Opinião

Requiem

João Semedo era um senhor na política, um dos que admiro, não pelas suas convicções, mas pela forma convicta mas dialogante, de rupturas mas tolerante, com que defendia os seus pontos de vista e aquilo que acreditava ser o melhor caminho para todos.

Partiu um homem bom e bondoso... e desta vez não é dos que foram sempre consensuais, mas é consensual o reconhecimento da sua qualidade humana. Partiu um homem bom, mas de contrastes, de convicções e de ruturas, mas um homem simples e humilde, de pontes, de diálogo e de tolerância. Um político elegante, um cidadão dedicado, um homem bom e bondoso. 

João Semedo era um senhor na política, um dos que admiro, não pelas suas convicções, mas pela forma convicta mas dialogante, de rupturas mas tolerante, com que defendia os seus pontos de vista e aquilo que acreditava ser o melhor caminho para todos. Dos poucos que, independentemente da sua ideologia política, merecia a minha consideração e admiração. Portugal fica definitivamente mais pobre, o BE perde, provavelmente, uma das suas maiores referências do bom senso e da sensatez.

Era um humanista, médico de profissão, que defendia o direito à vida, inclusive o direito a decidir sobre ela. Tinha uma concepção particular da qual eu não partilho, mas defendeu com inteligência uma das causas mais fraturantes – a eutanásia. Poderia citar Sófocles quando afirmou que “o pior não é morrer, mas ter de desejar a morte e não conseguir obtê-la”, seria um argumento de peso, ainda mais legítimo quando o próprio lutou tenazmente e em sofrimento contra a doença que o levou, não seria de estranhar, portanto, que o defendesse para os demais, como desejava para si próprio. 

Prefiro, nesta pequena recordatória, destacar as palavras de Michel Montaigne: “a morte é de facto o fim, no entanto não é a finalidade da vida”. Resume melhor a admiração que tenho por João Semedo e que me leva a perpetuá-la nesta coluna de opinião. Partiu um homem bom e bondoso, que passou pela vida com elegância e dedicado não apenas ao seu caminho, mas ao de muitos, na profissão, na sua actividade política e no seu activismo cívico. Partiu um homem de contrastes, e que contrastava no seu estilo, elegância e inteligência com tanta mediocridade que por aí existe.

Das grandes batalhas políticas que travou, destaca-se a despenalização da eutanásia e a defesa do Serviço Nacional de Saúde. Mas foi a batalha pessoal que travou contra o cancro que o retirou da arena política. Soçobrou o corpo nesta luta, mas não a verticalidade do seu carácter. Abandonou a Assembleia da República em 2015, mas só em abril passado a Assembleia Municipal do Porto, cidade onde viveu e trabalhou 40 anos, por considerar que não existia, “a médio prazo, a possibilidade de retomada de representação pública”.

Partiu um homem bom e bondoso.

Descanse em Paz.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico