Uma “orquestra de poesia” num casamento quase perfeito entre a palavra e a música

A Lisbon Poetry Orchestra junta vozes e músicos num projecto que já deu origem a um livro-disco para ver, ouvir e usar. Este domingo actua em Tavira, no Cenas na Rua.

António Chainho, Ghude - Gestão De Carreiras E Concepção De Eventos Unipessoal Lda.
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Os oito elementos da Lisbon Poetry Orchestra Vitorino Coragem
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Uma das ilustrações de Daniel Moreira para o livro-disco Poetas Portugueses de Agora

Quatro vozes, quatro músicos, um projecto singular: a Lisbon Poetry Orchestra junta poesia e música em espectáculos e também num livro-disco que é o cartão-de-visita do grupo. Alexandre Cortez, Alex, músico e produtor (Rádio Macau, Wordsong, Palma’s Gang), um dos fundadores desta “orquestra de poesia”, explica ao PÚBLICO como tudo começou: “A génese disto vem das sessões dos Poetas do Povo que organizamos há cinco anos. Sessões temáticas de poesia, às segundas-feiras [já ultrapassaram 250], com o objectivo de dessacralizar a ideia das sessões de poesia fechadas, formais, e tentar abrir esse espaço ao público. Na altura, por brincadeira, até lhe chamávamos poesia de proximidade.” Ou seja: sessões de microfone aberto. “E há cada vez mais pessoas a quererem participar. Mas qual era a grande diferença destas sessões? É que tinham um músico, que mudava todas as semanas, que ia ilustrando com música a palavra dita.”

Até que, um dia, quiseram experimentar o mesmo formato com mais músicos. “Foi em Novembro de 2014 e alguém disse assim: ‘isto parece uma orquestra de poesia’. Aquilo ficou a trabalhar na nossa cabeça e apresentámos uma proposta ao Centro Cultural de Belém (CCB) de fazer no dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia, uma sessão a que chamámos De Lisboa para o Mundo, convidando uns quantos declamadores. Nas sessões de preparação notou-se logo que havia uma grande empatia musical, as coisas fluíam.” E o grupo nasceu.

Forte ligação à palavra

“Obviamente não são canções”, diz Alex. “Mas as músicas acabaram por ter uma forte ligação à palavra, até porque houve um processo em que nós líamos os poemas e a seguir começávamos a tocar. E notava-se um casamento quase perfeito entre a palavra e a música.”

O resultado foi gravado num disco gravado em estúdio e distribuído nesse dia no CCB, “uns 300 exemplares.” Como funcionou bem, com uma “reacção calorosa” do público, resolveram levar o projecto mais a sério. “Começámos a trabalhar com este grupo de quatro declamadores (o André Gago, o Miguel Borges, o Nuno Miguel Guedes e a Paula Cortes), todos eles assíduos participantes dos Poetas do Povo.” Começaram a surgir convites, solicitações, e isso deu-lhes a ideia de fazerem espectáculos temáticos. “Fizemos um, no São Luiz, chamado A Poesia das Revoluções, com a banda sinfónica da PSP. Foi curioso, porque o entusiasmo do maestro ajudou muito. Fizemos também A Rosa do Mundo, baseado na colectânea que o Hermínio Monteiro editou. E entretanto começámos a pensar em fazer algo mais consistente, que pudesse fixar a matriz da Lisbon Poetry Orchestra.”

Convidaram poetas, alguns novos e outros já nem tanto, “mas de uma certa nova poesia.” Porque o facto de, na cidade, proliferarem sessões de poesia, dava a tais projectos uma aparência de movimento, e já com um público fiel.

Agora, poetas de agora

Foi isso que conduziu ao livro-disco Poetas Portugueses de Agora (inspirado, confirma Alex, no célebre disco Poetas Andaluces de Ahora, do grupo espanhol Aguaviva), onde às vozes de André Gago, Miguel Borges, Nuno Miguel Guedes e Paula Cortes e à música de Alex Cortez (baixo, programações), Filipe Valentim (teclados), Luís Bastos (clarinete, saxofone e guitarra acústica) e Tiago Inuit (guitarra eléctrica) se juntaram alguns convidados: Luís Barros (percussões), Laurent Rossi (trompa) e o quarteto de cordas Naked Lunch (Francisco Ramos, Fernando Sá, João Paula Gaspar e Tiago Rosa). A poesia, essa, foi a de Cláudia R. Sampaio, Daniel Jonas, Filipa Leal, Paulo José Miranda e Valério Romão. O livro, com desenhos de Daniel Moreira, é da Abysmo.

Mas não se pense que se tratou de musicar poemas pré-existentes, pelo contrário. “Nós compusemos umas 20 músicas e depois enviámos lotes dessas músicas aos poetas (cada um escolhia três), com o compromisso de escreverem influenciados por elas. A única excepção foi a Filipa Leal, que estava no estrangeiro, que nos perguntou se podia escolher poemas dela já escritos que achasse que faziam sentido com a música.”

O livro-disco, que é um sketch-book (com os poemas, desenhos, biografias e páginas em branco, para que quem o adquira ali escreva os seus próprios poemas), tem dois CD: um com os poemas ditos, em ligação com a música; e outro só instrumental, chamado Música para sessões privadas de poesia, para que cada um a use como lhe aprouver.

Este domingo, a Lisbon Poetry Orchestra vai apresentar-se ao vivo no 14.º Cenas na Rua – Festival Internacional de Teatro e Artes na Rua de Tavira, no Algarve. Será na Praça da República, às 22h, e terá como convidado o Quarteto Naked Lunch.