“Na esquerda e na direita encontramos homens bons”

Já doente, João Semedo subiu há dois anos as escadas do PÚBLICO e disse que encarava a vida como sempre. Com prazer, entusiasmo, activismo e com objectivos. Morreu nesta terça-feira, aos 67 anos.

João Semedo
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Havia lutas para muito tempo no calendário de João Semedo Paulo Pimenta

Não é por mera cortesia perante os caídos que de João Semedo (1951-2018) não se ouve um reparo dissonante no coro de elogios. Há admiração pela frontalidade, respeito pelo percurso e anotação da elegância no debate. Na memória de quem com ele privou e discutiu, militou e se confrontou, não existe espaço para maus momentos, porque todos eram marcados pela intensidade da convicção e o respeito pelo contrário. O médico, antigo coordenador do Bloco de Esquerda e defensor incondicional do serviço público de saúde morreu na manhã desta terça-feira, aos 67 anos, de cancro na laringe. O funeral sai esta quarta-feira da Cooperativa Árvore, onde esteve em câmara ardente, para o Cemitério do Prado do Repouso do Porto.

“Os políticos não são todos iguais, na esquerda e na direita encontram-se homens bons.” Esta reflexão ao PÚBLICO é de Fernando Sousa Marques, um dos integrantes do denominado Grupo dos Seis que, em 1987, com Vital Moreira, Dulce Maria, Veiga de Oliveira, Vítor Louro e Silva Graça, propôs mudanças no PCP que não foram seguidas pelo partido. Para Sousa Marques, Semedo era um desses raros homens bons.

Artur Torres Pereira, colega de curso em Medicina e que viria a ser dirigente do PSD com Marcelo Rebelo de Sousa na direcção partidária, é testemunha. “Fazia pontes entre as pessoas e as ideias, defendia as suas posições com um sorriso gaiato nos lábios, sempre com a preocupação de destruir barreiras, nunca se barricou, sempre acrescentou valor”, refere.

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Com os pais e a irmã em Lisboa DR

“Politicamente, eu e Semedo nunca trabalhámos juntos, mas tinha uma grande admiração política por ele, tínhamos muitas coisas em comum, era um homem com respeito pelos outros, com ética”, refere Sousa Marques. Menos de uma década depois do Grupo dos Seis, João Semedo integrou a Terceira Via, demitiu-se do Comité Central mas acreditou até 2003 que o PCP podia mudar por dentro. “Sou um sujeito paciente e pouco dado a precipitações, mas quem quer 'mudar o mundo' tem de encher-se de paciência”, disse ao PÚBLICO, em entrevista por escrito em Agosto de 2016.

“Quando estávamos no período de ruptura com o partido, tivemos uma relação de amizade e cumplicidade, o João era da minha camada, trabalhámos juntos durante anos e anos, somos daquela geração de quadros que faz a ligação do PCP da ilegalidade para a legalidade, muita inserida na sociedade e que levou o partido a ter uma grande influência”, recorda Domingos Lopes.

Viver na inquietação

Foram as cheias de 1967 que lançaram João Semedo, filho de um engenheiro comunista, para a militância. Como muitos jovens estudantes do liceu e da universidade daquela época, descobriu no caos da lama dos subúrbios um país de miséria às portas de Lisboa.

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O cartão de estudante de Medicina na Universidade de Lisboa DR

“Foi funcionário do PCP na clandestinidade, esteve preso”, lembra Carlos Brito, que o conheceu como quadro da União dos Estudantes Comunistas. “Conheci o João Semedo desde a infância, quando ele era um dos dirigentes do sector intelectual do PCP do Porto, e ficou sempre uma amizade muito forte”, revela Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, filho de Helena Medina e Edgar Correia, vultos da resistência antifascista.

“Ele achava que podia influenciar o partido, até que concluiu que por dentro era impossível”, diz Domingos Lopes sobre os esforços de Semedo no partido com paredes de vidro. “O João saiu mais cedo [do PCP] do que eu, vivia na inquietação porque era preciso fazer mais qualquer coisa, depois na decepção porque não era o que queria, mas tinha esperança, compreendia a importância da unidade de todas as esquerdas, era um homem com um percurso unitário”, destaca.

“Estivemos na Refundação Comunista, ele foi muito solidário comigo quando fui sancionado [pelo PCP], partilhou a nossa crítica e as propostas que fazíamos”, lembra Carlos Brito. “Um militante da esquerda activa, da esquerda que não se conforma, incansável, sempre preocupado, sempre buscando a convergência”, refere o antigo dirigente comunista.

“Do ponto de vista político foi sempre pela esquerda, por mais igualdade, mais justiça, mais progresso, prático na acção política, sempre orientou a sua vida por valores e princípios”, sintetiza o presidente da Câmara de Lisboa: “Gostava de convencer os outros.”

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A carta que Semedo escreveu aos pais no forte de Caxias, onde esteve preso DR

“Quem o trouxe para o Bloco de Esquerda foi Miguel Portas, que o conhecia muito bem do PCP, começou como deputado independente do Bloco, fomo-nos aproximando, passámos férias juntos com as nossas famílias.” A crónica de amizade de Francisco Louçã e Semedo flui com a naturalidade de uma vivência fácil. “Foi um homem coerente, terá tido adversários mas que o respeitam”, assegura o ex-coordenador do Bloco.

Assumiu em 2012 uma liderança paritária do Bloco de Esquerda com Catarina Martins, depois da saída de Louçã, experiência que admitiu não ter resultado. “Os jornalistas colocaram-lhe a etiqueta depreciativa de bicéfala”, lamentou na entrevista ao PÚBLICO de há dois anos.

As experiências de abertura política e solidariedade pessoal deixaram marcas tão profundas como a generosidade dos seus combates e a defesa das suas ideias. Mesmo travados em situações adversas de saúde.

“Nunca desistiu de ter intervenção, o livro com o António Arnaut [Salvar o SNS: Uma nova Lei de Bases da Saúde para defender a Democracia] é fruto da amizade que os unia, ele achava natural fazer um projecto tão essencial com alguém que não fosse do Bloco de Esquerda, o que diz muito do espírito de trabalho que tinha”, exemplifica Francisco Louçã. Torres Pereira recorda a participação de Semedo num debate organizado pela Universidade Atlântida na comemoração dos 30 anos do Serviço Nacional de Saúde. “Sem se barricar”, sublinha.

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Semedo dividiu a liderança do Bloco com Catarina Martins, depois da saída de Louçã Miguel Manso

“João Semedo teve a sorte de ser de uma geração que viveu o 25 de Abril com tempo para ter palavra”, refere Louçã. Mas os seus combates não eram datados. “A luta pela morte assistida é um trabalho do século XXI, ele olhava para o passado e vivia intensamente o presente”, alerta.

Lutas para muito tempo

“A História da Humanidade é um pouco a história da evolução dos direitos das pessoas e da valorização da sua dignidade”, escreveu a 7 de Agosto de 2016 no PÚBLICO. E enumerava: “Primeiro, os direitos políticos e, depois, os direitos sociais muito relacionados com o trabalho, a protecção social, a reforma, o Estado social. E, agora, uma nova geração de direitos, que aprofunda os direitos humanos, os direitos de cidadania e de identidade.” Havia lutas para muito tempo no calendário de João Semedo.

Há dois anos, numa tarde quente de Agosto, João Semedo subiu os degraus das escadas do PÚBLICO em Lisboa. Vinha de uma consulta do IPO, saco de plástico na mão com os medicamentos e memória viva para legendar fotografias e documentos da sua infância e adolescência que nos fizera chegar.

Sem cordas vocais, explicou que falava através de uma prótese de silicone fixada ao esófago e à traqueia. “Consigo falar, as pessoas entendem-me perfeitamente, mas a minha capacidade de comunicação ficou limitada”, referiu. Mas contava como vitórias a participação em dois comícios e em diversas sessões públicas sobre a morte assistida.

Falava, então, do presente para o futuro. “Mudou a hierarquia dos problemas, das dificuldades, dos obstáculos, das contrariedades, enfim, tudo hoje é para mim mais fácil de relativizar”, admitiu. “Nestas situações ganha-se intuitivamente a noção de que a vida tem um prazo, em geral passamos uma vida inteira sem pensar nisso. Portanto, a nossa relação com o tempo também muda, como se ficássemos mais apressados, apesar de termos cada vez mais tempo livre e menos coisas para fazer...”, relatou: “De resto, acho que encaro a vida como sempre encarei, com prazer, entusiasmo, intensidade, vontade de participar, activismo, com objectivos.”