Conhecer o Porto, um desenho de cada vez

Oito centenas de desenhadores urbanos tomaram conta da Ribeira do Porto num "Passeio de Desenho". É o encontro mundial do grupo Urban Sketchers, que decorre até sábado.

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Centenas de desenhadores urbanos vão ilustrar o Porto até dia 21 de Julho. Nelson Garrido

Alison é escocesa, mas vive na Alemanha. Chegou na madrugada desta quarta-feira ao Porto para o Simpósio Internacional do grupo Urban Sketchers. Mãe e contabilista, há dois anos encontrou no desenho uma forma de registar o que ia acontecendo na sua vida – e à sua volta. Alison é um dos 800 participantes do encontro mundial que decorre até sábado (21) na Alfândega do Porto.

“Posso desenhar no conforto de minha casa, mas adoro estar na rua e tornar-me parte da cidade.” Quem o diz é Liz Steel. Há 11 anos descobriu o Urban Sketching e deixou a arquitectura para ensinar esta forma de desenhar em workshops por todo o mundo e na internet. Numa mesa de café, num banco de jardim ou nos transportes públicos, desenho a desenho, os urban sketchers imortalizam as paisagens, os indivíduos e os pormenores do quotidiano nos seus diários gráficos - assim se chama o caderno onde figuram os seus esboços.

Os Urban Sketchers são um colectivo de autores que desenham as cidades onde vivem e os locais por onde viajam. Neste momento são mais de 120 mil pessoas no mundo que partilham esta paixão. Encontram-se regularmente para desenhar em grupo e estão associados em países de todo mundo.

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Para estes ilustradores, todo o lugar é lugar para desenhar. Nelson Garrido

Liz está em viagem há dois meses e acaba de conhecer Anya Toomre. Anya conheceu Gabriel Campanário, fundador do Urban Sketchers, no ano passado no Simpósio em Chicago. Apaixonou-se por esta técnica e já fez dois dos cursos online de Liz. “Ela não faz ideia de quem eu sou, talvez reconheça o meu nome”, confessa a americana. Liz participou em todos os encontros internacionais – já lá vão nove edições – e está habituada a ser abordada por rostos desconhecidos. Como tudo, primeiro estranha-se, depois entranha-se. “Uma das melhores partes é contactar com estas pessoas que me conhecem, sabem como o meu cérebro funciona e ouvem as parvoíces que digo nos vídeos”, revela a australiana, de sorriso no rosto e caderno na mão.

Numa década, Liz já preencheu 250 cadernos com rascunhos do seu dia-a-dia. Não diz aos alunos como ou que fazer – dá a cana (os conceitos) e ensina a pescar, o resto é com eles. Para a ex arquitecta, toda a gente pode tornar-se num desenhador urbano, é “como tocar piano”: uma questão de paciência e prática. Não se trata apenas de talento, é preciso aprender a olhar o mundo de uma forma diferente: “em vez de ver um edifício ou uma árvore, vemos formas e contornos”, explica.

Finalmente, dar uma cara ao nome

O feliz encontro de Liz e Anya não é único. Na verdade, o que mais se fez neste Sketchwalk ("Passeio de Desenho") desde o edifício da Alfândega até à ponte D. Luís I foi “dar caras aos nomes” que se conhecem da Internet. Nicola Doucedame tem 63 anos e quando perguntamos se estava a viajar sozinho respondeu “não, só com a minha esposa”. Mas nos poucos minutos em que conversamos, foram várias as pessoas que interromperam para dizer bonjour ao francês. “Conheço-os da internet, do Facebook”, justificou.

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A maior parte dos "urbans sketcher" prefere o papel e caneta aos suportes digitais. Nelson Garrido

Nicola é urban sketcher há cinco anos. Antes de se reformar era ilustrador e há uns anos abriu uma escola de arte para adultos, em Aix-en-Provence. Nesta técnica, procura surpresa. “Precisas de estar alerta e deixar-te levar pela surpresa do que está à tua volta, passar isso para o desenho”, afirma o francês enquanto dá os últimos retoques numa Serra do Pilar em aguarela.

Próximo de Nicola, está Scott Renk, que fundou o grupo de Urban Sketchers no estado da Carolina do Norte. No simpósio, quer “absorver o máximo que puder” do contacto com os outros participantes. “Está ao rubro”, afirma o americano. E está mesmo: olhe-se por onde se olhar, não há espaços vazios na Ribeira do Porto. Nos bancos, no chão, de pernas penduradas para o rio, nas escadas e nas esplanadas, centenas de pessoas a desenhar. Uma paisagem difícil de esquecer, ainda mais para quem a olha com atenção e a transpõe no papel.

Para Scott, desenhar é como escrever uma história. “Eu reduzo-o a três palavras: personagens, conflito e desenlace”, afirma, folheando as páginas do seu caderno.

Em Portugal já são mais de 200 "rabiscadores"

Das oito dezenas de participantes, duas vêm dos Estados Unidos e apenas 20% são portugueses. Filipe Almeida é engenheiro civil e descobriu o Urban Sketching Portugal (USkP) em 2012, através de uma amiga. “É tão simples como trazer um caderno e uma caneta, faz-se em qualquer lugar”, diz o lisboeta de 41 anos. Para Filipe, a inspiração encontra-se “cruzando esquinas e passeando na rua”, não dentro de quatro paredes.

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No evento estão presentes ilustradores de mais de 20 nacionalidades. Nelson Garrido

Luís Ferreira viu no voluntariado a oportunidade de participar no evento (o valor dos passes ia dos 120 aos 377 euros). “Comecei com o urban sketching porque achava que precisava de me soltar mais, tinha um estilo muito rigoroso e faltava-me expressividade”, conta o aluno da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Desenhar ao vivo obrigou o jovem a ser a “ser mais rápido e objectivo”, fundamentalmente para desenhar a figura humana.

Só agora Isa Silva começa a gostar de desenhar pessoas. É de Lisboa mas assina a Torre dos Clérigos inclinada que serve de logótipo ao Simpósio. Diz que a ideia surgiu imediatamente após ter lido o regulamento do concurso. “É o símbolo da cidade e transformei-o numa torre curiosa que se inclina para espreitar os desenhos”, explica a artista visual.

Há oito anos que Isa faz parte do grupo nacional de desenhadores urbanos, que conta já com mais de 200 “rabiscadores”, como lhes chama. Foi a liberdade do estilo que a atraiu para esta forma de fazer arte: “Não há regras como costumamos aprender na escola, aqui é precisamente o oposto.”

Quadrados, rectangulares, pequenos, grandes, horizontais ou verticais, a grande maioria prefere os blocos de desenho mas aos 72 anos Bob Laine prefere desenhar no tablet. “Quando desenhamos com caneta não podemos corrigir os erros, no iPad sim”, afirma. Em 2005, Bob teve um ataque cardíaco e deixou de trabalhar. Começou a pintar e chegou mesmo a vender vários quadros. Há dois anos participou no encontro internacional em Manchester e nunca mais parou.

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Os artistas imortalizaram a "cascata são joanina" nos seus blocos de desenho. Nelson Garrido

É impossível ter uma noção das vezes que o Cais de Gaia, a Serra do Pilar e a Ponte D. Luis I foram fotografados, mas é com certeza que se pode afirmar que nunca antes tantos olhares atentaram naquela parte da cidade do Porto enquanto as mãos desenhavam o que os olhos viam.

O Simpósio Internacional de Desenhadores Urbanos é organizado pelos USkP e pela delegação do Norte e decorre até dia 21 de Julho na Alfândega do Porto. As primeiras 600 vagas para inscrições esgotaram em meia hora e contam-se mais de duas dezenas de nacionalidades presentes no evento que junta profissionais e amadores na partilha de conhecimentos e no aperfeiçoamento de técnicas.

No total, vão ocorrer mais de uma centena de acções formativas, nomeadamente quatro workshops dirigidos por 36 instrutores e especialistas em várias áreas do desenho urbano, três dos quais são portugueses.

Texto editado por Ana Fernandes