Assalto em Tancos

Ministro da Defesa diz desconhecer material de Tancos por recuperar

Azeredo Lopes diz que baseou as suas informações sobre o material encontrado nos dados da investigação
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antónio cotrim/lusa

O ministro da Defesa José Azeredo Lopes disse desconhecer, perante os deputados, uma “alegada discrepância” sobre o material de Tancos ainda desaparecido e o que já foi declarado oficialmente recuperado. Depois das explicações do governante, PSD e CDS deixaram uma eventual comissão de inquérito sobre o caso em banho-maria, embora os centristas pareçam mais inclinados a avançar.

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Depois de confrontado pelo deputado do PSD Pedro Roque com a acusação de que “anda aos papéis” neste caso de Tancos, o ministro disse não ter conhecimento da discrepância entre o material dado como recuperado pelo Exército e o que ainda não apareceu. 

“Se fui informado? Não, não fui informado. Porque provavelmente quem investiga considerou que estaria em segredo de justiça”, afirmou Azeredo Lopes, na audição parlamentar desta terça-feira sobre o caso de Tancos, na sequência da notícia do Expresso de sábado segundo a qual há explosivos, granadas, granadas de lacrimogéneo e um disparador de descompressão ainda por encontrar, ao contrário do que anunciou o Exército em Outubro do ano passado.

Azeredo Lopes disse não compreender o “motivo” de uma “alegada discrepância” registada em acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa, a propósito da investigação criminal do desaparecimento do material, e defendeu que seria de bom senso aguardar por uma “aclaração” do Ministério Público. Admitindo que ainda não tinha lido os acórdãos citados pelo semanário, o governante remeteu para a investigação criminal as informações que veiculou em Outubro, depois de o material desaparecido em Tancos ter sido encontrado na Chamusca, três meses depois. “O ministro transmitiu informação que resultava da investigação quando a investigação deu a conhecer resultados parcelares”, disse, falando de si próprio na terceira pessoa e recusando que tivesse havido “euforia” quando o material foi encontrado.

O governante escusou-se a comentar “directa e indirectamente” notícias sobre “alegados conflitos” entre a Polícia Judiciária Militar e a Polícia Judiciária na averiguação do caso. Azeredo Lopes rejeitou, no entanto, “estar a passar responsabilidades para a Polícia Judiciária Militar” e referiu estar apenas a “chamar a atenção de que a investigação em curso teve dois desenvolvimentos: a caixa 9 milímetros e o material a mais”.

O ministro pouco mais adiantou e foi até interrompido pelo coordenador do PS na comissão, Ascenso Simões, quando se encontrava a responder ao deputado do PCP. No final, PSD e CDS mostraram-se insatisfeitos com as explicações dadas. O social-democrata Pedro Roque afastou, para já, uma proposta de comissão parlamentar de inquérito, por terem sido aprovadas mais audições sobre o caso, uma para ouvir o chefe de Estado-Maior do Exército (EME), pedida pelo CDS, e outras duas para a secretária-geral do Serviço de Informações bem como a responsável do Sistema de Segurança Interna, pedidas pelo PS. Mas não deixou de criticar o ministro por “dar mais a ideia de ser um espectador do que um actor”.

Já o deputado centrista João Rebelo disse manter “em aberto” a possibilidade de uma comissão de inquérito. “Ficámos exactamente na mesma. O Ministério Público diz que há discrepâncias evidentes, o ministro diz que não conhecia”, afirmou aos jornalistas. “O ministro da Defesa parece que não quer ser informado, tem raiva de quem está informado e descarta sempre as suas responsabilidades, hoje na Polícia Judiciária Militar”, disse João Rebelo, sublinhando que Azeredo Lopes não respondeu, quando questionado pelo CDS, sobre quais as consequências que retira se a informação prestada pelo chefe do EME for errada. Esse também foi um dos pontos em que insistiu Jorge Machado, do PCP. O deputado quis saber se o ministro reiterava as informações prestadas pelo chefe do EME. “O Ministério Público não parte do pressuposto de que há material por recuperar e há um inventário. Qual foi a informação que o chefe do EME transmitiu? Tanto quanto sabemos o Ministério Público não inventa material furtado”, apontou o deputado comunista.

Durante a audição, o bloquista João Vasconcelos referiu-se ao caso como “folhetim” e considerou “grave” o que se está a passar em Tancos.

Antes de o ministro entrar na sala foi discutida a hipótese de a audição ser à porta fechada, o que levou dois deputados do PS a entrar em choque. Vitalino Canas defendeu que a audição deveria ter carácter reservado, mas Ascenso Simões sustentou o contrário e assumiu ser essa a posição oficial do grupo parlamentar. Vingou a tese de a audição ser aberta à comunicação social, o que não é habitual nas comissões de Defesa, embora seja a regra regimental.