Reportagem

“Os vizinhos estão retirados. Se eu berrar, não ouvem”

Câmara de Amarante criou Serviço Municipal de Apoio ao Idoso que combina teleassistência com acompanhamento psicossocial. Primeira de uma série de reportagens sobre estratégias para envelhecer em casa.

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Ana Augusta Teixeira Ricardo, 74 anos, mora com a filha mais velha, Ana Paula, de 48, desde que o marido morreu PAULO PIMENTA
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Se Ilda Teixeira Mendes não tivesse acesso a um serviço de teleassistência, sentir-se-ia “ainda mais sozinha”. “Os vizinhos estão retirados. Se eu berrar, não ouvem.” Nem sequer o primo e a mulher que vivem mais perto. “São pessoas de 80 anos. Ela é um bocadinho surda. Ele ouve melhor, mas vai muita vez ao café. E ela fica sozinha a ver televisão. Se eu quiser falar com alguém, carrego no botão.”

A solidão é um assunto sério. Ilda interrompe o tricot, que está a fazer com restos de linhas e que se amontoam no centro de dia da Associação Emília Conceição Babo, em Vila Meã. “Isto pode esperar”. Sai do salão de convívio – imaculada com imagens de Nossa Senhora de Fátima, Santo António e Santo Onofre e animada pelo ecrã de televisão – e vai até a uma salinha de actividades.

Anda devagar. “Tenho um corte de costelas”, vai explicando. “A minha mãe gerou duas crianças. A outra secou. Ficou um bocado de couro cabeludo agarrado ao meu pulmão. Conforme eu ia crescendo, aquilo ia crescendo também. Tiveram de tirar. Tinha seis anos. Disseram à minha mãe que eu não podia levar murros nas costas, mas ela deu-me tudo e mais alguma coisa.”

O que a memória guarda para sempre pode vir ao de cima a qualquer momento. Vai-se a Amarante à procura de utentes de um novíssimo Serviço Municipal de Apoio ao Idoso e soltam-se histórias de violência familiar que contribuíram para o isolamento de alguns, como Ilda.

Ilda segura no botão de teleassistência incorporado na pulseira branca que traz no pulso. “Isto faz-me sentir menos sozinha. Nos primeiros 15 dias ligava todos os dias antes de vir para cá e quando voltava a casa para dar os bons dias e dizer que estava tudo bem. Agora, já ligo menos.”

Não há muito que a ocupe lá em casa. Faz a cama. Lava uma roupinha. Dá uma limpadela. A leitura não a puxa. Só fez a terceira classe. “Fiquei em casa. A minha mãe pôs-me na cozinha a trabalhar e dava-me coça de meia-noite. Bastava virar um bocadinho de água. A gente ia à bomba buscar água. Levava o balde cheio. Ela dizia: ‘Quem não poupa na água e na lenha não poupa em nada que tenha.’”

Eram seis crianças, contando com ela. À tarde, sentavam-se a comer sopas de cavalo cansado, isto é, ensopado de pão e vinho. Amiúde, pareciam cães e gatos. Ilda só queria sair dali. Ainda trabalhou como empregada doméstica interna. A falta de saúde fê-la tornar a casa. “Quando fiquei manca, a minha mãe fez jura de nunca mais me bater, mas ainda me pôs uma foice em cima da cabeça.”

Nunca se casou. A mãe encontrava defeitos em todos os pretendentes. Numa altura, apareceu-lhe um rapaz com miopia. A mãe torceu o nariz: “Não pode ir à lenha de noite.” Noutra, apareceu-lhe um rapaz “bonito”. A mãe tornou a torcer o nariz: “Pois é, mas tem os ombros descidos!” Outra vez, apareceu-lhe um rapaz “muito bem vestido”. Ilda ficou encantada. Ainda disso: “Ele tem é o nariz um bocadinho assapado”. E retorquiu a mãe: “E o rabo arrebitado!”

Foi ficando em casa. “Ao primeiro ainda ia a Fátima e assim. A partir do momento em que os meus pais começaram a piorar, já não saía de casa a não ser para ir à missa, ao médico ou buscar medicamentos. Aproveitava e fazia umas compritas.” Foi-se desligando do resto do mundo. “Eu não podia nem falar com os vizinhos. A minha mãe pensava que era a falar dela e fazia-me a vida negra.”

Quando a mãe morreu, Ilda estava exausta. E deprimidíssima. “Só queria morrer, mas, como sou religiosa, não me queria matar. Foram muitos anos… Eu sabia tão bem fazer de comer e já não atinava a fazer de comer. Foi por isso que aceitei que me levassem comida. Depois vim para aqui.”

Daniel Queirós, o director técnico da Associação Emília Conceição Babo, é que a convenceu a sair daquele estado. O pai passou a viver com uma família de acolhimento. E Ilda passou a frequentar o centro de dia, que garante transporte, alimentação, actividades, acompanhamento a consultas, tratamento de roupas, serviço de enfermagem e, se for preciso, administração de medicamentos, massagem terapêutica ou de relaxamento. Foi há três anos. Ela contava 61.

“Sinto-me feliz”, afiança Ilda, antes de voltar ao minucioso tricot que há-de dar origem a uma tira que cobrirá parte de um tronco de árvore. “É só não ter uma casa linda e nova. De resto, nada me falta.”

Pelas estimativas do Instituto Nacional de Estatística, Amarante tinha, em 2017, 137 idosos por cada 100 jovens. Estava bem acima da média da região de Tâmega e Sousa (115,5), embora continuasse abaixo da média nacional (153,2). E isto, sublinha a vereadora da coesão social, Lucinda Fonseca, “obriga a repensar as políticas”.

“Começámos a envolver os parceiros para perceber que respostas acham que seria necessário criar”, diz a vereadora. “Temos uma rede forte, dinâmica, bem dividida pelo concelho, com centros de dia, apoio domiciliário e outros serviços. Fazem parte da Rede Social. Trabalham o eixo do envelhecimento.” O Serviço Municipal de Apoio ao Idoso nasceu de uma proposta desse grupo de trabalho. “O objectivo, que é partilhado por todos, é manter as pessoas no seu meio natural durante o máximo de tempo possível, portanto, retardar a institucionalização. É preciso dar-lhes condições.”

Técnicas da Divisão de Desenvolvimento e Coesão Social avaliam qualquer candidato. Atendem aos seus rendimentos e às suas despesas. Se o valor que sobrar for inferior à pensão social, que são 207,61 euros, o idoso terá direito a teleassistência gratuita. É uma ajuda, porque os outros interessados terão de contratar o serviço directamente, o que implica pagar 30 euros pela instalação, 19,95 euros por mês pelo terminal fixo ou 23,95 pelo móvel.

Entendendo que esta é uma forma de as pessoas se sentirem seguras e acompanhadas, a União de Misericórdias Portuguesas defende há anos que devia fazer parte do pacote de serviço de apoio domiciliário comparticipado pelo Estado. O Instituto de Segurança Social nunca acatou tal ideia. 

Os utilizadores têm acesso a um equipamento, com um botão de alarme. E esse equipamento está ligado a um call center que recebe os alertas e os encaminha. Neste caso, a teleassistência contempla uma resposta de emergência 24 horas por dia/ 365 dias por ano, uma “voz amiga” que ajuda a fintar a solidão, acesso directo a um técnico de saúde que alerta para a toma de medicamentos ou a data das consultas, assistência ao lar, isto é, uma ponte entre o idoso e quem pode reparar um autoclismo ou fazer outro pequeno arranjo.

O que distingue este de outros serviços que proliferam pelo país, além do custo ser suportado pela autarquia? "Está associado a um acompanhamento psicossocial", responde a vereadora. "Ao analisar o caso, as técnicas têm obrigação de pôr em cima da mesa outros serviços que se revelem apropriados." 

A técnica Sandra Liliana Teixeira dá um exemplo: “Tem uma pensão social por velhice e tem direito a um complemento solidário para idosos. Nós fazemos o requerimento.” Outro exemplo: “Precisa de uma cama articulada. Os produtos de apoio são uma resposta muito complicada na Segurança Social. Temos um balcão social, uma medida da autarquia em parceria com a Cruz Vermelha de Amarante. Vemos se há uma cama articulada disponível.”

O serviço – que vem na linha do que foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa já em 2012 – arrancou no ano passado. Houve que divulgá-lo e que vencer as resistências de quem via nele uma espécie de pré-inscrição num lar. Para já, nove idosos têm aparelhos instalados em casa e pulseiras nos pulsos. E três estão ali, na sala de convívio da Associação Emília Conceição Babo. Além de Ilda Teixeira Mendes, há Manuel Rebelo, de 85 anos, e Emília Augusta de Sousa, de 79.

Não é o vazio que parece quando se olha para a sala de convívio. Há até uma programação cultural. Emília ainda se ressente da ida ao teatro na véspera. “Mal posso andar”, diz ela. “Estive sentada muito tempo com os pés no ar. Os pés incharam muito. Não dormi toda a noite…” Tudo isso se dissipa quando fala no sobrinho. O rosto ilumina-se. “É muito, muito meu amigo.”

Começa a contar uma história de afecto imenso e, de repente, lá está o fio de violência. “Fui eu que o criei”, principia. “De pequenino, para onde eu ia, ele ia comigo. Aos 17, teve uma desavença com o pai e veio morar comigo. Ele estava a dormir e o pai estava pegado com a mãe e foi à beira dele com uma faca e disse: ‘Até tu andas metido com a tua mãe! Ele botou a mão na faca e deu-lhe um murro. E pegou na roupa e foi lá para minha casa. Coitadinho. Andava a começar a trabalhar.”

O sobrinho foi operado há pouco. Avisou-a: “Durante a semana não venho cá abaixo.” Se ela precisar de alguma coisa, carrega naquele botão, ligam-lhe e, em caso de necessidade, avisam logo o sobrinho ou a Associação Emília Conceição Babo ou os Bombeiros Voluntários de Vila Meã. Ele visita-a ao sábado e ao domingo. “Vem fazer comer e comer comigo. Traz a mulher e os dois filhos.”

O serviço não serve só para quem vive sozinho e passa os dias em casa, com apoio domiciliário todos os dias, ou no centro de dia, com apoio domiciliário ao fim-de-semana. Alguns vivem com familiares que trabalham. “Para que os cuidadores possam manter a sua actividade profissional, as suas vidas, têm de ter forma de salvaguardar as condições de segurança”, realça a vereadora.

Ana Augusta Teixeira Ricardo conta 74 anos e mora com a filha mais velha, Ana Paula, de 48, desde que o marido morreu, já lá vão oito meses. “Foi um cancro. Foi um instante.” A filha trabalha a uns minutos dali, na Santa Casa da Misericórdia. Só que a mãe não consegue fazer um telefonema. Se cair ou lhe der uma dor, carrega no botão. “Assim fico mais descansada”, diz Ana Paula.

Passou os últimos 30 anos com uma saúde periclitante. Teve vários acidentes vasculares cerebrais e enfartes. E Paula valeu-lhe sempre. “Ela merece tudo”, garante com olhar ternurento. “Ela passou os bocadinhos dela. Ele bebia, chegava a casa e batia-lhe… Ele pediu perdão.…”

A mãe não gosta de se lembrar, mas não consegue esquecer: “Fui posta na rua de camisa da noite e grávida de sete meses! Cheguei a ir à guarda. Sou franca. Estava cheia. Os guardas disseram-me que não podiam fazer nada”, suspira. “Quando estava sóbrio pedia-me perdão. E eu perdoava.”

Foram tantos anos de desconfiança permanente e ocasional mau trato. Quando ela sofreu o primeiro AVC, aos 44 anos, ele amansou, mas só parou mesmo quando ela sofreu o segundo, aos 56. “O médico chamou-nos e disse que a minha mãe podia estar a falar connosco e ficar, que tínhamos de ter muito cuidado, que ela não se podia enervar”, recorda Ana Paula. “Ele ficou a pensar naquilo.”

Nos últimos anos, redimiu-se. “Ele dava-me o pequeno-almoço. Ele fazia o jantar. Ele fazia o almoço. Às vezes, andava mais aborrecido. Ia à churrasqueira buscar comer.” Tentava poupar a filha, que, assim, “só” tinha de trocar lençóis, fazer as limpezas mais profundas, correr com um e com o outro para o médico.

“Agora estou em paz com a minha filha e peço a Deus que lhe perdoe e lhe dê paz também, porque era o vinho”, suspira Ana Augusta. “Ele, sem vinho, não me fazia nada. Ele, sem vinho, era meu amigo. Ela pediu-me para pôr esta pulseirinha porque assim ela vai trabalhar mais descansada. Temos de nos unir uma a outra. Se eu precisar dela, eu carrego aqui.”