Forças paramilitares fiéis a Ortega atacam universidade em Manágua

A faculdade e uma igreja nas proximidades, onde estudantes se refugiaram, estão cercadas. Um estudante morreu, baleado na cabeça.

Daniel Ortega em Masaya
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Daniel Ortega em Masaya Rodrigo Sura/EPA
Membros da comitiva de Ortega em Masaya
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Membros da comitiva de Ortega em Masaya Rodrigo Sura/EPA
Apoiantes do Presidente no desfile em Masaya
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Apoiantes do Presidente no desfile em Masaya Oswaldo Rivas/Reuters

Forças paramilitares fiéis ao Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, cercaram na sexta-feira a Universidade Nacional Autónoma, em Manágua, e dispararam tiros contra um grupo de estudantes que ali se mantinha barricado exigindo a demissão do chefe de Estado. Alguns estudantes, vários feridos, refugiaram-se na igreja da Divina Misericórdia, nas proximidades, também cercada e atacada — um dos estudantes, Gerald Vásquez, atingido na cabeça, morreu já na igreja, confirmou neste sábado a arquidiocese. 

“Padres, jornalistas e estudantes feridos nacionais e estrangeiros, cercados por paramilitares na reitoria da Divina Misericórdia Freguesia de Manágua. Tentamos que alguém consiga chegar junto deles”, escreveu na sexta-feira à noite o bispo auxiliar da Arquidiocese de Manágua, Silvio José Báez, na sua conta na rede social Twitter.

De acordo com o jornal da Nicarágua La Prensa, o núncio apostólico, cardeal Leopoldo Brenes, acompanhado por uma delegação das Nações Unidas, deslocaram-se à Divina Misericórdia com o objectivo de negociar a retirada dos estudantes que resistiram ao ataque dos paramilitares e levar os feridos para um hospital. 

No interior da igreja estão também sacerdotes e dois jornalistas nicaraguenses que faziam reportagem na universidade, José Noel Marenco, da televisão 100% News, e Sergio Marín, da emissora La Mesa Redonda. Outros dois que ali se refugiaram, Ismael López, da BBC Mundo, e Joshua Partlow, do The Washington Post, saíram na sexta-feira à noite, segundo a agência de notícias Efe, depois de várias conversas entre elementos da polícia e um representante da Cruz Vermelha.

"Eles querem matar-nos a todos", disse um estudante ao 100%.

O ataque das forças paramilitares fortemente armadas, acompanhadas de grupos de polícias, aconteceu no dia em que se cumpriu uma greve geral e em que Daniel Ortega, acompanhado por uma comitiva — em que alguns elementos levavam a cara coberta, segundo o La Prensa — participou numa celebração em Masaya. É cidade bastião da revolução sandinista, pois foi dali que os rebeldes lançaram o ataque contra o ditador Anastasio Somoza em 1979. A celebração marca a retirada dos rebeldes de Manágua para Masaya onde se reorganizaram para o ataque final vitorioso, a 19 de Julho. 

Pelo menos 351 pessoas morreram e 261 estão desaparecidas (números da Associação Nicaraguense pelos Direitos Humanos) desde o início, em Abril, dos protestos contra Ortega e a sua mulher e vice-presidente, Rosario Murillo, acusados de abuso de poder e de corrupção. Ortega, de 72 anos, pode recandidatar-se, pois aboliu o limite de mandatos, mas muitos analistas dizem que a seguir pretende fazer eleger a sua mulher para a presidência. 

Em Masaya, Ortega, que tem acusado os opositores pela violência, lamentou a crise no país e pediu unidade: “Convidamos aqueles que têm pensamentos políticos diferentes, os produtores, os camponeses, as empresas, as micro-empresas, a optarem pelo caminho da paz”, disse, ao mesmo tempo que garantia que não havia qualquer ordem para as forças da ordem atacarem os grupos de manifestantes e revoltosos.

Mas em Masaya, a 30 quilómetros de Manágua, e depois do discurso de Ortega, pelo menos duas pessoas morreram em confrontos em que a polícia usou armas pesadas contra os manifestantes, segundo a Associação Nicaraguense pelos Direitos Humanos.

Nos protestos, a população — e os sectores que têm exigido mudanças, como os empresários e a Igreja Católica —, tem-se pedido eleições antecipadas para travar a crise e a violência. Porém, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Denis Moncada, já afastou essa possibilidade: “Não se pode violar a Constituição e obrigar o Governo a fazer o que alguns grupos querem”.

Na reed social Twitter, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, exigiu o fim imediato das "acções de violência e da repressão do Estado contra a população civil" e disse que os "autores dos ataques devem ser responsabilizados pelos crimes".