Opinião

Trump, Costa, Santos Silva e a infantilização da política

Ora, por mais que a comparação pareça inusitada, a coincidência dos factos na actualidade torna-a irresistível.

Enquanto os manifestantes contra a visita de Donald Trump ao Reino Unido lançavam um balão gigante em forma de bebé representando o Presidente americano, no Parlamento português encenava-se uma outra peça sobre a infantilização da política a pretexto do debate sobre o estado da nação. Depois da cimeira da NATO em Bruxelas, onde dissera uma coisa e o seu contrário sem qualquer receio de enfrentar a contradição, Trump repetiu em Londres a sua fórmula já consagrada: começou por arrasar, numa entrevista ao Sun, a forma soft como a primeira-ministra Theresa May estava a conduzir o "Brexit", e acabou não apenas por desmentir o sentido das suas declarações, considerando-as fake news, como a fazer quase uma declaração de amor e devoção à sua interlocutora. O balão-bebé lançado em Londres não podia ser, pois, mais oportuno, embora toda a gente se tenha já habituado ao comportamento de Trump, sobretudo os que o festejam fervorosamente nesse teatro grotesco e cada vez mais inquietante onde se celebra o regresso à irresponsabilidade infantil.

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Ora, por mais que a comparação pareça inusitada, a coincidência dos factos na actualidade torna-a irresistível. Temos, assim, o nosso debate sobre o estado da nação, em que os partidos da "geringonça" se esforçaram por fazer baixar a temperatura dos últimos tempos e abrir caminho, contra muitos prognósticos, à aprovação do próximo Orçamento do Estado. Não que os arrufos tenham deixado de existir, mas ei-los aparentemente diluídos na atmosfera cândida das brincadeiras de parque infantil, quando a escola era risonha e franca e se contavam as fábulas da carochinha e do João Ratão (agora evocadas, não por acaso, por António Costa).

Afinal, tanto barulho para nada? Não propriamente. Mas como diria um professor bonacheirão – papel para o qual o Presidente Marcelo parece, aliás, especialmente talhado – "meninos, vá lá, comportem-se, que o recreio está a acabar". O jogo de aparências parlamentar tornou-se uma extensão do jardim-de-infância, como se os seus protagonistas e a assistência à volta estivessem rendidos a um estado de inocência que os dispensaria de qualquer espírito crítico (sendo que os meninos traquinas também fazem parte da brincadeira, como acontece com os partidos da oposição). Sim, temos de fazer de conta, como fazem de conta os meninos no recreio, para manter em funcionamento a ficção política em que vivemos.

Daí se extrai a explicação mais óbvia para o aparente choque de opiniões entre o chefe do Governo e o seu número dois sobre o futuro da "geringonça". Santos Silva pretende que o PCP e o Bloco se rendam à NATO, à Europa e ao euro? Não senhor, atalha Costa, não nos deixemos atrapalhar por essas questões "identitárias" e continuemos, cantando e rindo, como se nada fosse, com esta risonha "geringonça". Alguém acredita que o número um e o número dois não acertem as agulhas sobre a estratégia política a seguir? Ora meças, isso faz parte do jogo e serve para trazer os outros à brincadeira.

O problema é que há problemas muito sérios que não cabem no espaço do recreio e ameaçam avolumar-se nos tempos que aí vêm, da saúde à educação, à justiça, à habitação, aos transportes, enfim, a todas as áreas da vida nacional em que a escassez de recursos e as novas sombras que pairam sobre a economia internacional implicam opções cada vez mais delicadas e difíceis de gerir sem provocar choques políticos dramáticos. Fingir que não é assim é persistir numa ilusão perigosa, como perigosa, a uma escala muito maior e preocupante, é a infantilização da política mundial por via do comportamento do balão-bebé Trump.