A monocromática Croácia desafia uma França multicultural

Há jogos que ficam na memória e as duas selecções que disputam este domingo a final do Mundial de futebol partilham um com duas décadas. Nos Balcãs, política e futebol sempre estiveram de mãos dadas e esta sombra voltou a pairar na Rússia.

Mandzukic, autor do golo que levou a Croácia à final do Mundial 2018
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Mandzukic, autor do golo que levou a Croácia à final do Mundial 2018 DAMIR SAGOLJ/Reuters

Davor Suker e Didier Deschamps são velhos conhecidos da bola. O presidente da federação croata e o seleccionador francês defrontaram-se em três partidas oficiais como jogadores, nomeadamente numa final da Liga dos Campeões de 1997-98. Mas o confronto de que se vão lembrar este domingo ocorreu pouco tempo depois, no Stade de France, em Paris. Há 20 anos e uma semana.

A França e a Croácia decidiam o acesso à final do Mundial de 1998. Duas gerações de ouro de futebolistas à procura de fazer história no futebol.

Suker era a figura maior de uma selecção balcânica nascida com a independência do país – em Outubro de 1991 – e que disputara a sua primeira partida oficial menos de quatro anos antes, em Setembro de 1994. A "tricolor" liderada por Deschamps, e com o galáctico Zinedine Zidane a encabeçar uma constelação de estrelas, procurava a sua primeira coroa mundial depois de décadas de fracassos.

Recuemos um pouco. Dois anos antes deste encontro decisivo, a jovem Croácia tinha entrado de rompante no seu primeiro torneio internacional. Qualificou-se para o Euro 1996, à frente da poderosa Itália, e integrou o grupo de Portugal no arranque da fase final, em Inglaterra.

Os dois conjuntos defrontaram-se no último jogo da primeira fase já com os croatas classificados e a selecção nacional, liderada no banco por António Oliveira, goleou por 3-0. A equipa portuguesa – onde brilhavam Vítor Baía, Fernando Couto, Paulo Sousa, João Pinto, Rui Costa e Figo – não iria muito mais longe, derrubada nos quartos-de-final pelo golo do checo Karel Poborsky.

O mesmo aconteceu aos croatas, que perderam com a Alemanha (a mesma que conquistaria o título) por 2-1. Suker apontou o golo de honra. As exibições dos balcânicos foram promissoras, como se viria a verificar no Mundial que se seguiu.

Em 1998, depois de encerrarem a fase de grupos na segunda posição, atrás da Argentina, ultrapassaram a Roménia (oitavos-de-final) e vingaram-se da Alemanha ("quartos") com um robusto 3-0. A França, a jogar em casa, era o derradeiro obstáculo antes da final.

O carrasco Thuram

Sem golos no primeiro tempo, a segunda metade haveria de ser electrizante. Davor Suker deixou o seu jovem país em transe ao inaugurar o marcador, aos 46’, para escândalo do público nas bancadas.

Mas o sonho começou a desmoronar-se logo no lance seguinte, a abrir uma noite memorável do defesa central Lilian Thuram, nascido na ilha caribenha de Guadalupe. Empatou o encontro e bisou aos 69’ para selar o triunfo francês. A via estava aberta para o título que seria confirmado frente ao Brasil neste mesmo palco do bairro de Saint-Denis – onde Portugal também festejou em 2016.

Os croatas continuam a digerir mal este desfecho. “O meu pai disse-me sempre que o árbitro foi muito parcial e prejudicou a Croácia. Não queriam tirar da final a selecção da casa”, garantiu este sábado ao PÚBLICO Kovac, de 23 anos, a passear nas imediações do Estádio Luzhniki, em Moscovo.

O jovem é muito novo para se recordar daquele que era, até há dias, o maior momento do futebol croata. A equipa alcançaria o terceiro lugar ao bater a Holanda, por 2-1, com golos do incontornável Suker e de Robert Prosinecki.

A primeira geração de ouro de futebolistas croata “falhou”, mas o país tem hoje os olhos postos na segunda fornada de talento. O adversário é o mesmo, mas o campo é agora neutro e, desta vez, trata-se de uma final.

“Esta geração já superou a nossa. Fomos bronze e eles vão ser, pelo menos, prata”, constatou Davor Suker, após o suado triunfo da sua selecção sobre a Inglaterra (2-1), na quarta-feira. Para a final, o presidente da federação convidou todo o elenco que esteve consigo em França há 20 anos.

“Pensávamos que a campanha de 1998 não voltaria a suceder, mas aconteceu. É incrível, mas a Croácia está na final”, congratulou-se o melhor marcador do torneio francês.

País de futebol político

Com pouco mais de quatro milhões de habitantes, a Croácia é uma potência futebolística. Mas não só. É um “gigante” no desporto em geral, com talento em muitas disciplinas, como comprova o 17.º lugar no ranking dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, há dois anos. Destaca-se particularmente em modalidades como o ténis, andebol, basquetebol ou pólo aquático.

Mas é o pontapé na bola que levanta o país numa espiral de orgulho nacionalista, que muitas vezes extravasa (e de que maneira) o campo desportivo e abraça apertadamente o político.

Rebobinemos o filme do futebol croata até ao fatídico dia 13 de Maio de 1990. A Jugoslávia ainda está de pé, mas no final daquela Primavera quente a tensão na federação é indisfarçável. Mais tarde muitos a comparariam ao Verão de 1939, antes da louca tempestade que varreu o mundo.

No Estádio Maksimir, na capital da Croácia, o Dínamo de Zagreb recebe o Estrela Vermelha de Belgrado, o mais emblemático clube da Sérvia, que venceria a Taça dos Campeões Europeus na temporada seguinte. Nas bancadas, as claques mais radicais das duas formações reatam os incidentes violentos que já vinham do exterior. Uma autêntica batalha que haveria de ferir aproximadamente 60 pessoas e que se propagou rapidamente ao relvado.

Zvonimir Boban, capitão do Dínamo, então com 21 anos, transformou-se num herói para os separatistas ao atacar um polícia que estava a agredir um adepto croata. Seria suspenso pela federação jugoslava durante seis meses, ficando de fora do Mundial desse ano, em Itália.

Incidentes brutais que expuseram as tensões étnicas na Jugoslávia e seriam o prelúdio da sangrenta, cruel e longa guerra civil que acabaria por desmembrar a “harmoniosa” federação socialista idealizada por Tito, depois da II Guerra Mundial.

Boban prosseguiu a sua carreira no AC Milan, em 1992, iniciando uma longa estadia, já após a independência e com o novo país mergulhado no conflito. Foi um dos heróis da epopeia de 1998, em França, e estará também na tribuna do Luzhniki. Nunca mais quis falar sobre o tal jogo de Zagreb, assim como nenhum dos seus antigos companheiros do Dínamo.

Futebol e política continuam de mãos dadas, envolvendo alguns dos actuais símbolos da selecção croata. Em 2012, o ponta-de-lança Mario Mandzukic, grande figura do triunfo sobre a Inglaterra nas meias-finais (ao apontar o golo do triunfo já no prolongamento), causou grande polémica quando representava os alemães do Bayern Munique. Fez uma saudação nazi no relvado e justificou depois que estaria a celebrar a absolvição de dois generais croatas, acusados de crimes de guerra, no Tribunal de Haia.

Já neste Mundial, o defesa central Domagoj Vida deixou a FIFA em choque ao manifestar o seu apoio à Ucrânia, envolvida num conflito com a Rússia. Tudo num vídeo publicado nas redes sociais pouco depois de a Croácia eliminar a selecção da casa nos quartos-de-final, na decisão por grandes penalidades. O ex-jogador do Dínamo de Kiev, de 29 anos, gritou “Slava Ukrayini!” (“Glória à Ucrânia!”) e não satisfeito ainda provocou a vizinha Sérvia: “Fogo a Belgrado!”

A reacção russa não tardou. “Foi um desafio, uma provocação”, acusou Franz Klintsevich, membro do Parlamento, em Moscovo. Sob risco de ser punido pelo organismo máximo do futebol, e pressionado pela sua federação, Vida pediu desculpas públicas e garante que tudo foi uma “brincadeira”. “Adoro o povo russo. Não se tratou absolutamente de nada político, mas de uma simples mensagem de agradecimento pelo apoio que recebemos da Ucrânia durante todo o Mundial.” A FIFA está a investigar.

França mais multicultural

À espera das consequências, se as houver, está também a França, que pode conquistar este domingo o segundo título da sua história no torneio global. Com a traumática derrota com Portugal na final do último europeu, em Paris, ainda bem presente, os “bleus” procuram refrear euforias antecipadas, como em 2016.

Depois da jornada gloriosa de uma grande geração de futebolistas, em 1998, os "tricolores" voltam a ter uma equipa de sonho, que aprendeu com os erros de duas décadas. Uma selecção mais multicultural do que nunca.

Nos 23 jogadores escolhidos por Deschamps para a Rússia apenas cinco são franceses de gema. Ou seja: nascidos no país e com pais franceses. Há 20 anos eram 11. Deste rol, 15 têm pais imigrantes (eram 7 em 1998) e três nasceram fora do losango europeu. Um contraste absoluto com a monocromática Croácia.