Crítica

Festival Internacional de Música da Póvoa: um legado exemplar

A 40.ª edição deste acontecimento tem-se revelado um oásis de excelente música.

Santuário, Altar, Adoração, Religião
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O Ensemble Zefiro, dirigido pelo maestro Alfredo Bernardini ANA LUÍSA MARQUES

Esta época do ano coincide com a já costumeira vontade de permanecer junto à costa, no Norte, para usufruir dos extraordinários momentos musicais que os festivais de Verão continuam a prometer.

Com um programa que se preenche de valores seguros, mas a que não falta a participação de intérpretes portugueses, alguns deles jovens e com fortes ligações à cidade, a 40.ª edição do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim (FIMPV) tem ainda assim conseguido boas surpresas. Se a criteriosa escolha de programas e intérpretes muito promete, o caloroso acolhimento do numeroso público tem parecido agradar aos músicos, de tal forma que o ambiente resultante se traduz numa harmoniosa comunhão com a música.

Na quinta-feira passada, a Igreja de S. Pedro de Rates foi povoada por música medieval. Com o agrupamento La Fonte Musica, numa formação de cinco vozes, um alaúde, uma viella da braccio, uma viella da gamba e órgão/clavicymbalum, o alaúdista Michele Pasotti preparou um programa de música sacra e secular de Antonio Zacara da Teramo, a que juntou anónimos do Codex Faenza 117 e do Codex Londres add. 29987 (e um extra de Matteo da Perugia). A estreia nacional deste agrupamento foi bastante feliz, com um alinhamento que acrescentou alguma dinâmica nas combinações tímbricas, tirando também partido do espaço. Resumindo o concerto a duas palavras: variedade e graça.

Conseguindo também distinguir-se neste oásis de excelente música, o concerto de sábado excedeu as já elevadíssimas expectativas. Se não tivéssemos podido comprová-la em diferentes ocasiões, seria difícil acreditar na existência real de uma artista como Isabelle Faust. Com um conjunto de excelentes músicos, a violinista alemã tratou com o máximo detalhe cada pequeno momento do singular programa vienense que trouxe a Portugal, composto por Schubert e Webern. A propósito deste, pediu ao maestro Dinis Sousa que lesse, no início do concerto, um excerto do mesmo texto de Schönberg que José Luís Borges Coelho havia incluído nas notas ao programa, exortando o ouvinte a empenhar na escuta o mesmo cuidado que o compositor tivera na concepção da peça. As Seis Bagatelas Op. 9 de Webern abriram espaço ao Quarteto D 703 em dó menor, de Schubert, que beneficiou da mesma generosa amplitude tímbrica. A seguir a Schubert, nova execução das bagatelas de Webern encontraria melhor eco no público presente na Igreja Matriz.

Com Anne-Katharina Screiber (violino), Danusha Waskievicz (viola) e Kristin von der Goltz, Isabelle Faust formou um quarteto perfeito. Escutando-o e apercebendo a cumplicidade das intérpretes, dir-se-ia tratar-se de uma formação com anos de trabalho conjunto. Apresentando em Portugal o álbum lançado pela Harmonia Mundi um mês antes, o quarteto recebeu James Munro (contrabaixo), Lorenzo Coppola (clarinete) Teunis van der Zwart (trompa) e Javier Zafra (fagote), para a interpretação do Octeto D803, de Schubert. É absolutamente extraordinário presenciar uma tão perfeita interpretação ao vivo com instrumentos da época – uma trompa natural que não falha, um clarinete expressivo em permanente diálogo com um violino quase sobrenatural, a precisão de todos os ataques, a amplitude tímbrica das cordas usada com toda a inteligência, os incríveis pianíssimos, a cumplicidade entre intérpretes... e o generoso sorriso perante o reconhecimento do público, que valeu a este mais um minueto incluído no mesmo disco.

E porque não há bom festival que não inclua alguma música de Bach, o concerto de domingo foi inteiramente dedicado ao grande mestre alemão (assim como o será o do próximo sábado, com Alessandrini e o Concerto Italiano). Alfredo Bernardini conduziu o Ensemble Zefiro numa viagem pelos Concertos Brandeburgueses (1 e 5) e Suites orquestrais (4 e 3). Foi um concerto pleno de energia, com grande sincronia nas madeiras, mas trompas um pouco menos felizes do que a da véspera. Nota de excelência para o cravista Francesco Corti – músico seguríssimo, criativo e expressivo – e também para o fagotista Michele Fattori (pois não há como um trabalho discreto realizado de forma imaculada!).

O 40.º FIMPV – último ano de uma programação exemplar com assinatura de João Marques, de que poderemos usufruir até ao final do mês – prossegue esta noite com um recital de cravo de Ana Mafalda Castro, na belíssima Igreja Românica de S. Pedro de Rates.