Ryanair cancela um quarto dos voos em Portugal nos dias da greve

Autoridade para as Condições de Trabalho tem uma inspecção em curso à actuação da empresa pela forma como pressiona os seus trabalhadores. Desta vez, a empresa enviou um inquérito aos tripulantes para saber antecipadamente quem tenciona aderir à paralisação.

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Reuters/Stefano Rellandini

Uma semana antes de arrancar a greve de dois dias que os tripulantes de cabine da Ryanair têm marcada para a quarta e quinta-feira (dias 25 e 26 de Julho) a companhia irlandesa de baixo custo (low cost) confirmou já ter contactado cerca de 90% dos mais de 50 mil clientes que têm viagens marcadas de e para Portugal. São clientes a quem foi dada a possibilidade de solicitar o reembolso dos seus voos ou efectuar uma reagendamento.

Fonte oficial da Ryanair explica que se houver passageiros que não foram contactados e que têm voos marcados para esse dia, poderão comparecer normalmente no aeroporto à hora programada do embarque, porque o seu voo não será cancelado.

Trata-se de uma greve convocada em quatro países - Portugal, Itália, Bélgica e Espanha, onde a iniciativa mereceu que o governo decretasse a realização de serviços mínimos. Em Portugal essa possibilidade não foi equacionada, confirmou o PÚBLICO junto de fonte do Ministério do Planeamento e Infraestruturas.

De acordo com a informação disponibilizada pela Ryanair, que “para se precaver” optou por lançar um inquérito interno junto dos trabalhadores para perceber quem é que pretendia aderir à paralisação, vão ser cancelados até 50 dos mais de 180 voos diários que a low cost opera em Portugal, o que se traduz numa taxa de incidência de 27%. A taxa de cancelamentos na Bélgica será um pouco superior, de 31%, mas porque realiza menos voos diariamente. No caso de Espanha, que é, dos países afectados, onde a low cost opera mais voos (mais de 830 por dia), deverão ser cancelados até 200 voos. Em Itália, a greve é só no primeiro dia.

Usando a linguagem a que já habituou os trabalhadores e os clientes, os responsáveis da Ryanair continuam a apelidar esta greve de “incompreensível” e “desnecessária”, divulgando junto da opinião publica que os tripulantes de cabine “auferem salários excelentes” (até 40 mil euros por ano, em países onde existe um índice de desemprego jovem, alegam), que têm “horários líderes de indústria”, com 14 dias de folga por mês, “óptimas comissões por vendas, subsídio de uniforme e baixa de doença paga”. “Estas greves são completamente injustificadas e apenas resultarão em perturbações a férias de famílias, beneficiando as companhias aéreas concorrentes”, refere Kenny Jacobs, da Ryanair, em comunicado.

Este tipo de “pressão” da Ryanair sobre a opinião pública e sobre os próprios tripulantes tem vindo a merecer várias manifestações de desagrado por parte dos dirigentes sindicais, mas também junto das autoridades. No passado mês de Abril, e na sequência de uma greve organizada apenas pelos tripulantes em Portugal, a actuação da Ryanair levou a Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) a anunciar a realização de uma actividade inspectiva à companhia de aviação irlandesa, no sentido de averiguar a existência de irregularidades no direito à greve que deve ser dado aos tripulantes da empresa.

Inquérito aos trabalhadores

O PÚBLICO confirmou junto da ACT que essa inspecção ainda está em curso e foi informado que a actuação da empresa continua a se acompanhada de perto. Nesse sentido, a ACT não deixará de avaliar o facto de a companhia de aviação ter enviado um inquérito por via electrónica a todos os trabalhadores, no qual os questionava sobre se tinham ou não intenção de aderir à greve. Nesse inquérito online, os trabalhadores eram avisados que caso não respondessem iriam receber o mesmo inquérito de satisfação por e-mail. Nessa comunicação, os tripulantes eram incentivados a apresentarem-se ao trabalho, sendo informados que perderiam entre 260 a 480 euros no caso de aderirem à greve. “Quem aderir à greve não será pago e irá ainda perder o bónus de produtividade de Junho no valor de 150 euros”, avisa a Ryanair. 

Questionada pelo PÚBLICO acerca da intenção deste inquérito e quais os seus resultados, fonte oficial da empresa alegou que pode perguntar aos colaboradores “se estes pretendem trabalhar nos turnos que lhe foram atribuídos”, do mesmo modo que os trabalhadores podem decidir se respondem ou não.

“Temos o direito de procurar respostas (a questões razoáveis) dos nossos colaboradores. Ninguém pode ser, nem será, castigado ou vitimizado por aderir a uma greve, do mesmo modo que os sindicatos não podem ameaçar, intimidar e transmitir informação incorrecta a todos os que não desejam aderir à greve, pretendendo trabalhar conforme estava previsto”, argumentou a mesma fonte.