Amorim, quatro gerações de decisões temerárias

Da pequena oficina de rolhas numa Rua de Vila Nova de Gaia até à maior transformadora de produtos de cortiça do mundo, a história do grupo Amorim é feita de persistência e de visão. e de uma inabalável fé na cortiça

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Foi pertinho do actual largo Sandeman, em Vila Nova de Gaia, numas pequenas instalações da Rua dos Marinheiros, que então com 38 anos, António Alves Amorim fundou uma pequena oficina de rolhas de cortiça. Estávamos em 1870 e foi aí que arrancou não só a história de umas das empresas mais antigas de Portugal - numa lista organizada pelo PÚBLICO com o apoio da Informa D&B – mas também a história da empresa que chegou à liderança mundial no sector da cortiça, conquistando uma posição que está apostada em não perder. A pequena oficina transformou-se, 148 anos e quatro gerações depois, na maior transformadora de produtos de cortiça do mundo, gera um volume de negócios superior a 700 milhões de euros numa centena de países, tem dez unidades industriais de matérias-primas e 20 unidades industriais de soluções de cortiça. Sempre nas mãos da mesma família.

É uma história carregada de curiosidades e de decisões temerárias, que, afinal, a tornam ainda mais única. Porque não há muitos exemplos no mundo de uma empresa que é líder a partir de Portugal, e menos exemplos ainda de empresas que conquistaram essa liderança a vender um produto tradicional, e que conseguiu manter-se na mesma família há quatro gerações. E que continua a ter nas rolhas para vinho a sua principal fonte de receita, mostrando que as crónicas da morte anunciada foram precipitadas, e que os funerais que estiveram marcados por duas vezes não se chegaram a concretizar. Mas já lá vamos. Antes disso é preciso voltar a António Alves Amorim, e à primeira decisão temerária na família.

Talvez essa decisão tenha sido até mais impulsionada por Ana Pinto Alves, a mulher que tinha apenas cinco anos de idade quando António Alves Amorim abriu a oficina na Rua dos Marinheiros. E que veio a casar com ele mais tarde quando tinha apenas 21 anos. Diz-se que homem velho e mulher nova, são filhos até à cova, e o casal teve nove filhos. A agricultura não era suficiente para sustentar tanta gente, e a oficina da rua dos Marinheiros era demasiado pequena para as necessidades – e para a ambição. Aos 76 anos de idade, António Alves Amorim lança-se a um novo desafio, agora na sua área geográfica de origem, Santa Maria de Lamas, e nas traseiras da casa que habitavam criaram o “alpendre da cortinha”, designação que tinham então (1908) os locais onde se trabalhava a cortiça. Poucos anos mais tarde fica concluída a construção de uma fábrica que iria acolher os nove irmãos, filhos do casal: a Amorim & Irmãos fica concluída 11 de Março de 1922, e a firma familiar é registada com um capital social de 90 mil escudos e uma dívida de 800 contos para pagar de empréstimo para a construção.

O fundador morreu uns meses depois, com 90 anos de idade. Ana Pinto Alves faleceu quatro anos depois. Os destinos da Amorim & Irmãos passaram para a geração seguinte. Dos nove filhos, três emigraram para o Brasil, um fez uma fábrica no Rio de Janeiro, outro avançou com uma fábrica em São Paulo. As preocupações dos Amorim passaram a ser, também, estes irmãos emigrados: para além das rolhas que continuavam a produzir, e a vender, a partir de cortiça no Douro, era também preciso assegurar a matéria-prima para aqueles irmãos que tinham ido para o Brasil. E é aqui que começa a sabedoria familiar e o conhecimento da matéria-prima que começam a construir. 

Dos seis irmãos que ficaram em Portugal, um tornou-se padre, mas os outros cinco dedicaram-se totalmente à empresa, sendo que dois deles assumiram um maior protagonismo: o irmãos mais velho e o irmão mais novo do clã familiar, que foram uma espécie de Chairman e Chief Executive Officer da empresa quando a utilização destas terminologias ainda estavam muito longe de ser uma realidade.

José Alves Amorim estabeleceu-se no Porto, adquiriu contactos e experiências essenciais para assumir a responsabilidade pela área financeira da empresa e definir algumas estratégias. Henrique Alves Amorim, o mais novo, era o operacional no terreno, foi quem teve a iniciativa de sair do Douro e começar a comprar cortiça para o Alentejo, quem começou a fazer grandes viagens de comboio para Alemanha e para a Holanda, quem acordou com o cônsul de Portugal em Bayonne uma forma de fazer chegar a Portugal a cortiça que era transformada em França. Porque Portugal agora é líder na transformação do sector, mas na altura a indústria estava em Catalunha, em França, na Alemanha ou na Suíça. Em Portugal só havia matéria-prima. Henrique Alves Amorim acabou mais tarde agraciado com o título de Comendador, pela transformação social, cultural e económica que levou a Santa Maria de Lamas.

Foi com os irmãos desta geração que se deu outra decisão fundamental, em 1939: os irmãos ausentes da empresa, ou por estarem no Brasil ou por se terem dedicado ao sacerdócio, deveriam vender as suas quotas aos irmãos mais activos em Santa Maria da Feira. E assim a Amorim e Irmãos passou a ser reduzida a cinco sócios, e era chegada a altura de começar a entrar a geração seguinte aquela em que se notabilizou Américo Amorim.

Foi a partir dos anos 50, e ainda com Henrique Alves Amorim na liderança da empresa que começam a ganhar protagonismo os sobrinhos Joaquim, António e Américo, este ultimo a quem é imputada a decisão de trazer a transformação da cortiça para Portugal e a instalação da Corticeira Amorim. Nova decisão familiar, e correspondentes alterações na estrutura da empresa. Em Junho de 1969, uma nova decisão entre primos, e a concentração de quotas nos primos activos e presentes (com a compra da participação dos tios sem filhos e das quotas dos descendentes de José Alves Amorim, os “primos do Porto”) e começa oficialmente a fase de internacionalização da empresa.

“O poder tractor do tio Américo”, como se lhe refere o actual presidente da empresa António Rios Amorim, ajudou-a a chegar ao lugar que agora ocupa, mesmo tendo-se dispersado em outras áreas de negócio. António Rios Amorim chegou à liderança do grupo em 2001, sucedendo a Américo Amorim precisamente no ano em que, pela primeira vez, depois de 30 anos de crescimento, a Corticeira Amorim teve prejuízos. Se isso o desmoralizou? “Pelo contrário. Pior não podia ser. A partir daí tinha de ser a construir”, diz António Rios Amorim ao P2.

E é a Rios Amorim que deve ser atribuída, talvez, a decisão mais temerária de todas as que já foram tomadas no grupo. Com a saída de Américo Amorim, houve uma discussão interna sobre se o grupo também diversificava ou se ficava na cortiça. E num momento em que parecia que outros materiais é que eram a modernidade, o grupo Amorim decidiu-se pela tradição. “Acho que isto só foi possível pela nossa convicção forte de que a cortiça é um produto tão único e nobre, que se nos dedicarmos a ele vamos conseguir transmitir tudo o que vemos nele às outras pessoas”, explica Rios Amorim. O grupo criou gabinetes de I&D, apostou nas novas tecnologias, empenhou-se em mostrar ao mundo as vantagens ecológicas e ambientais que a cortiça tem face aos outros materiais.

Hoje em dia já não são os vedantes de plásticos, as screwcaps ou o mal afamado “cheiro a rolha”, que ameaçou a industria das rolhas de cortiça no inicio deste milénio, quem traz respeito aos responsáveis da empresa. “O grande desafio que temos pela frente é plantar sobreiros. Para ter a certeza de que este crescimento é suportado por uma oferta de matéria-prima que sustente as ambições legítimas de um sector que sabe que trabalha com um produto natural fantástico que construi para a sustentabilidade do planeta”, sintetiza Rios Amorim.

O grupo Amorim está agora envolvido num projecto de intervenção florestal, empenhado em demonstrar ao mundo que é possível fazer outro tipo de plantações de montado, com uma taxa de sobrevivência superior à actual e cuja produção de cortiça pode ser antecipada. "Queremos demonstrar que com apenas mais 7% de área de montado seremos capazes de produzir mais 30 a 35% de cortiça", diz Rios Amorim. O objectivo é chegar aos 50 mil hectares. Por enquanto já há 400 plantados.