“Venham à ópera! Não ficarão desapontados”

A nova temporada do Teatro Nacional de São Carlos não conquistou ainda as dez produções líricas anuais idealizadas pelo seu director artístico, Patrick Dickie, mas dá mais um passo nesse sentido: ao todo, serão oito, com algumas novidades. A Orquestra Sinfónica Portuguesa comemora o 25.º aniversário com compositores portugueses; mais antigo é o Coro, que celebra 75 anos.

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Ekaterina Bakanova,Ekaterina Bakanova Bruno Simão,Bruno Simão
Patrick Dickie
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Patrick Dickie Enric Vives-Rubio
Teatro musical, teatro
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La Traviata Bruno Simão

A nova temporada do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) vai começar com um prolongamento da temporada 2017/18: a mesma produção de Pier Luigi Pizzi de La Traviata, de Verdi, que no mês de Junho esgotou o teatro de Lisboa, vai ter uma récita no Coliseu do Porto, a 20 de Outubro, contando igualmente com Ekaterina Bakanova no papel de Violetta. Isto porque o director artístico, Patrick Dickie, assume o S. Carlos como um teatro nacional e não um teatro de Lisboa. “É importante, para nós, tocar cada vez mais no Porto, pois o público da cidade tem fome de grand  opéra, e uma parceria com o São Carlos parece-nos ser um bom passo para desenvolver o género no Porto”, afirmou ao PÚBLICO.

Os grandes destaques da temporada 2018/19, que, uma vez mais, vai cruzar ópera, música sinfónica e música de câmara, recaem sobre o regresso de Graham Vick a Lisboa, o 25.º aniversário da Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP) e o 75.º aniversário do Coro do TNSC.

Embora Patrick Dickie afirme que as suas temporadas têm sempre novidades, observando o programa divulgado esta sexta-feira no site da instituição, não se prevê nada de muito inovador. Para começar, a única estreia absoluta da época lírica é da autoria de Nuno Côrte-Real, com libreto de Pedro Mexia e encenação de Ricardo Neves-Neves: A Canção do Bandido será levada à cena, no Teatro da Trindade, entre 8 e 18 de Novembro, com passagem por Torres Vedras a 20 do mesmo mês.

O momento mais arrojado será, talvez, já em 2019, uma nova produção de Alceste, de Gluck – que, “estranhamente, não foi apresentada no São Carlos nos últimos 60 anos”, nota o director artístico –, desta vez assinada pelo carismático encenador Graham Vick, com récitas entre 19 e 27 de Janeiro, sob a direcção do maestro Graeme Jenkins. Outro elemento altamente promissor é a participação da soprano Ana Quintans no papel-título.

Mas há ainda uma estreia nacional (com 140 anos de atraso!) que merece o destaque de Dickie: “Diria que a estreia portuguesa de L’Étoile, de Chabrier, dirigida por João Paulo Santos, com Eduarda Melo e Dora Rodrigues, é uma novidade. É uma opereta francesa recheada de música verdadeiramente encantadora e conta com um elenco português” (1 a 6 de Abril, no TNSC). A encenação caberá a James Bonas, que se estreou no São Carlos na temporada passada, com L’Enfant et les Sortilèges.

Antes dessa data, suscita alguma expectativa a nova produção de La Voix Humaine, de Poulenc, e de O Castelo do Barba Azul, de Bartók, com encenação de Olga Roriz, vídeo de João Pedro Fonseca e desenho de luz de Cristina Piedade, com direcção musical de Joana Carneiro e as vozes de Alexandra Deshorties, Allison Cook e Kostas Smoriginas. Será entre 6 e 10 de Março, no Centro Cultural de Belém (CCB).

Entretanto, o Coliseu do Porto será novamente palco para a música do TNSC, acolhendo, em versão de concerto, o terceiro acto da ópera Parsifal, de Wagner, a 12 de Abril, a três dias da sua apresentação em Lisboa.

Patrick Dickie convida também a ouvir Rossini: “Diria que a ópera semi-séria La Gazza Ladra, que apresentaremos em versão de concerto, não é interpretada com grande frequência e será especial para o nosso público de Lisboa”  (9 e 11 de Maio, no TNSC).

A única produção importada surge mesmo no final da temporada, com o Teatro Nacional da Croácia a materializar La  Bohème, de Puccini, com encenação de Arnaud Bernard, e com o Coro do TNSC e a OSP dirigidos pelo venezuelano Diego Matheuz.

Num outro registo, o foyer do São Carlos reserva espaço para a música de câmara, com ciclos de concertos de entrada livre protagonizados por músicos da OSP e agrupamentos convidados, em parceria com a Antena 2; enquanto o salão nobre será palco também para concertos de câmara em que a OSP acompanhará grandes solistas, como Bruno Borralhinho e Mark Simpson.

Sinfónica em festa

A programação sinfónica inicia-se um mês antes da temporada lírica. Num concerto de homenagem ao cônsul Aristides de Sousa Mendes (1885-1954), solistas, coro e orquestra dão vida a A child  of  our  time, de Michael Tippett, sob a direcção de Joana Carneiro (TNSC, 22 de Setembro). Não contando com uma colaboração com a Companhia Nacional de Bailado – que, no Natal, nos trará o Quebra-nozes sob a direcção do maestro Pedro Neves, com coreografia do turco Mehmet Balkan –, com os Dias Da Música no CCB e com a temporada lírica, a OSP apresenta 14 programas diferentes, seis deles na companhia do Coro do São Carlos.

Outubro será um mês para viajar e, além da visita ao Coliseu do Porto, a OSP passa pelas Caldas da Rainha (onde regressará em Fevereiro) com o pianista Simon Trpceski a interpretar dois concertos para piano de Brahms, sob a direcção de Joana Carneiro (dia 6).

Para assinalar o aniversário da Orquestra Sinfónica Portuguesa, foram realizadas três encomendas a compositores portugueses. A primeira coube a Luís Tinoco (n. 1969), e será estreada sob a direcção da maestrina titular, a 25 de Novembro, no CCB.

Compositor em residência no São Carlos desde 2016, onde é simultaneamente consultor para a música contemporânea, Tinoco colabora com Patrick Dickie e Joana Carneiro criando “novas oportunidades para compositores portugueses em diferentes fases das suas carreiras". "Procuramos certificar-nos de que não trabalhamos apenas com jovens compositores, nem apenas com consagrados. Temos também o compromisso de interpretar repertório português", diz o director artístico. "Luís Tinoco não trabalha apenas na mentoria de jovens compositores, mas também compõe para nós. Combinamos os compositores contemporâneos com os projectos em que os nossos públicos estão interessados”, acrescenta Dickie.

Os dois outros compositores convidados são Ana Seara (n. 1985), de quem será estreada em Fevereiro uma Sinfonia Concertante; e Carlos Azevedo (n. 1964), cuja obra será apresentada em data ainda a anunciar.

Fevereiro será o mês de maior actividade da temporada sinfónica. No âmbito de um outro aniversário – os 500 anos da Igreja do Loreto –, Marcos Magalhães dirigirá nesse templo o Coro do TNSC e a OSP na primeira audição moderna do Te Deum de Giuseppe Totti (dia 15), depois de um programa em que Joana Carneiro dirige obras de Giovanni Gabrieli e de Sofia Gubaidulina e A Sagração da Primavera, de Stravinsky (dia 9, nas Caldas da Rainha, e dia 10, no CCB).

A construção de um programa

Questionado sobre as linhas orientadoras que presidem à programação da nova temporada – que contará com oito óperas, das quais quatro serão novas produções –, Dickie não esconde a sua forma de trabalhar: “Não consigo seguir uma linha orientadora, no sentido de um único conceito orientador, porque o São Carlos tem muitos públicos diferentes. Olho para projectos individuais como oportunidades únicas. Queria trabalhar com o Graham Vick, queria trabalhar novamente com o CCB e a Joana Carneiro; O Castelo do Barba Azul é uma peça fantástica para uma orquestra sinfónica". E o director artístico do TNSC sintetiza: "A minha linha orientadora passa por fazer projectos individuais muito estimulantes para os públicos, esperando que isso resulte – às vezes, mesmo por acaso – num todo equilibrado.”

A ideia das dez produções anuais como número adequado a um teatro como o São Carlos mantém-se apenas no horizonte. “Perante o corte que sofremos nos dois anos anteriores, conseguimos a magia de manter o número de óperas e aumentar as receitas de bilheteira. Este ano fazemos oito produções, mas faremos um número ligeiramente inferior de récitas (28 em vez de 30). Mas continuarei sempre a dizer que dez é o número mágico. Com o orçamento de que disponho, tenho que ser tão criativo quanto possível. Na temporada seguinte, faremos muito mais ópera no Outono, no São Carlos”, promete Patrick Dickie.

Resumindo, Patrick Dickie descreve a sua proposta como “um programa misto, cheio de experiências incomuns". E acrescenta que gostaria que o público de Lisboa venha a assistir a, pelo menos, duas óperas na próxima temporada. "Não ficarão desapontados!”

A abertura da bilheteira para a próxima temporada acontecerá a 4 de Setembro, para assinaturas e concertos desse mês; e a 17, para ingressos avulsos. Até lá, ainda há muito tempo para escolher.