Um jogo de prestígio para poucos e de milhões para alguns

O encontro de atribuição dos terceiro e quarto lugares do Mundial levanta reservas, mas continua a gerar interesse fora das quatro linhas.

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Reuters

Não há muito como fugir a este raciocínio: o jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares do Campeonato do Mundo de futebol é mais uma variação da perspectiva do copo meio cheio ou meio vazio. Para uns, normalmente as selecções que tendem a ficar pelo caminho mais cedo, será o carimbo definitivo que atesta o estatuto de revelação do torneio; para outros, habitualmente os candidatos ao título, nem sequer chega a ser um prémio de consolação — é quase como um castigo prolongado. Certo é que o encontro que antecede a final do Mundial, e que hoje (15h) opõe Inglaterra à Bélgica, (há muito que) veio para ficar.

A “tradição” instituída pela FIFA foi inspirada na prática corrente nos Jogos Olímpicos, que disseminaram a cultura do pódio e das medalhas como forma de reconhecimento da performance dos atletas. Para os defensores desta solução no universo do futebol, o contributo que advém desta partida para actualizar o ranking das selecções é um argumento comum, enquanto os detractores deste formato criticam, acima de tudo o resto, o residual interesse competitivo que rodeia o encontro.

Num calendário de um mês de duração, em que há que respeitar os tempos de recuperação dos jogadores, especialmente numa fase em que os minutos acumulados já fazem soar os alarmes, o jogo de atribuição do terceiro lugar serve também para preencher o período que medeia entre a segunda meia-final e o encontro decisivo. É por isso que, por regra, é agendado para a véspera da final. É a dimensão do negócio a falar mais alto.

Para as selecções em questão, a diferença entre terminar em quarto ou em terceiro lugar é de 1,7 milhões de euros (18,8 milhões em prémios, no total do torneio, para o derrotado e 20,5 milhões para o vencedor). Para a FIFA, é uma ocasião para arrecadar mais uns milhares de euros em receitas de bilheteira. Para os patrocinadores da competição, mais uma oportunidade para divulgarem a marca. Para as televisões, uma fonte suplementar de audiências.

E não pode dizer-se que os espectadores e telespectadores estejam propriamente desinteressados. De todas as edições do Mundial disputadas até agora, só seis viram a luta pela medalha de bronze registar uma assistência inferior à média do torneio (1934, 1938, 1982, 1986, 2006 e 2010). Em 1994, nos EUA, o encontro que opôs a Suécia à Bulgária, em Pasadena, atraiu mesmo um número invulgarmente elevado de espectadores: concretamente 91.500, mais 22 mil adeptos do que a média dessa competição.

Há vários factores que podem concorrer para uma maior ou menor afluência ao estádio nestas alturas, mas um dos que têm feito a diferença é a presença (ou ausência) da selecção anfitriã no penúltimo encontro da prova. Foram cinco as ocasiões em que isso sucedeu e apenas numa delas os números foram idênticos aos do resto do Campeonato do Mundo: aconteceu na Alemanha, em 2006, numa partida disputada, curiosamente, diante de Portugal. Nas cinco restantes (2014, 2002, 1990 e 1962), o total de espectadores (a maioria dos quais apoiante da equipa da casa) superou largamente a média.

Neste contexto, a surpreendente campanha do Chile (1962) ou da Coreia do Sul (2002) contribuíram para um acréscimo de interesse no país e para que ambas as selecções — entre outras “surpresas” que chegaram ao jogo que dá acesso ao último lugar do pódio — olhassem para este copo como meio cheio. O mesmo não poderá dizer-se dos candidatos crónicos ao título que tiveram de disputar um jogo sem glória, como aconteceu com o Brasil em 2014 (derrota com a Holanda depois da humilhação diante da Alemanha).

Ainda assim, e voltando a puxar os cordelinhos do negócio, há quatro anos o interesse dos brasileiros (e dos adeptos em geral) não esmoreceu ao ponto de virarem costas ao desafio. Basta ver que foram 287,2 os milhões de telespectadores que estiveram colados ao ecrã, em directo, naquele que foi o sétimo jogo mais visto desse Mundial.