Da Rússia com calor

Mais de 15 mil quilómetros pelo flanco europeu do maior país do mundo, à boleia de um torneio que juntou amantes da bola de todas as origens num “nós” espontâneo bonito de ver. O futebol é de todos.

Otkrytiye Arena, Copa do Mundo de 2018, seleção nacional de futebol da Sérvia
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Reuters/KAI PFAFFENBACH

Todos os caminhos iam dar à Praça Vermelha naquela quarta-feira de Junho. Um calor imenso que não combina com Moscovo. Ajit está sentado no interior de um concorrido café com ar condicionado. Está sozinho e oferece uma cadeira. Tem olhos verdes radiantes e cabelos brancos ondulados que reforçam a tez escura. Na casa dos 60 anos, acabou de chegar de Deli, capital da Índia, e olha impacientemente para a porta.

O jogo Portugal-Marrocos  está a começar e todas as televisões mostram o Estádio Luzhniki, a poucos quilómetros de distância. Ajit planeou reunir-se com a família neste preciso local, neste preciso instante. Para ver mais perto Cristiano Ronaldo.

Passaram três semanas. No regresso a Moscovo, para a última etapa desta longa odisseia do Mundial, junto ao hotel volta a estar o majestoso Luzhniki, palco da final de domingo. Até aqui chegar, foi preciso cruzar o flanco europeu desta nação-império várias vezes. Do Báltico ao Mar Negro. Do majestoso rio Volga ao Neva. Do Cáucaso ao Tartaristão. Perto de 15 mil quilómetros. Mais do que uma volta ao mundo. Exclusivamente em território russo.

Sentado com o feliz hindu Ajit, na primeira fila para um comovente reencontro familiar, Junho já parece ter sido há meses. A ideia foi de Neelakshi, mulher de Ajit, tradutora de russo. Está quase a chegar. Mas antes os olhos do indiano vão humedecer ao reconhecer as duas filhas. Akshyeta, que vive e estuda em Cambridge, na Inglaterra; Sachita, que trabalha em Dublin, na Irlanda. Há um desconhecido que se sente a mais, mas ninguém quer que vá.

Alguns abraços, muitos beijos e lágrimas depois as recém-chegadas já sabem que está um português com eles e querem falar de Ronaldo. A bola mal começou a rolar no campo e o melhor do mundo acaba de marcar. O barulho torna-se ensurdecedor – só um pequeno grupo de marroquinos permanece silencioso.

Ajit não percebe muito de bola mas gosta dos portugueses. Não ligava muito até visitar Goa e despertar para um pequenino país europeu que foi tão grande para ali chegar e deixar laços perenes. Fica a saber que o primeiro-ministro de Portugal é de origem goesa. Impressiona-se. “E mesmo assim foi eleito?!”

Nas telas, a selecção está a passar por dificuldades; os marroquinos estão irrequietos. A alguns metros, um grupo ruidoso de brasileiros faz a sua festa. É também um reencontro, mas já lá vamos, depois do jogo, quando a família indiana tiver saído. Antes, revelam o significado dos seus nomes em hindu: Ajit significa “aquele que vence”; Neelakshi, “a que tem olhos azuis”; Akshyeta, “a única”; Sachita, “percepção”.

De mochila às costas, a saída é travada pelos brasileiros. Querem bater um papo. Um deles tem um apelido sugestivo, Be Kok. A mãe imigrou de Macau para São Paulo há 50 anos. Conheceu o pai na grande metrópole sul-americana, um português de Lisboa. Emigraram todos para os Estados Unidos.

O Japão e a solidariedade

Be Kok é um fuzileiro americano. Está estacionado na base japonesa de Okinawa há alguns anos, mas diz em voz baixa que não pode falar no assunto. Lá conheceu outros dois brasileiros naturalizados no país de Donald Trump que já foi de Barack Obama. Fernando de Souza nasceu em Diadema, município de São Paulo, e foi para a Carolina do Sul com 12 anos. Tornou-se militar, foi mobilizado para uma comissão na Alemanha, seguiu depois para o Japão.

De caminho, na Indonésia, conheceu Allison, nascido em Belo Horizonte, com metade dos seus 32 anos passados na Florida. O trio é inseparável em Okinawa e nenhum pensa voltar às Américas. Para já. “Os japoneses são muito solidários”, conta Fernando, o mais falador mas também o menos sorridente. “São ensinados desde crianças a acreditar na comunidade e não no indivíduo. É o povo mais educado do mundo. O país é tão seguro que fui a uma ilha onde havia apenas um polícia para cinco mil habitantes.”

O nobre modo de estar nipónico confirmar-se-ia numa visita ao quartel-general da selecção em Kazan, duas semanas mais tarde. Depois do espanto de ver os adeptos na televisão a limparem as bancadas dos estádios antes de os abandonarem e dos jogadores e staff a deixarem num brinco os balneários, falta uma derradeira surpresa: ver a azáfama dos jornalistas japoneses a arrumarem a sala de imprensa antes de iniciar o regresso ao seu arquipélago – para assombro, literal, das empregadas de serviço.

“Paços de Ferreira, Chaves…”

Feitas as despedidas, os brasileiros de Okinawa e os outros amigos de infância que vieram de São Paulo foram para a rua meter conversa com três indonésios equipados com as camisolas vermelhas da selecção portuguesa e o nome de Ronaldo gravado nas costas. Estão a tirar fotografias abraçados a raparigas que os tomam por portugueses. CR7 é um desbloqueador de conversas. Na Rússia adoram o madeirense como se fosse um dos seus.

Entre muitos russos, há aqueles que se apresentam altivamente como “cidadãos da federação russa” e muitos outros das inúmeras nacionalidades que coabitam dentro das fronteiras do “império”. Ucranianos, ossetas (do Norte), tchetchenos, georgianos, arménios, azeris, uzbeques, quirguizes, tajiques ou tártaros. Todos perguntam sempre por Ronaldo para início de conversa. Todos sabem perfeitamente onde é Portugal. Muitas vezes Lisboa e o Porto.

Em Sochi, um taxista georgiano tinha na cabeça grande parte das equipas da liga portuguesa: “Porto, Benfica, Sporting, Boavista, Paços de Ferreiras, Chaves…” E só falava a sua língua materna e o russo. Mesmo assim fez todos os esforços para saber o que se passava com Ronaldo e a Juventus, seu clube do coração.

O marroquino Malek

Horas antes do reencontro da família indiana, da conversa dos brasileiros de Okinawa na cosmopolita Praça Vermelha, horas antes do apito inicial do segundo jogo de Portugal na fase de grupos, o marroquino Malek Ben Mohammed entrou a transpirar no hall do Avita 1 – uma estranha hospedaria num bairro habitacional moscovita transformada numa babilónia de povos e línguas.

Viajou toda a noite desde Agadir, uma zona balnear do seu país, onde trabalha como empregado num hotel de praia. Esteve meses a juntar dinheiro para ver o seu Marrocos jogar com o Portugal de Ronaldo. Estava nervoso e a suar muito. E pior ficou quando lhe foi exigido um novo pagamento, para além daquele que já fizera através do Booking, para ficar neste cruzamento entre hostal e pensão rasca.

Disseram-lhe que não tinham recebido nenhuma quantia da plataforma online de reservas hoteleiras e de nada valeu mostrar no telemóvel a confirmação da transferência do valor da sua conta. Estava desesperado. Tinha de correr para o Luzhniki, mas sem aquele valor não tinha condições para comer e sobreviver em Moscovo.

Na recepção, chamemos-lhe assim, ninguém falava outra coisa que não russo e as três empregadas dengosamente sentadas atrás do balcão não se comoviam com os apelos de Malek. De um sofá levantou-se o até então discreto Nadulaziz Fahad.

Um jovem professor da Arábia Saudita que fora parar ao Avita 1 iludido pelas críticas positivas que paradoxalmente elogiavam o espaço na Internet. Com a reserva feita há meses, teve que enfrentar a dura realidade de esperar “pelo menos” três horas e meia para lhe disponibilizarem um quarto, já que o seu original tinha sido desviado para três mexicanos e um colombiano que pagaram a pronto.

Nadulaziz ouviu tudo sem nunca perder a calma ou levantar a voz. Encolheu os ombros e sentou-se no sofá com os dois amigos também sauditas que viajavam consigo. Interveio apenas para “salvar” Malek. Abriu a carteira e disponibilizou-lhe uns rublos, rejeitando as insistentes tentativas do marroquino para trocarem contactos e combinarem uma forma de lhe devolver o dinheiro.

Malek saiu a correr para o estádio. Ainda tinha algum tempo. Já Nadulaziz aceitou responder a algumas perguntas sobre o grande dia no seu país em que as mulheres passariam a ter permissão para conduzir. Olhou para cima e revirou os seus olhos pequenos, atrás de uns óculos redondos. Com um sorriso forçado, lá deu a sua opinião: “Eu preferia que não para a própria segurança delas. As estradas na Arábia Saudita estão em mau estado.”

Património universal

O Mundial foi isto também. Muito mais do que a bola a rolar no relvado. As infindáveis histórias de tantos adeptos que vieram conhecer um país gigante de que quase nada sabiam (mesmo se pensassem que sabiam muito) e que só aqui sentiram e começaram a perceber.

Distintas culturas, condições sociais ou credos, tudo harmoniosamente diluído neste planeta futebol. E com as selecções a evidenciar cada vez mais esta riqueza multicultural, numa altura em que governantes por todo o mundo a querem travar e reverter.

Na Rússia não houve eu, houve nós. Um “nós” espontâneo. O espectáculo foi bonito em Moscovo, São Petersburgo, Kazan, Krasnodar, Sochi, por toda a margem direita do mar Negro e até na pequena Repino, no golfo da Finlândia, onde se refugiaram os ingleses e o seu sonho de levar o futebol para a casa onde ele nasceu. A Croácia – como muitas outras selecções ao longo deste século – provou-lhes que a sua criação é há muito património universal. Como o Ronaldo de Portugal.

Spasiba!