De comboio em Bombaim

O leitor Pedro Mota Curto partilha a sua experiência na Índia.

Basílica, Chhatrapati Shivaji Terminus, Idade Média
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O comboio seguia de norte para sul, em direcção à estação ferroviária, hoje denominada Chhatrapati Shivaji Terminus, situada no centro de Bombaim. Este terminal ferroviário, antigamente conhecido como Victoria Terminus, foi construído pelos ingleses em 1887, sendo o maior edifício que edificaram em todo o continente indiano. Apesar do nome actual, em homenagem a um famoso guerreiro indiano, a maioria dos locais considera mais prático apelidar a estação ferroviária de “VT”.

A estação ferroviária é colossal, com milhares de pessoas em permanente movimentação e um número incalculável de comboios sempre a chegar e a partir. Aqui termina a linha de comboios mais movimentada do mundo, que acolhe três milhões de passageiros por dia, transportados em mil comboios.

Durante as horas de maior tráfego, ou seja, quase sempre, a ocupação dos comboios é o triplo da lotação, sendo que uma parte dos passageiros viaja do lado exterior. Habitualmente, apenas entre as 11h e as 15h30 este meio de transporte oferece algum conforto, incluindo ventoinhas permanentemente ligadas e portas e janelas sempre abertas.

Existem carruagens para homens e carruagens para mulheres. No entanto, nas carruagens destinadas ao sexo masculino também é permitida a presença de senhoras. O seu número era reduzido e estavam acompanhadas pelos respectivos maridos.

Viajámos em segunda classe. Pela forma como éramos observados, não deve ser comum a presença de europeus. As pessoas eram afáveis e até procuravam estabelecer algum diálogo.

Portugueses? Eu estudei num colégio num bairro de origem portuguesa denominado Mazagon (corruptela da palavra Mazagão), afirmava simpaticamente o meu colega indiano de viagem.

O sultão do Gujarate cedeu a ilha de Bombaim aos portugueses em 1534. Situada na costa ocidental da Índia, esta ilha possuía uma bela baía para os marinheiros desembarcarem das suas naus. A palavra Bombaim deriva da corruptela da expressão portuguesa “Boa Baía”. Nesta aprazível baía, situa-se uma das principais praias da cidade, Chowpatty Beach.

A escassa distância desta praia situa-se outro antigo bairro português, Kotachi Wadi, onde encontrámos vestígios de calçada portuguesa, arquitectura de traça portuguesa e alguns nomes indianos, redigidos em placas, à entrada das casas, que terminavam em “Silva” ou “Cardoso”. Situação recorrente noutras zonas costeiras desta megalópole, que desde 1996 se denomina Mumbai (nome de uma deusa local).

Um pouco mais a norte, situa-se a praia frequentada pela classe média-alta, a praia Juhu. Aqui existem muitos restaurantes que servem uma variedade de iguarias indianas. Claro que entre Junho e Setembro não é altura para ir à praia, pois estamos em plena época das monções. Chuvas torrenciais, trovoadas, humidade, temperatura média de 30 graus, mar muito agitado e muito lixo, ao sabor das ondas capturadas pelas agruras da monção.

Entretanto, entre conversas e reflexões, chegámos ao destino, Chhatrapati Shivaji Terminus. O edifício é de tal forma imponente que torna difícil a sua descrição, numa simbiose entre um palácio de grandes proporções e uma catedral imensa, numa mistura de estilos ocidentais e orientais.

Deparando-se com esta mesma dificuldade de classificação, James Cameron, um jornalista inglês, descreveu o estilo arquitectónico deste monumento como sendo “Victorian-Gothic-Saracenic-Italianate-Oriental-St Pancras-Baroque”.

Pedro Mota Curto