Crítica

Três pérolas francesas

Renoir, Franju e Melville: a primeira parte do programa dedicado aos “Padrinhos da Nouvelle” no cinema francês do período entre 1930 e 1960 contempla três filmes que são estreias comerciais em Portugal. E são obras-primas.

Beijo beijos
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O Crime do Sr. Lange: um dos períodos mais inventivos de Renoir
M Preto, Fotografia
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Manhattan como uma “aventura estética” de Melville
Édith Scob, Olhos Sem Rosto, YouTube, Diretor De Filmes
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Um gótico delicadamente expressivo: Olhos sem Rosto

A primeira parte do programa dedicado aos “Padrinhos da Nouvelle” no cinema francês do período entre 1930 e 1960 contempla três filmes que são, tecnicamente, estreias comerciais em Portugal (o quarto, Madame De…, de Max Ophüls, chegou às salas portuguesas na sua época, anos 50).

O Crime do Sr. Lange, filme de Jean Renoir estreado em 1936, é fácil de perceber por que foi ignorado pela distribuição portuguesa da época: se Renoir foi, sobretudo, um espírito livre e anárquico a que não cola nenhuma espécie de linearidade política ou ideológica (e tanto que lhe chamaram “reaccionário” nos seus anos finais…), este filme vem direitinho do seu período mais politizado, sob os auspícios do governo da Frente Popular, e por vezes (como em La Vie est à Nous, do mesmo ano de 1936), em estreita colaboração com o Partido Comunista Francês. O filme responde inteiramente ao ar do seu tempo, na história das relações entre os funcionários de uma cooperativa editorial, onde o vilão é o ex-proprietário. As mudanças de registo narrativo, a espontaneidade dos actores, a invenção da mise en scène (esta segunda metade dos anos 30, que culminará na Regra do Jogo, é um dos períodos mais espantosamente inventivos da obra de Renoir), garantem que o filme – obra-prima – viva bem para além da sua época.

Outra estreia é Dois Homens em Manhattan, filme de Jean-Pierre Melville estreado em 1959, no mesmo ano em que os primeiros filmes da nouvelle vague “explodiam” em Cannes o próprio Melville tinha uma participação especial no elenco do Acossado de Godard. O “americanismo” de Melville, que era uma das razões por que a nouvelle vague gostava dele, tem aqui um dos seus momentos mais intensos, numa espécie de ante-câmara para a série de filmes de gangsters que o realizador assinaria ao longo dos anos 60 e princípio dos anos 70. Melville é ele próprio protagonista, na história de um dupla de jornalistas franceses (que se vestem e comportam como uma dupla de detectives de film noir) que investigam, em Manhattan, o desaparecimento de um representante da França nas Nações Unidas. A história não é a 100% um mcguffin à Hitchcock, mas o que conta verdadeiramente é o estilo, a pintura de ambientes, a descoberta de Manhattan nocturna enquanto “aventura estética” como talvez só um olhar estrangeiro pudesse, então, realizar. Magnífico.

Magnífico, enfim, é Olhos Sem Rosto, um dos filmes mais célebres de Georges Franju, espécie de irmão mais velho da nouvelle vague (e velho cúmplice de Henri Langlois, lendário director da Cinemateca Francesa), estreado já numa altura em que o movimento estava em pleno vapor (e por isso, de algum modo, confundido-se até com ele). Cinema fantástico, num ambiente feito dum gótico delicadamente expressivo, criou uma personagem que entrou para a iconografia futura (citada por Almodóvar em A Pele Onde eu Vivo, e sobretudo por Carax em Holy Motors): Christiane, a rapariga desfigurada, os “olhos sem rosto”, interpretada pela comoventíssima Edith Scob.

É uma tragédia, claro, uma tragédia da solidão mas também da libertação, com umas gotas da tradição folhetinesca à Feuillade, e outras gotas vindas directamente do surrealismo. Também é imperdível, evidentemente.