Editorial

O distúrbio bipolar

Trump é o antidiplomata por princípio, que vê inimigos em todo o lado, mas não tanto assim em Moscovo, onde ao mesmo tempo vê um rival e um parceiro.

O mundo bipolar acabou. Mas é curiosa a coincidência de ontem ter sido o dia da primeira cimeira entre Trump e Putin, em Helsínquia e de uma cimeira entre União Europeia (UE) e China, em Pequim. Por onde passa, Trump é indelicado em loja de louça delicada: foi assim no G7, foi assim na cimeira da NATO e foi assim na sua grosseira passagem pelo Reino Unido — a ponto de sugerir a Theresa May que processe a UE. A rota de colisão entre esta Administração norte-americana e a Europa tem já um historial e ameaça ir em crescendo: abandono do acordo climático, denúncia do acordo de desnuclearização do Irão e início de uma guerra comercial.

Trump é o antidiplomata por princípio, que vê inimigos em todo o lado, mas não tanto assim em Moscovo, onde ao mesmo tempo vê um rival e um parceiro. Se os inimigos estão na UE ou na China, o aliado está na Rússia. A grosseria do seu discurso sobre os países europeus contrasta com a admiração e respeito com que trata Putin. Digamos que os dois são as duas grandes ameaças à Europa de hoje, como se já não bastassem todas as outros. O primeiro assenta a sua política externa num deve e haver comercial, sabendo de antemão que nenhum outro país pode igualar o poderio militar dos EUA e que o mundo ainda depende, em larga escala, da sua economia, como aqui ontem escrevia Teresa de Sousa. O segundo quer aliviar as sanções ocidentais e aspira a reposicionar a Rússia como superpotência. Como lembrou Trump, aqueles dois países têm 90% do arsenal nuclear.

O encontro de ontem entre o primeiro-ministro chinês e os responsáveis da Comissão e Conselho Europeu não é inocente neste ambiente de guerra comercial. A China terá tendência para se aproximar da UE à procura de um aliado contra o proteccionismo comercial dos EUA. E A UE terá tendência para fazer o mesmo com o Japão (com o qual assina hoje um acordo comercial que permitirá às empresas europeias uma poupança de mais de mil milhões de euros em taxas alfandegárias.) Esta eventual aproximação à China poderá não se ficar apenas pela criação de um bloco comercial, quanto mais não seja porque é possível que o entendimento inclua temas como as alterações climáticas ou o acordo nuclear com o Irão. Iremos nós assistir à formação de dois blocos? À esquizofrénica tentativa de aliança entre EUA e Rússia, por um lado, e UE e Ásia, por outro?