Reportagem

E o velho torna-se novo nas mãos de Alexandra Arnóbio e Susana Leite

Alexandra Arnóbio, historiadora, e Susana Leite, designer de produto, partilhavam uma paixão: peças em segunda mão. O projecto Era Uma Vez – Upcycling Projects pega em objectos em fim de vida e transforma-os em produtos com função e design diferentes.

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Há um carrinho de brincar que virou candeeiro, uma mesinha de cabeceira que se tornou numa cozinha de brincar e, até, caixas de vinho que se transformaram em mochilas trendy de design exclusivo. No atelier do projecto Era Uma Vez – Upcycling Projects, no Porto, nem tudo é o que parece e as possibilidades são infinitas. Alexandra Arnóbio e Susana Leite juntaram-se para dar nova vida a objectos usados, reaproveitando materiais e recursos para criar peças únicas com um valor superior àquele que tinham anteriormente, um processo chamado de upcycling. “Como designer de produto, olho para as coisas e não as vejo apenas como elas são”, começa por contar Susana Leite ao PÚBLICO. “Penso no que poderiam ser e no que posso fazer com elas”.

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Já Alexandra Arnóbio, formada em História, enquanto dona de uma loja de produtos em segunda mão, “já praticava o upcycling sem saber que o estava a fazer”. “Quando fazia alguma modificação ou electrificava uma peça, as pessoas achavam piada e compravam muito mais depressa”, recorda. Acabou por fechar o estabelecimento e trazer para o atelier em Miguel Bombarda, no Porto, as peças que, de outra forma, teriam acabado no lixo. “Queremos prolongar a vida dos objectos e dar-lhes um valor superior”, nota.

Nesse sentido, o upcycling diferencia-se do downcycling, lógica segundo a qual se transformam os produtos, diminuindo-lhes o valor, como “os livros que são utilizados para produzir papel higiénico”, segundo exemplifica Alexandra, ou mesmo “a reciclagem, que pressupõe que o produto é destruído e, para isso, gasta energia e larga combustão”.

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Aqui, a dinâmica é bem mais simples e amiga do ambiente. Alexandra e Susana pegam em velharias como objectos de decoração, móveis ou brinquedos obsoletos e, através do trabalho manual que vai da carpintaria à electrificação, criam novas peças de decoração como candeeiros, novos brinquedos e acessórios de moda. Na oficina do projecto, entre os materiais usados que aguardam uma segunda vida e as peças prontas a fazer parte de uma nova casa, Susana Leite electrifica um carrinho azul de brincar dos anos 1980. “Na era das tecnologias, as crianças já não ligam propriamente a estes brinquedos”, explica, notando que “esta peça era um brinquedo e agora é um candeeiro que pode decorar um quarto de menino”.

O processo reverso também se faz – há móveis que se tornam brinquedos, como a mesinha de cabeceira que é, agora, uma cozinha de brincar. Foi restaurada, envernizada e pintada e ficou com uma cortina no lugar da porta, onde se podem colocar os utensílios de cozinha em miniatura, além dos discos de fogão e da banca de fazer de conta.

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São, contudo, as mochilas feitas a partir de caixas de vinho que causam maior curiosidade. Alexandra Arnóbio e Susana Leite começaram por utilizá-las diariamente com a missão de testar a sua usabilidade, mas hoje não dispensam o acessório onde, segundo ambas, “cabe tudo”. “Noutro dia, uma senhora veio ter comigo e disse ‘Isso é uma caixa de vinho? Posso experimentar?’”, conta Alexandra Arnóbio. “E eu deixei-a testar, porque a primeira impressão que as pessoas têm é de que ela é pesada, mas depois verificam que não.”

Preservar a memória

As caixas de vinho, tal como boa parte dos materiais utilizados, são oferecidas. Tirada a parte de cima, é preciso serrar, limar, lixar e arredondar as pontas da caixa. Logo depois, esta é furada e cravada com tachas e argolas. “Nós fazemos a parte mais mecânica, mais dura, de martelo”, refere Susana Leite. Depois, os tecidos e as fitas de várias cores e padrões são recortados e enviados para a “dona Aurora, a costureira aqui do bairro que termina o trabalho”.

“Fazemos quase tudo a quatro mãos, mas há coisas que têm de ir para fora”, nota Alexandra Arnóbio. A economia circular é, aliás, um dos pilares do Era Uma Vez. “Estas coisas já estiveram à venda, saíram do mercado, foram adaptadas e voltam a entrar no mercado”, sublinha, ressalvando a importância do comércio local. “Quando precisamos de parafusos, cabos ou fios, fazemos questão de comprar nas lojas mais antigas da cidade.”

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As mochilas custam 90 euros e são o único artigo com um preço fixo, porque “variam pouco em termos de materiais”. Além da venda das peças criadas de raiz, os clientes podem levar uma peça ao atelier e pedir um orçamento. “Temos de ver a peça para perceber o que é que ela precisa e o que conseguimos fazer”, adianta Susana Leite.

“Se for uma cadeira que vire toalheiro, não precisamos de muito, mas se for para fazer um candeeiro, precisamos de mais material e gastamos mais horas à volta da peça”. Posteriormente, faz-se um modelo 3D “para que as pessoas visualizem como o objecto vai ficar na realidade”. Se as pessoas vierem com peças à oficina, “já trazem valor com elas”, e é possível criar um produto completamente diferente a partir de 30 a 40 euros.

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Além da consciência ecológica e responsabilidade social, o projecto quer impulsionar a preservação da memória dos objectos. Alexandra Arnóbio, historiadora, olha para as coisas e vê um passado que quer levar para o futuro. “A minha avó dizia que ‘mais vale comprar novo que mandar arranjar’, mas neste caso, não é comprar novo, é dar nova vida”, argumenta. “Estes objectos dão vida própria e identidade a uma casa e conseguem-se misturar com peças mais comuns, por exemplo, do Ikea”.

Depois de terminada, cada peça é acompanhada por um postal que mostra o antes e o depois, sempre com frases ilustrativas criadas por Alexandra (“Era uma vez uma mesinha que virou cozinha” ou “Era uma vez uma caixa de vinho que se pôs a caminho”). No futuro, a ideia é editar um livro infantil que já está a ser escrito, A História da Menina Up, que “ajude os mais pequenos a perceber que podem reaproveitar materiais”. Haverá, ainda, workshops de upcycling e uma oficina comunitária onde parte do valor da transformação de um produto irá reverter a favor de uma organização à escolha do cliente. Para já, os produtos Era Uma Vez podem ser encontrados em lojas do Porto como o Cru Cowork, o Mercado 48 e o Almada 13, entre outras.