Todos desistiram da plantação de papoila branca no Alqueva

O objectivo que a cultura da planta dormideira produtora de ópio pretendia atingir, cerca de 6000 hectares até 2016, ficou pelo caminho. Em 2018 não foi plantado um único hectare.

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carlos vargas / Reuters

A cultura de papoila branca (Papaver somniferum L.), também conhecida por planta dormideira, destinada à produção de morfina, deixou os campos do Alqueva, cinco anos depois de ter sido iniciada a sua exploração. O excesso de oferta deste produto no mercado mundial ditou o fim do investimento em Portugal.

À expectativa criada à volta da uma nova e exótica cultura, considerada “interessantíssima” pelos agricultores que aderiram ao projecto (cerca de meia centena) sob fortes medidas de segurança, seguiu-se o fracasso de uma iniciativa que chegou a ser considerada pelos autarcas de Beja um “investimento estratégico” para a região.

A Macfarlan Smith, empresa escocesa que foi pioneira na plantação de papoilas brancas nos campos do Alqueva, pretendia, para além da produção de matéria-prima, proceder numa fase posterior à sua transformação numa fábrica nos arredores de Beja. Seriam investidos, numa primeira fase, cerca de 4 milhões de euros e, posteriormente, o alargamento das instalações implicaria um investimento de 20 milhões de euros com a promessa de criação de 30 postos de trabalhos fixos. 

Neste sentido, a empresa escocesa iniciou em 2009 estudos e experiências para atestar o grau de adaptabilidade agronómica da cultura à região do Alentejo. O trabalho de investigação foi coordenado pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e teve a colaboração do Ministério da Agricultura, da Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva (EDIA), do Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR) e do Instituto Politécnico de Beja (IPB).

As experiências efectuadas em cerca de 100 hectares abriram “excelentes perpectivas” pela qualidade dos terrenos, o sol persistente e a abundância de água debitada por Alqueva, ou seja, os ingredientes fundamentais para suporte da cultura de plantas dormideiras. A primeira campanha arranca em 2012 e ocupou 650 hectares. Vaticinavam-se resultados “muito promissores”. As primeiras colheitas apresentaram valores de morfina “muito satisfatórios e encorajadores” e a Macfarlan Smith não poupou nos predicados para dar “continuidade ao investimento da cultura no país”, assumia, na circunstância a Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo (DRAPAL).

A EDIA passou a demonstrá-la como exemplo da diversidade cultural que Alqueva potenciava para contrariar a ideia da hegemonia da monocultura do olival e, rapidamente, se antecipou para 2014 a ocupação de 6 mil hectares no regadio do Alqueva. Os mais entusiastas admitiam que podia chegar aos 10 mil. A terra não era problema. Os menos optimistas ficavam-se pelos 3000 hectares.

“Bom rendimento”

Nos anuários agrícolas publicados pela EDIA, a cultura de papoila branca passou a ser descrita como “uma boa alternativa aos agricultores das novas áreas de regadio”. Estava garantido “apoio técnico, por parte das empresas promotoras” (Macfarlan Smith e TPI Enterprises) e “um bom rendimento” aos agricultores que aderissem ao projecto.

A EDIA anunciou em 2016 que a área ocupada por papoilas já tinha “ultrapassado a barreira dos 1000 hectare”. E com a presença de “dois player's no mercado, é previsível que a área continue a aumentar, contudo a um ritmo mais reduzido”, dizia na altura. Foi o primeiro e subtil sinal de alerta a deixar dúvidas sobre a sustentabilidade da nova cultura. No seu anuário agrícola de 2017, a empresa gestora do regadio do Alqueva reconhece: “Contrariamente às previsões do último ano, a área de papoila não aumentou, tendo mesmo reduzido para cerca de metade”. Com efeito, em 2017 foram inscritos 509 hectares nos perímetros de rega de Alqueva, quando em 2016 a área ocupada chegou aos 1070 hectares.

A empresa avança com uma possível causa: “Aparentemente existem duas razões para a redução da área de papoila. A primeira é a saída de uma das empresas responsáveis pela produção do mercado português, a outra a saturação do mercado mundial de substâncias opiáceas, com excesso de oferta deste produto”. Leitura que está confirmada no Relatório do Comité Internacional de Controlo de Estupefacientes de 2016 ao referir que a área semeada com papoila rica em morfina nos principais países produtores “diminuiu aos níveis do ano anterior na Austrália, França, Hungria e Espanha”. No país vizinho, a área real colhida de papoila “foi 66% menor que no ano anterior”, enquanto na Turquia, outro país produtor, “mais que dobrou” em relação a 2015, refere o documento. E acrescenta: a produção global de matérias-primas de opiáceos, ricos em a morfina “excedeu a procura global de morfina”. E em 2016, a produção de morfina continuou a exceder a procura.

Excesso de produção

O excesso de produção de papoila de ópio “é uma das causas que terão justificado o abandono da cultura no Alentejo”, reforça Francisco Palma, presidente da Associação de Agricultores do Baixo Alentejo (AABA). É um produto específico que “sofreu as consequências de um mercado desajustado e as coisas começaram a correr mal”, acentua o dirigente associativo, que disse ao PÚBLICO ter recebido indicações de que “este ano (2018) não se plantaram papoilas” na região. E deixa críticas às entidades públicas por terem aceitado “sem garantias” os projectos apresentados pela empresa escocesa (Macfarlan Smith) e australiana (TPI Enterprises). Esta última anunciou em 2017 a venda da sua subsidiária portuguesa, alegando que a aquisição de uma empresa na Noruega “tornou desnecessário o investimento na produção em Portugal”. Recorde-se que esta também chegou a anunciar ter como objectivo alcançar 3000 hectares de cultura e a instalação de uma fábrica, onde iria investir cerca de 10 milhões de euros.

O PÚBLICO solicitou esclarecimentos à empresa mãe da Macfarlan Smith, a Johnson Matthey Fine Chemicals, sobre as razões que levaram a cessar a produção de papoila branca no Alentejo, mas até ao fecho da nossa edição não obtivemos qualquer resposta.

Questionado o presidente da Câmara de Beja, Paulo Arsénio, entidade que assinou no anterior executivo um protocolo com a empresa escocesa para a instalação de uma fábrica para armazenamento e processamento inicial das papoilas, junto ao aeródromo de Beja, disse não saber “se haverá desenvolvimento desta actividade” admitindo que as actuais condições “não são favoráveis” à concretização do projecto.

Questionada a Johnson Matthey Fine Chemicals, a casa-mãe da empresa escocesa. Pranika Sivakumar, que se apresenta como gestor de conteúdos, confirma que devido “à maior disponibilidade de matérias-primas utilizadas na produção de opiáceos”, a MacFarlan Smith “decidiu cessar as operações relacionadas com a cultura da papoila em Portugal” e já não irá avançar com o projecto de construção de uma fábrica em Beja para tratamento da produção que depois seria enviada para Edimburgo.