Opinião

O preço do “outsourcing” da defesa europeia

Mais do que em qualquer outro momento do passado, os europeus têm de perceber que o “outsourcing” da sua defesa não é solução para o mundo do século XXI.

1. A cimeira entre Donald Trump e Vladimir Putin, em Helsínquia, na Finlândia, ecoa memórias da Guerra-Fria. Entre outros paralelismos, lembra os encontros de Ronald Reagan com Mikhail Gorbatchov. Na altura, muitos europeus sentiam que embora fossem o principal terreno de disputa da Guerra-Fria, as decisões fundamentais sobre o seu destino eram tomadas por outros, ou seja, os EUA e a antiga União Soviética. Os protagonistas mudaram e o contexto internacional hoje não é o mesmo, mas esse sentimento de muitos europeus provavelmente persiste. As divisões na última cimeira da NATO, em Bruxelas, foram demasiado ostensivas para que o comum cidadão não ficasse com a ideia de que algo vai mal na relação transatlântica. É tentador concentrarmo-nos nos problemas conjunturais da NATO e da defesa europeia, tal como habitualmente são discutidos, devido ao “efeito Trump” — este é um provocador e “entertainer” por natureza. Todavia, importa perceber o problema estrutural e não perder demasiado tempo com questões acessórias.

2. Tradicionalmente, a questão da defesa da Europa é marcada pela disputa entre os que advogam as abordagens europeísta e atlantista. Quanto aos primeiros, os europeístas, têm apontado como caminho a seguir a construção de uma segurança e defesa intrinsecamente europeias. A França, desde os primórdios das Comunidades Europeias nos anos 1950 e 1960, foi o principal impulsionador dessa abordagem. O seu objectivo fundamental era evitar uma Europa sob influência anglo-saxónica, a qual dava uma clara vantagem aos britânicos pela sua “relação especial” com os EUA. Na prática, o objectivo era também retirar peso e influência político-militar à superpotência norte-americana na Europa. Por sua vez, os segundos, os atlantistas, procuram preservar e aprofundar a relação transatlântica considerando-a crucial na segurança e defesa europeia. Há ainda uma “terceira via”, uma abordagem de compromisso entre europeísmo e atlantismo. Tem prevalecido na União Europeia, alinhando os desenvolvimentos em matéria de defesa europeia com o papel central da NATO.

3. Pelas razões apontadas, o problema clássico nas divergências euro-atlânticas era a posição francesa. Desde o general de Gaulle até Jacques Chirac, a França sempre tentou pôr em prática uma política de autonomia estratégica face aos EUA e ao resto da NATO. (Ver “1966: la France tourne le dos à l'OTAN”, in Le Monde, 10/03/2009). Mas essa “excepção francesa” acabou muito provavelmente pela falta de meios para lhe dar credibilidade autonomamente. Há cerca de uma década a França voltou à estrutura militar da NATO que tinha abandonado com De Gaulle nos anos 1960. Hoje há uma generalização do “outsourcing” da defesa por todas as velhas potências europeias, ou seja, a sua dependência / entrega a um aliado externo (os EUA), nas tarefas militares mais exigentes, que vão além de simples missões humanitárias. Necessitam, entre outras coisas, de equipamento militar moderno e sofisticado, bem como meios de projecção adequados, algo que nos europeus escasseia. A situação explica-se por razões históricas, económicas e políticas — a União Europeia vê-se, a si própria, como um “soft power”. As vantagens usualmente apontadas a esta solução de “outsourcing” residem no facto de ter a credibilidade militar da maior potência mundial, de ter custos humanos financeiros mais baixos para os europeus (pelos menos até agora) e de ser um factor de contenção das rivalidades intra-europeias, trágicas no passado. Ao mesmo tempo traz intrínsecas desvantagens cada vez mais evidentes: fragilidade política e perda de autonomia estratégica.

4. No debate sobre a defesa europeia ninguém antecipava — pelo menos até há pouco tempo — que os EUA iriam ter um presidente que actuaria como “CEO da América”. (Ver Fareed Zakaria “The problem with Trump as CEO of America” in CNN, 9/05/2016). E que iria olhar para a despesa militar da NATO não sob a óptica estratégica que se espera do decisor de uma grande potência amiga, mas pelo prisma frio do gestor de uma empresa, sem outras considerações estratégicas e de amizade. Trump acha que está a vender o serviço de defesa demasiado barato aos clientes europeus, os quais nem sequer tem em grande conta. Assim, quer cobrar mais seja de que forma for. A diatribe contra os aliados por não gastarem 2% do PIB em termos militares — valor de referência da despesa militar da NATO há muito tempo — é a sua justificação. Como “CEO da América” — e alguém que se vê, a si próprio, como um negociador exímio —, o que se trata é de fazer o que os anteriores presidentes norte-americanos nunca conseguiram: pôr os europeus a assumirem um encargo maior na sua defesa. Aspecto importante da questão: isso deverá ser feito, também, pela compra de equipamento militar a empresas dos EUA. (Ver “Trump ready to help some NATO states buy U.S. arms in Reuters, 12/07/2018). Quer dizer: os 2% do PIB de despesa militar (Trump já fala em depois aumentar a fasquia para 4% — os EUA gastam cerca de 3,5% do PIB) provavelmente são sobretudo instrumentais para incrementar as exportações dos EUA, neste caso de material militar. Não são resultado de uma preocupação com a defesa europeia em si mesma.

5. A atitude inusitada e radical de Trump não é apenas explicável pela sua personalidade e visão do mundo. Só é possível por uma conjugação específica de circunstâncias que ocorreram nos últimos tempos. A primeira circunstância é um sentimento existente nos EUA de que os europeus não assumem uma quota-parte justa da despesa militar da NATO. Essa percepção, embora enraizada há muito tempo, sobretudo no eleitorado republicano, intensificou-se com a grave crise que afectou a economia norte-americana a partir 2008, deixando sequelas políticas e na sociedade. A segunda circunstância é relativamente nova, mas estruturalmente é a mais problemática para os europeus. Resulta da enorme transformação do mundo, sobretudo neste início de século XXI, com a sua recentragem na Ásia-Pacífico. Tende a retirar, na óptica norte-americana de potência global, interesse estratégico à Europa. O resultado é o acentuar de uma visão de que os europeus são “free-riders” em termos de segurança e defesa. Por outras palavras e numa linguagem comum: “penduram-se” nos EUA não assumindo os custos financeiros e os riscos militares que deviam. (Ver John Deni, “Burden Sharing and NATO’s 2 Percent Goal” in Carnegie Europe, 14/04/2015). Ao mesmo tempo, e ainda na lógica dessa mesma visão norte-americana, os europeus da NATO aumentam de número, mas de pouco servem onde os EUA tendem a ter a supremacia mais contestada — a Ásia-Pacifico devido à ascensão da China. Face a tudo isto, que não se reduz a uma mera conjuntura desfavorável (a presidência de Trump), a ilação deve ser clara para os europeus: mais do que em qualquer outro momento do passado têm de perceber que o “outsourcing” da sua defesa não é solução para o mundo do século XXI. A questão é saber como será possível pôr em prática uma defesa europeia coerente e credível.

(Continua)