Opinião

“Só é vencido quem desiste de lutar”

O populismo, a vontade de dizer mal e gritar mais alto suplantou a serenidade e a razão.

Portugal viu interrompido o seu sonho de conquistar o Mundial, mas não sem antes dar muita luta, não sem dar tudo o que tinha no relvado à procura de uma vitória frente ao Uruguai que infelizmente não chegou. Saímos sem glória, mas com honra.

É esta vontade de conquistar, de chegar ao topo, de ser resiliente que nos caracteriza e que, apesar dos desaires naturais da vida, nos alimenta o ego colectivo que nos faz soerguermo-nos sempre, mesmo na maior adversidade. E é na adversidade que se comprova quem tem os valores da igualdade, da liberdade e da fraternidade cravados na alma. 

Portugal uma vez mais está no topo do mundo. Do mundo que não desiste de lutar pelos que conseguem sobreviver em travessias hediondas, forjadas entre o medo e a esperança, entre a necessidade e a extorsão. 

Refiro-me à prontidão com que o Governo de Portugal revalidou o seu compromisso neste cataclismo humanitário que a Europa atravessa. Temos que ser sensatos na distinção entre o que é ser-se refugiado e o que é ser-se migrante, mas em ambos os casos temos que ter como bitola a solidariedade.

Faz bem Portugal em permanecer do lado bom da força, dos que persistem em lutar pela dignidade humana, pela vida de muitos que buscam uma vida nova. Um país de emigrantes, com uma história tão rica feita de idas e voltas, de partidas e regressos, não deve ficar indiferente ao sofrimento dos demais, não pode descartar a sua matriz humanista e plural.

Curiosamente, vimo-nos mais uma vez assaltados por uma onda de protestos e indignações públicas, um fenómeno que tem como casulo as redes sociais e que rapidamente ganha asas em toda a opinião pública, e que desta vez recaíram sobre uma artista de projecção mundial que escolheu Lisboa como morada. 

E, como se fosse pouco importante o facto de termos Madonna, uma das dez figuras mais conhecidas no mundo, como habitante de Lisboa, com tudo o que isso significa de notoriedade e visibilidade para a marca Portugal, arrolam-se os indignados por um punhado de lugares que lhe foram legitima e legalmente atribuídos. Muito se falou e se argumentou sobre o favorecimento desigual da estrela pop, sobre uma suposta parolice e provincianismo, mas pouco se atentou ao cumprimento dos regulamentos camarários em que a edilidade se baseou para aplicar a mesma bitola que é aplicada a todos. 

O populismo, a vontade de dizer mal e gritar mais alto suplantou a serenidade e a razão. Como se pode ler por aí: “nós não somos Madonna”, e de facto não somos, mas não tem a ver com o favorecimento que aparentemente poderia ter tido, tem mais a ver com a sua consciência social e humanitária, porque até nisso Madonna poderia dar uma lição a muitos dos indignados. Afinal, não foi por simples capricho de estrela que Madonna adoptou duas crianças no Malaui.

Fui agradavelmente surpreendida pela notícia da assinatura na Assembleia da República de um projecto de resolução para conceder honras de Panteão a Mário Soares, um Homem que nunca desistiu de lutar pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade. A Lei determina que as honras de Panteão Nacional destinam-se a homenagear "cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade".

Não há a mínima dúvida de que Mário Soares representa em absoluto o perfil das figuras que merecem esta honra. A sua vida, o seu percurso e o seu legado são a mais incontornável fundamentação. Que lhe seja justamente atribuída.