Crónica

E se se vai de férias com uma relação por resolver?

Ir de férias com uma relação por resolver não são bem férias. É vestir de forma despreocupada e andar de havaianas. Mas agir de forma tensa e com salamaleques. Quase todos os dias.

A verdade é que nunca estamos preparados para o amor. E estamos menos, ainda, para os sobressaltos que ele nos traz. Sobretudo, quando adoece, aos bocadinhos. E, primeiro, deixa de ser um amor. Depois, passa por ser uma “amizade colorida”. A seguir, perde chama e vai esmorecendo como uma amizade a “preto e branco”. Para que, finalmente, se transforme numa espécie de “alergia crónica” que encolhe o nosso coração.

O amor faz-se duma rede complexa de sinais, de entrelinhas e de meias-palavras. Exige tempo e paciência. O melhor do nosso “sexto sentido”. E muita imaginação. Sobretudo quando se trata de sentirmos em nós uma pessoa. Para mais quando tudo isso se entrelaça com os nossos próprios sentimentos. É assim quando tentamos, de todas as formas, adivinhar a importância do nosso lugar numa pessoa, por entre todos os sinais que ela nos dá (sobretudo quando não temos a certeza se eles serão amor ou se são só devaneios e coincidências). E, quando, de surpresa em surpresa, há sentimentos “maus” que “atropelam” aquilo que tínhamos jurado que seria um amor eterno mas que, entretanto, definha enquanto dura.

Todos os amores são para sempre. E, todavia, morrem. Se os cuidarmos de forma apressada e distraída. Porque eles concorrem com os filhos, com a família e com o trabalho. E com as desilusões, as decepções e os pequenos-nada de todos os dias. E com os vários “Não é nada!” que todos os “O que é que se passa?” nos merecem. E com aquilo que remoemos, claro. E que, em “suaves prestações”, nos afasta de quem, antes, parecia simples, entusiástico e fácil de amar.

Todos os amores são frágeis. Mas são mágicos! Na verdade, quanto mais mágicos se tornam mais delicados e mais frágeis parecem ser. Porque exigem e exigem de nós. E nem sempre os estimamos com tudo aquilo que merecem.

Todos nos separamos quase sem dar por isso. Começamos por dizer que “as coisas não estão bem”. Continuamos com a convicção que uma conversa, num fim-de-semana (de preferência, romântico), nos permite “arejar” um amor daquilo que ele foi ganhando de bafiento. Para que, de seguida, entremos numa montanha-russa de contradições. De manhã, reconhecendo que estamos decididos a separar-nos. À tarde, assumindo compromissos que contradizem o nosso coração. Para, de seguida, repetirmos tudo isso. Uma vez e mais outra. E muitas mais, ainda. E terminarmos a imaginar qual pode ser a “janela de oportunidade” para propormos “dar um tempo”. Sem muita dor. E sem “ondas de choque” que atropelem os testes das crianças, as datas de aniversário de todas as pessoas da família e uma viagem com outros casais amigos, desde há muito, planeada. Entretanto, passou um ano.

Muitos de nós vamos de férias com relações por resolver. Talvez, no fundo, elas já estejam resolvidas. Mas precisam de ser muito faladas; muitas vezes. E as férias têm o tempo que nos falta quase sempre. Mas as crianças vão de férias, também. E, depois, há alguns familiares e meia dúzia de amigos que decidem aparecer, de surpresa. E, no tempo que resta, repartir o mesmo espaço e o mesmo ar, todos os dias - quando fomos de férias a implicar com o seu perfume ou com a forma como a pessoa que está connosco não ajuda e só desarruma - traz pequenos “escaldões” ao nosso coração. Sem “factores de protecção” e sem sombras frescas que nos valham.

Ir de férias com uma relação por resolver não são bem férias. É vestir de forma despreocupada e andar de havaianas. Mas agir de forma tensa e com salamaleques. Quase todos os dias. 

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