o mundo. Essa camada de informação digital pode ser acedida através do smartphone, de óculos especiais ou de outros aparelhos que permitem interagir com o ambiente sem afastar o utilizador do espaço que o rodeia.

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É diferente da realidade virtual porque o objectivo desta é colocar o utilizador num ambiente diferente, com uma experiência integral que o afasta do que está à sua volta – ao contrário, o que a realidade aumentada pretende é tornar melhor a experiência com o que rodeia o utilizador. Imagine ter uns óculos que projectam nas lentes o caminho mais próximo para chegar ao seu destino ou que lhe diz qual dos restaurantes que estão na rua à sua frente têm vagas para almoçar e qual os preços dos pratos, por exemplo. Ou imagine que está a montar um móvel cujas instruções estão projectadas junto com o equipamento para facilitar a colocação das peças.

Tudo isto está longe de ser ficção: aplicações como estas já são frequentes na indústria, em que se usam capacetes e óculos para colaborar na construção e reparação de equipamentos. A novidade está na chegada ao mercado de grande consumo, graças à recente evolução tecnológica nesta área. Quem experimentou o jogo Pokémon Go que há dois anos fez sucesso já tem uma ideia do que se trata: este jogo colocava criaturas virtuais nas proximidades do utilizador, criando uma camada de informação (as criaturas) no ambiente real captado pela câmara do telemóvel. 

Neste momento várias empresas estão a desenvolver equipamentos capazes de transmitir experiências de realidade aumentada. A Microsoft tem um equipamento em utilização, o Hololens, que tem sido pioneiro na demonstração do potencial desta tecnologia, mas muitas outras estão a chegar ao mercado com soluções viradas para o grande consumidor. Uma das que actua com maior secretismo é a Magic Leap, que promete revolucionar o meio com um equipamento de grandes capacidades mas que ainda não anunciou datas concretas para a chegada ao mercado. Em Junho, uma startup norte-americana lançou um produto que quer tornar acessível a todos a experiência de realidade aumentada e por isso apostou num produto de baixo custo. E ainda falta que empresas como a Apple, a Google e o Facebook mostrem o que andam a fazer nesta área. Há também empresas portuguesas neste meio, e nelas destaca-se a Aromni, herdeira da YDreams de António Câmara, que está a desenvolver uma plataforma integrada para o futuro desta tecnologia.

Os meios de comunicação também já começaram a desenvolver experiências nesta linguagem. Este ano o destaque tem de ser dado ao New York Times, que desde Janeiro fez um investimento em realidade aumentada que oferece aos leitores formas interactivas de relacionamento com as narrativas jornalísticas inovadoras, para introduzir “um modelo mais visceral e real”. Estas experiências estão acessíveis na maioria dos modelos de telemóveis mais recentes com sistema operativo iOS e Android. A primeira grande experiência foi feita com o perfil interactivo de quatro atletas que participaram nos Jogos Olímpicos de Inverno, mas a mais recente é verdadeiramente surpreendente: uma visita à gruta na Tailândia onde se deu o salvamento dramático dos quinze jovens permite perceber a dificuldade da operação de resgate e consegue transmitir, melhor do que um texto, a experiência vivida.   

Helen Papagiannis é uma das maiores especialistas mundiais neste tema e autora do livro Augmented Human, acabado de publicar em inglês e em mandarim. Em entrevista ao PÚBLICO, explica que apesar de a tecnologia já existir, o que vai fazer diferença é “a experiência. A tecnologia está lá, mas o que podemos fazer com ela? Acho que essa é a questão essencial, vamos aproveitar o poder da mesma para criar experiências sem precedentes.” No seu livro apresenta várias formas como a tecnologia vai facilitar a vida quotidiana, desde a compra de roupa ou móveis até uma viagem turística.

Mas vai mais longe e afirma que esta tecnologia vai poder transmitir sensações: “Actualmente, a realidade aumentada ainda se centra em experiências visuais, mas não tem de ser assim. O mundo não é apenas o que vemos, usamos todos os nossos sentidos para viver. Por que razão haveríamos de limitar a realidade aumentada? Há experiências muito interessantes que o sabor e o cheiro podem tornar possíveis. E esse é um aspecto muito interessante, porque não estamos limitados à replicação dos nossos sentidos, experiências e realidades. O sabor e o cheiro podem ser explorados de forma sinestésica e criar possibilidades muito interessantes por exemplo ao nível das narrativas.”

Este é um aspecto crucial desta nova tecnologia, porque é encarada como um novo meio de comunicação e expressão artística cujos limites estão apenas limitados pela criatividade humana. É assim uma área em que há vários empreendedores que começam agora a explorar o que pode ser feito e isso começa a ter impacto em várias áreas. A educação, por exemplo, é uma delas. Papagiannis, que em 2010 desenvolveu um livro interactivo sobre animais com que se interagia através de um tablet, destaca precisamente as possibilidades educativas: “Por exemplo, no local de trabalho é possível replicar experiências que, de outra forma, não seriam seguras. É possível aprender a manusear equipamento dispendioso ou de grandes dimensões. E na sala de aula, podemos dar vida aos temas mais complexos abordados nas aulas de ciência e química. A realidade aumentada consegue, de muitas formas, dar visibilidade àquilo que é invisível. E compreender estes conceitos de novas formas será muito relevante.” 

Quanto à arte, está tudo por fazer, “até porque este é um novo meio de expressão e, como tal, relaciona-se muito bem com o meio artístico. Seja a explorar os sentidos ou em experiências com múltiplos utilizadores, acredito que é uma folha em branco para artistas. E acho que isso é fundamental, porque são as experiências que os artistas criam que vão ditar o futuro deste meio e que o podem conduzir noutras direcções. Como acontece quando aparecem nos meios de comunicação, a fase inicial é a de adaptação de formatos existentes noutros meios – tal como a televisão começou por replicar os formatos de rádio até se impor com narrativas próprias, também a realidade aumentada começará por usar modelos próprios do vídeo e do áudio digital antes de criar narrativas inovadoras. Como a realidade aumentada tem um potencial de interacção com os sentidos muito poderoso, isto irá criar experiências muito intensas: “Estas histórias vão entrar no espaço do utilizador. Aliás, o corpo do utilizador torna-se parte dessa história. Será uma experiência visceral e emocionante, mais intensa que a vivida com o cinema ou a literatura.” Mas também aqui será necessária moderação: “esta tecnologia tem o poder de criar experiências apelativas e emocionantes que irão ajudar o utilizador a criar empatia com uma personagem real ou fictícia. A capacidade de partilhar uma perspectiva é algo que se torna possível, mas acho que é muito importante pensar na interacção entre a empatia e o utilizador. Não queremos saturar o utilizador. Temos de perceber quando é que a realidade aumentada é relevante e como é que esta melhora a experiência.”

A ideia da realidade aumentada é antiga. Há décadas que cientistas e autores de ficção científica antecipam um mundo em que toda a informação flui livremente e está acessível no espaço envolvente. Para que se esteja agora a tornar uma realidade, foi necessária a conjugação de três factores: o poder de processamento computacional que todos temos nos smartphones, a evolução das tecnologias de comunicação e a ligação em rede de todos os equipamentos em constante partilha de dados.

O cumprimento da promessa de facilitar a vida dos cidadãos será essencial para que a tecnologia se popularize. Mas outras questões se erguem no que toca à sua adesão. A crescente digitalização da sociedade provoca questões difíceis de responder relacionadas com a privacidade, os direitos e os deveres de cidadania. Serão problemas que também terão de ser acautelados, de forma a que se possam confirmar as virtudes da realidade aumentada.