Sebastião Ferreira de Almeida
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Sebastião Ferreira de Almeida

Megafone

O doce Verão sueco

A produtividade sueca é reconhecidamente elevada, mas — pasme-se — não está assente sobre uma política de empobrecimento da mão-de-obra.

Das viagens aos extremos aprendemos sempre lições. Já escrevi no P3 sobre a Índia, um dos países mais populosos e desiguais do mundo, e agora escrevo sobre a Suécia, um dos países menos populosos e desiguais do mundo.

Na crónica sobre a Índia escolhi uma imagem de um homem transportando um enorme carregamento de tubos, numa bicicleta, no meio do transito caótico de Nova Deli, uma visão de um país que parece estar em permanente dissolução. Nesta crónica escolhi uma imagem de Hono Klava, uma ilha sueca onde tudo parece ter-se imobilizado no lugar certo, as bicicletas pacificamente estacionadas junto à praia, um papagaio, uma sauna, um mar imenso, resumindo um ambiente idílico bafejado por um Verão anormalmente quente, que parece este ano ter-se ausentado de Portugal.

Acredito, como dizia José Saramago, que chegamos sempre ao sítio onde nos esperam, ou melhor, que os lugares a que chegamos dialogam entre si para constituir o nosso lugar no mundo.

Curiosamente, as razões da minha ida a Gotemburgo foram a participação numa conferência organizada pela Association of European Schools of Planning (AESOP) cujo mote era “Making Space for Hope”. Duas questões povoaram a minha viagem; como construímos espaços de esperança? Quais as razões pelas quais a Suécia é vista como um exemplo a nível mundial?

Comecemos pelas pessoas. Nas ruas (ainda) calmas de Gotemburgo, os suecos estão felizes e descontraídos, metem conversa, deitam-se nos parques, fazem exercício físico, juntam-se aos amigos nas esplanadas. A cidade não entrou em guerra pela competição turística e, por este motivo, não está atulhada de tuk-tuk, o trânsito não é caótico, os transportes funcionam e não existem multidões. Apercebemo-nos, contudo, que não deixa de ser uma cidade global, é habitada por migrantes que nela vivem e trabalham.

Só entre 2010 e 2016, a cidade acolheu 13.000 refugiados, sendo-lhe reconhecidas as boas práticas de integração pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Mas isto é só a parte visível e imediatista que temos de um lugar ou de um país, aquilo que realmente importa é a sua infra-estrutura invisível (cultural, social, económica e política).

Vamos a factos: a Suécia é um dos países onde o estado social tem mais peso, alguns suecos descontam mais de metade do seu salário em impostos e, ao contrário dos portugueses, gabam-se disso. E gabam-se porque estes se traduzem na provisão de bens colectivos, de alta qualidade, praticamente gratuitos.

No ranking dos indicadores sobre desenvolvimento humano (Nações Unidas), é um dos países de primeira linha com excelentes valores no que concerne à esperança média de vida, educação, igualdade entre géneros, emprego, segurança, sustentabilidade ambiental, corrupção, entre muitos outros.

Relativamente à economia sueca, esta é altamente sofisticada e baseada na exportação de produtos industriais ou de serviços de comunicação e tecnologia. Exemplos disso são a Volvo, a Ericsson, Ikea, marcas que identificamos bem. A produtividade sueca é reconhecidamente elevada, mas — pasme-se — não está assente sobre uma política de empobrecimento da mão-de-obra ou, dito de outra forma, num modelo assente nas baixas qualificações ou na redução dos salários dos trabalhadores.

Sendo um dos últimos redutos europeus em que as forças de mercado ainda não desestabilizaram por completo o estado social, encontra-se hoje (também) sobre a mira de uma agenda neoliberal que pretende culpabilizar uma relativa estagnação da economia sueca, em função do peso do seu estado; contudo, o país continua a ser o 12.º com maior PIB per capita do mundo (FMI). Afinal existem histórias que estão a ser mal contadas (fake stories?).

Maior estado e maior regulação do mercado não significam piores serviços, uma economia mais fraca ou piores de condições de vida. De volta a Lisboa, as ruas estão cheias de turistas fascinados, mas não o vejo como sinal de uma internacionalização ou modernização da cidade ou do país, vejo antes como um sintoma de vulnerabilidade extrema, vejo-o como via os vendedores sedentos das ruas de Nova Deli.

A nossa democracia é ainda infantil, o nosso estado é pouco robusto, pouco ambicioso e povoado de interesses, a nossa economia débil. A entrada na Europa e a adopção do Euro não significou a diminuição das disparidades entre os seus países membros e em Portugal não conduziu a investimentos estruturantes, antes pelo contrário. Num mundo em profunda desestabilização, onde o populismo semeou raízes na progressiva expansão de espaços de desespero, causados por um mercado sem regras, devemos olhar tanto para este magnífico Verão sueco como para as ruas de Nova Deli, como para as nossas ruas de Lisboa (cada vez mais desertas de habitantes) e tentar perceber a que lugar queremos afinal chegar e que infra-estrutura nos falta para o atingirmos.