Opinião

João Semedo: o lugar da fala

O lugar da fala de João Semedo permanece, e prolongar-se-á como exemplo para todos, independentemente do lugar de onde falemos.

No portal oficial do Bloco de Esquerda, esquerda.net, há um vídeo de uma das últimas intervenções públicas de João Semedo, em defesa da dignidade até ao fim da vida e da despenalização da morte medicamente assistida. É um vídeo curto e duro de se ver, porque João Semedo já estava então sem cordas vocais e a voz que nele ouvimos não é a que dele conhecíamos. Mas é um vídeo necessário, porque representa o exemplo cimeiro de um percurso todo ele dedicado à causa pública e de uma vontade cívica levada até ao fim, ao último fôlego, aproveitando a vida inteira.

Uma vez viajei de carro com João Semedo, creio que vindo do Sul, mas já não estou certo. Não me lembro também de quem guiava. Sei que havendo tempo para falar de outras coisas que não política, e sendo eu naturalmente curioso sobre as circunstâncias de vida das pessoas — onde nasceram, de que terra vieram os pais, esse tipo de perguntas — lembrei-me de pedir a João Semedo que me contasse como tinha ido viver para o Porto. Ele sorriu com a pergunta, deve ter coçado a cabeça no seu gesto típico, e a resposta foi algo como: “o Partido precisava de gente no Porto” — o Partido era, então, o PCP — “e eu fui para o Porto”. Não havia na sua voz qualquer laivo de distanciamento em relação às razões dessa decisão, pelo contrário. João Semedo tornou-se profundamente um portuense e um homem que vivia a cidade do Porto. Ter ido para o Porto por militância partidária e cívica — uma coisa que hoje já não se faz e quase ninguém imaginaria fazer — era provavelmente para ele a melhor razão para se ter tornado portuense.

Isto disto com esta leveza talvez não faça justiça à vida difícil que a militância também é, mesmo em democracia. Só quem passou, por exemplo, por processos de afastamento e ruptura com partidos políticos sabe o que se sofre, íntima e pessoalmente, com as suas consequências. João Semedo sabia-o, porque passou também por eles. Tendo dedicado praticamente três décadas da sua vida ao PCP, e tendo visto sair camaradas de partido, viu chegar o momento dele próprio sair, já na viragem do século. Fez então parte do movimento Renovação Comunista, com Carlos Brito, Edgar Correia e tantos outros — muitos médicos, como ele próprio, Paulo Narciso e Cipriano Justo — e depois entrou no Bloco de Esquerda, convidado pelo Miguel Portas, com quem tinha muito em comum e também algumas diferenças temperamentais que iluminam e revelam a memória que tenho de um e do outro (mais próxima no caso do Miguel, mais ocasional no de João Semedo). No BE conheceu outras rupturas (algumas das quais vivi de perto também, como se sabe). São processos que, ora vergam, ora amesquinham, ora engrandecem quem por eles passa. No caso de João Semedo, deram-lhe uma dimensão maior.

Lembro-me de ouvir João Semedo falar na cerimónia de homenagem a Miguel Portas (porque, se não erro, o Miguel assim o decidiu). E o que me ficou na memória foi a maneira como João Semedo descreveu o que ele via como sendo a escolha política de Miguel Portas: “estar sempre, sempre, com os de baixo”. Sempre com os de baixo: com os que não são ricos, que não são poderosos, que não têm facilidade em aceder aos instrumentos da representação política. Essa é uma escolha com uma componente de missão e uma componente revolucionária.

Estar “sempre com os de baixo” significa dar a voz pelas causas “dos de baixo” até ao momento em que se perde a voz, e mais além. Estar no lugar da fala, que é o que faz da política uma forma de criar comunidade, até ao momento em que já não se tem fala, mas se continua a falar em nome da dignidade. Por tudo isso, o lugar da fala de João Semedo permanece, e prolongar-se-á como exemplo para todos, independentemente do lugar de onde falemos.