Na Madeira, o CDS não quer trocar uma maioria absoluta por outra

Dirigentes nacionais estiverem em peso na abertura do congresso do CDS madeirense, com críticas ao PSD, ao PS e avisos para os riscos de trocar uma maioria absoluta por outra.

O vice-presidente do CDS-PP, Adolfo Mesquita Nunes
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O vice-presidente do CDS-PP, Adolfo Mesquita Nunes Nuno Ferreira Santos

Na Madeira, tal como no resto do país, o CDS quer ser a primeira escolha e a verdadeira alternativa às políticas que têm sido seguidas.

Adolfo Mesquita Nunes abriu este sábado, no Funchal, o 17.º Congresso do CDS-Madeira, com críticas às “quatro décadas de poder absoluto” do PSD na região autónoma, e às políticas económicas do PS em Lisboa.

“Hoje no Governo da República, as empresas são perseguidas se têm lucro – não conheço como é possível que um país cresça com empresas a dar prejuízo –, a propriedade privada é atacada, é desvalorizada, é mitigada”, disse o vice-presidente centrista, defendendo a iniciativa privada como “modelo essencial” para o crescimento do trabalho, do esforço e do mérito. Por isso, acrescentou, o CDS quer a nível nacional ser a primeira escolha e alternativa ao socialismo que governa o país.

Falando na mesma sala onde em Fevereiro passado o PS-Madeira, em congresso, apontou para uma vitória nas eleições regionais do próximo ano, Mesquita Nunes, regionalizou o discurso. Primeiro, para elogiar antigos dirigentes do partido no arquipélago (José Manuel Rodrigues e António Lopes da Fonseca) pela difícil tarefa de acreditarem na política, num lugar onde a política “parecia estar reservada” a quem tinha um cartão cor de laranja. Depois, para deixar um alerta para os riscos de trocar uma maioria absoluta do PSD, por outra do PS.

“Se acham, na Madeira, que o Partido Socialista pode ser uma alternativa, devem perguntar ao Artur Lima [líder do CDS-Açores] o que aconteceu quando o Partido Socialista ganhou com maioria a seguir às maiorias absolutas do PSD”, continuou o vice-presidente centrista, dizendo: “Vinham com tanta fome, com tanta vontade que ocuparam o poder absolutamente para não mais o largarem”.

"Só mudam os rostos”

O poder absoluto, argumentou, não é recomendável na Madeira ou em outro lugar. Por isso, o CDS assume-se como alternativa e quer estar “no centro da decisão” em 2019. “Aqueles que acham que a alternativa ao poder absoluto é outro poder absoluto, enganam-se. Só mudam os rostos”, vincou, antes de distanciar o partido da forma como os social-democratas têm governado o arquipélago nos últimos quarenta anos.

“O CDS olha para as pessoas e olha para as famílias por aquilo que elas valem, por aquilo que elas são, e não se têm ou não têm cartão do PSD para poder aceder aos lugares públicos” afirmou, insistindo: “Para nós criar emprego, não é dar lugar às pessoas nos gabinetes regionais, nem nas secretarias regionais, nem nas empresas públicas regionais. Para nós criar emprego e gerar dinheiro, é pôr o sector privado a trabalhar.”

Mais político, Nuno Magalhães interveio na sessão de abertura, não como líder do grupo parlamentar em São Bento, mas como “deputado padrinho da Madeira”. Um cargo que ocupa com gosto, mas que não será necessário após 2019. “O CDS vai voltar a eleger um deputado pela Madeira”, afirmou, deixando críticas à direita e à esquerda. Para o PSD-Madeira, disse que são necessárias políticas “mais para as pessoas, e menos para o betão”. Para os socialistas, falou dos “falsos profetas” que foi preciso ir buscar fora do partido, numa referência a Paulo Cafôfo, o autarca independente do Funchal, que será o cabeça de lista do PS à presidência do governo madeirense.

“Cuidado com o poder absoluto, mas também cuidado com os falsos profetas, cuidado com os falsos salvadores, cuidado com aqueles que se dizem independentes, aqueles que dizem que têm muito poder em Lisboa, mas depois quando Lisboa fala amocham”, disse Nuno Magalhães, acrescentando que ao contrário do PS-Madeira, o CDS não precisa de procurar soluções fora do partido. “Temos quadros preparados cá dentro”, garantiu, antes de Artur Lima, pegar nas palavras de Adolfo Mesquita Nunes para “avisar” os congressistas.

“Nós festejamos a derrota do PSD [nos Açores], mas saímos de uma maioria absoluta para uma maioria absolutista”, disse o líder dos centristas açorianos, defendendo uma nova forma da República olhar para as regiões autónomas. Primeiro, por via da possibilidade de existirem partidos regionais. Depois, através da gestão partilhada do mar – “80% da Zona Económica Exclusiva portuguesa é mar dos Açores e da Madeira” –, e por último criando um círculo próprio para Ponta Delgada e outro para o Funchal, para as eleições ao Parlamento Europeu.

Num congresso em que Rui Barreto, antigo deputado em São Bento e actual líder parlamentar do CDS na Madeira é o único candidato à liderança, coube ao secretário-geral Nuno Magalhães encerrar a sessão de abertura. Fê-lo com elogios a Barreto e com a certeza de que em 2019 o partido vai alcançar um resultado histórico no Funchal e recuperar o lugar na Assembleia da República.

O primeiro dia da reunião magna centrista, que encerra este domingo com a presença de Assunção Cristas, ficou marcada por alterações estatutárias que separam a presidência do partido da presidência da comissão política. Um modelo semelhante ao que existe no PS, em que a presidente do partido terá um carácter mais institucional, cabendo à liderança da comissão política um papel mais executivo. José Manuel Rodrigues, o histórico líder que levou o CDS a ser a segunda força política mais votada da região em 2011 e 2015, é o nome indicado por Barreto para a presidência do partido.