“Uma ponte com um nível técnico e uma elegância estética incríveis”

Filipe Raposo, pianista, compositor e arranjador, tem como um dos discos da sua vida um álbum de Tigran Hamasyan, pianista arménio que influenciou o rumo da sua carreira.

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Filipe Raposo ao piano, num ensaio RUI GAUDÊNCIO

Um pianista, que é compositor, a indicar outro pianista, também compositor, não é coisa que se estranhe, quando se trata de escolher um disco marcante na sua vida. Mas Filipe Raposo escolheu não só um disco recente (lançado este ano) como gravado por um pianista e compositor da sua geração mas oito anos mais novo do que ele. Filipe nasceu em 1979, em Lisboa, e Tigran Hamasyan nasceu em Gyumri, na Arménia, em 1987. Estranho? Nem por isso, explica Filipe: “O disco chama-se For Gyumri, que é a cidade natal dele. O que mais me atrai na música do Tigran tem a ver como seu lado ecléctico. Tendo uma formação clássica, na juventude, mais tarde foi para os Estados Unidos, para Nova Iorque, estudar jazz, mas sem nunca perder aquilo que eu considero transversal nestas duas músicas: uma raiz tradicional, um respirar que é dele e de mais ninguém. Quando ele toca o seu instrumento, o piano, traz sempre com ele essa linguagem ligada à música tradicional arménia.” Mas porquê o disco mais recente, quando ele tem vários já gravados? “O primeiro disco que eu conheço dele chama-se A Fable [2011], e é um disco marcante, porque ainda não tinha ouvido ninguém que fizesse esta ponte de uma forma tão verdadeira, tão honesta, abordando as suas tradições com um nível técnico e uma elegância estética incríveis. Entretanto ele fez outros discos. Há um também muito interessante que é o Luys i Luso [2015], com um coro arménio, onde aborda a temática dos hinos da igreja ortodoxa e das canções tradicionais, trazendo esse universo para uma abordagem contemporânea. E tem discos com banda, onde faz uma mistura meio hip hop com heavy metal, com ritmos e compassos bastante arrojados. Este, For Gyumri, é um disco onde ele volta ao piano solo, à simplicidade que mais me atrai nele e onde traz de novo o seu lado mais ecléctico para o piano. É um álbum curto, com cinco temas [tem 29 minutos], mas que se ouve com a maior das satisfações.”

Um incentivo, uma rota

Filipe Raposo, que tem tocado e colaborado com alguns dos grandes nomes da música portuguesa (Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias, Amélia Muge, Camané, Janita Salomé, Vitorino, Carminho, Ricardo Ribeiro) e colaborado com várias orquestras europeias, como pianista e orquestrador,  está a musicar alguns títulos do cinema mudo português em colaboração com a Cinemateca. Primeiro tocando ao vivo nas apresentações em sala (“O cinema é, para mim, uma paixão paralela à música”, diz Filipe), depois gravando as músicas que compôs para as respectivas edições em DVD, o que já sucedeu com Lisboa, Crónica Anedótica (Leitão de Barros, 1930) e com O Táxi n.º 9297 (Reinaldo Ferreira, o Repórter X, 1927), editados em DVD em 2017 e 2018, respectivamente. Com três discos gravados em nome próprio, First Falls (2011), A Hundred Silent Ways (2013) e Inquiétude (2015), prepara a edição em disco de um concerto que gravou com a cantora Rita Maria na capital da Noruega, Live In Oslo. “É um disco que inicia esta nossa parceria, que a meu ver será uma parceria produtiva em termos de criação. Ela tem características vocais que me atraem muito, mais dentro da música improvisada, sobretudo a capacidade de ser uma ‘instrumentista’ vocal. A ideia é fazer um ciclo de discos a que chamaremos The Art of Song, com vários volumes. Por exemplo: dez canções barrocas e um fado; ou dez fados e um standard ou uma morna.”

Voltando a Tigran Hamasyan: “Se existisse uma editora que nos representasse, iríamos estar no mesmo catálogo. E temos gramáticas muito fortes: a portuguesa e a arménia. Conheci-o antes de gravar o meu primeiro disco e ele de certa forma encorajou-me a seguir esta minha gramática, assente nos mesmos três pilares em que assenta a dele: a clássica, o jazz e a música de raiz tradicional. E isto, para mim, foi muito importante.”